sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Maquiavel anda rondando por aí?

Quando o idealismo está por um fio, já se vai o tempo de o idealista estudar o inimigo para saber direito como o diabo pensa... Assim é que esta Ruminação trata de repassar o pensamento de Maquiavel.

Maquiavel defende a necessidade de praticar o mal, porque acha que – no mundo real – o idealista não sobrevive. Há muita gente jogando sujo e quem joga limpo não tem vez.

Para ele, não importa como deveria ser: importa como é. Os homens dão valor às aparências: quase ninguém dá valor ao que não vê. Os ideais valem pouco, o que comanda é a necessidade. O que existe, o que vale, é a vulgaridade e não o pensamento de uma meia dúzia de falsos sábios. O que há no mundo é incoerência: não há possibilidade de coerência.

Segundo ele, a república não se mantém buscando um ideal; o patriotismo não mantém a república, o que mantém a república é o medo. Assim ensina Maquiavel. A população deseja ser comandada, embora não reconheça esse desejo, assim como não reconhece muitas de suas próprias necessidades. É preciso enganar o povo dizendo que a justiça é possível, embora se saiba que não é.

Assim recomendava Maquiavel a César Borgia, filho do Papa Alexandre VI. Que agisse como fosse necessário e explicasse depois. Que declarasse ser contra a fraude e a força, mas, incoerentemente, usasse a fraude e a força. Foi o que cardeal César Borgia fez, com algum excesso, possivelmente.

Para concluir, olhando daqui do sítio, e tomado por certo misticismo, antevê-se uma boa chance de Maquiavel reencarnar, nem que seja metaforicamente. O pior é que parece que ele tem razão, ao menos em parte do que diz.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A CLASSE MÉDIA, MARX E AS ABELHAS.

A classe média vem sendo dizimada praticamente em todo o Ocidente. Uma teoria para explicar a razão disso é que a burguesia está desaparecendo porque o avanço da tecnologia e a globalização têm roubado os empregos que antes cabiam a ela. Com o progresso, as máquinas fazem o trabalho e os homens ficam ociosos. Será mesmo?

Um artigo publicado no jornal inglês The Guardian (Suzanne Moore, 28/08/2013) aponta o Brasil e a Turquia como raros lugares em que a classe média protesta nas ruas: no resto do mundo vai morrendo sem espernear. O artigo afirma mais: a ideologia que sustenta a classe média está desaparecendo com ela. Sobriedade, autocontrole, trabalho árduo, honestidade, patriotismo, são valores que, então, vão sendo derrotados, desacreditados. Os novos valores passam a ser ganância, ostentação, arrogância, desonestidade. É o que funciona, é o que se vê, é o que dá resultado imediato.

O diabo é que, em um cenário assim, Marx se ergue do túmulo cheio de razão. Ele previa uma “ditadura do proletariado”, último passo antes de se chegar a uma sociedade sem classes, sem o Estado. E assim, sem a burguesia, meia dúzia de milionários ficam diante da massa esfomeada. Isso não é novidade na história. Sem a classe média, o Estado se desagrega, fica difícil existir paz social.

Então, Marx previu bem? Ele sempre afirmou que o Estado tem o único propósito de servir como instrumento de poder(1). Entendia que a classe média não quer o poder, quer apenas proteção para a família, para a propriedade. Assim, o Estado serve ao capital e, em troca, garante a vida tranquila da classe média. Por isso, Marx acreditava que a melhor forma de governo seria aquela que precipitasse o fim do Estado, porque nunca acreditou que o Estado pudesse proporcionar justiça ou o bem comum, como propunham os filósofos gregos.

Vale lembrar que Aristóteles, ao contrário do Marx, valorizava o papel da classe média: dizia que a virtude está no meio-termo, longe dos extremos. Achava que a classe média promove o bem comum na medida em que valoriza a razão; enquanto os muito ricos e os muito pobres, por via-de-regra, apenas seguem seus desejos e instintos.

Enfim, o fantasma do Marx tem opositores mais velhos quando vem assombrar a classe média. De qualquer forma, esta ruminação é para os burgueses. Proletariado, em geral, não lê coisa que leve a refletir. E quem está no poder, normalmente, também não.

A única saída para a classe média continuar a existir parece ser a volta da honestidade, da justiça, da coragem, da moderação. A força que a classe média tem seria moral, aliás, só pode ser moral. Essa é a ideia que se defende aqui: que a força viria da ética.

Por outro lado, não há saída para a burguesia se não houver um Estado que garanta uma ordem, que recompense os valores praticados. Afinal, quem é honrado só obtém resultados em um ambiente honrado. A moralidade tem que ser, antes de tudo, um sentimento ligado à prática.

Fica então a pergunta: como a força moral acabaria construindo e consolidando um Estado decente? O argumento é clássico(2): as abelhas não se unem para fazer o mel; fazem o mel porque estão unidas. Primeiro os valores, a ética, depois os resultados. Como se vê, a saída para a classe média tem poucas garantias - mas existiria outra?

(1) A Teoria das Formas de Governo - Norberto Bobbio Ed Univ. de Brasília pg 164
(2) De Officiis - Cicero Liber Primus [157]

sábado, 24 de agosto de 2013

A Corrupção e a Consciência da Culpa

Corrupção significa apodrecimento. E como é, então, que nos habituamos com a corrupção, como nos conformamos com a podridão? Como acontece essa decomposição moral? Vai aqui um esboço inicial; um pequeno ensaio sobre as circunstâncias em que a corrupção ocorre. Assim, esta ruminação é sobre esse processo traiçoeiro de dissolução, de degradação; tão sutil que acaba sendo aceito como normal.

Acontece que, geralmente, corrupção e má fé vêm juntas no mesmo pacote. Sartre explica bem o que significa isso: má fé. Quem usa de má fé tem a posse completa da verdade, mas, antes de tudo, turva sua própria visão, ilude a si mesmo. Afasta da consciência uma parte dos fatos, distorce, atribui um novo significado ao que acontece. Passa a não se achar culpado, mesmo sabendo que tem culpa. Oscila entre a boa fé e o cinismo.

O salário absurdo que o político ou o juiz atribui a si mesmo, o uso indevido que faz dos recursos públicos, corporativismo, clientelismo, tudo isso é apresentado sem a menor vergonha, aliás, pomposamente, por via de regra. O corrupto não perde a pose, ao contrário, age como se fosse corretíssimo, cerca-se de toda a cerimônia. O ritual, o simbolismo que serve para a corrupção, é o mesmo que serve para os atos mais nobres. A população então confunde rótulo com conteúdo. Acredita. O próprio corrupto não se acha corrupto. A má fé impede que a pessoa se dê conta da corrupção. Esse é um fato importante.

Além da má fé, há outra circunstância que normalmente disfarça a corrupção: é a má administração, a má gestão. Há muitos anos saiu um estudo sobre roubo nas empresas. A conclusão foi que, geralmente, o roubo está associado à falta de controle, de gerência. O ladrão então não se acha ladrão: diz para si mesmo que aquilo não tem dono, que ninguém se interessa pelo objeto que ele quer roubar, que tanto faz levar como deixar lá; se ele não levar, outro leva. Rouba sem culpa.

A pequena população da Islândia – 320 mil habitantes – deu-se conta de quanto a má gestão se confunde com o roubo. Geir Haarde era primeiro ministro no tempo em que faliram os bancos islandeses, privatizados havia pouco. Muita gente ficou endividada, empobreceu por isso. Haarde acabou sendo levado a julgamento. Aí se fez a distinção: não foi condenado por corrupção: foi condenado por incompetência. Alguns banqueiros, esses sim, acabaram presos.

Temos visto, então, tanto a ma fé quanto a má gestão promovendo um roubo sem culpa, ou seja, a má fé e a má gestão camuflam a dissolução dos costumes, escondem a degradação moral, a corrupção. Isso ficou patente no caso da Islândia. No resto do mundo, nem os políticos foram julgados nem os banqueiros presos pela crise de 2008. A mídia abafou o caso. Agiu de má fé. O pouco que foi noticiado sobre a Islândia omitiu a corrupção. O caso apareceu como confronto partidário, como disputa entre direita e esquerda. Muitos políticos e muitos milionários – de esquerda e direita – na Europa e nos EUA, não gostariam de ver a corrupção levada aos tribunais...

terça-feira, 30 de julho de 2013

E-mails sobre o islã

Aparecem agora uns e-mails sobre o islã. Falam como se o islamismo fosse uma novidade horrível: apareceu uma religião malvada. As religiões sempre foram todas boazinhas, e agora surge essa, perversa. No entanto, que tal abrir o livro de história e ver que cristãos e muçulmanos andam às turras há 1500 anos? Faz tempo que conhecemos os islamitas, ou maometanos, ou muçulmanos, ou sarracenos. De acordo com a conveniência, damos um nome diferente a eles.

Vai aqui então uma complementação, mostrando só um pouquinho mais sobre o islã; e sobre nós mesmos. Possivelmente, quem não sabe dos islamitas, também não sabe dos cristãos. Vamos então a alguns fatos ilustrativos; primeiro, um mais próximo de nós, na Espanha.

Por volta do ano 711, árabes e berberes islamitas invadiram a península ibérica. Derrotaram logo os visigodos, que haviam aderido ao cristianismo. A população acolheu os invasores, que os tratava bem melhor que os antigos governantes.

Durante os quinhentos anos que ficaram por lá, os árabes foram, em geral, excelentes administradores. Os impostos, mesmo para os não maometanos, acabaram sendo inferiores aos que os visigodos, aliados aos bispos, vinham cobrando. Preocupavam-se com o povo: um quarto dos impostos recolhidos ia para os pobres; construíram 70 bibliotecas... Vale lembrar que Córdoba acabou sendo a terceira cidade mais importante do mundo, atrás apenas de Bagdá e Constantinopla. Mostraram-se tolerantes; não tentaram converter ninguém. O clima era de liberdade. Por exemplo, o califa Hakam II tinha um judeu como primeiro ministro. Casamentos entre muçulmanos e cristãos eram permitidos. Um filósofo deles, Averróis (Ibn Rushd), apresentou uma nova visão da filosofia de Aristóteles, que impressionou até mais aos cristãos que aos próprios maometanos. Assim é que, na Espanha, em geral, os islamitas árabes deixaram uma boa impressão.

Longe da Espanha, em uma Jerusalém naquele tempo dominada por eles, conviviam em paz judeus e cristãos. Havia um templo cristão no Santo Sepulcro – construído sob mando maometano - com capacidade para 8 mil pessoas. E havia a sinagoga. No ano 1099 chegou por lá a Primeira Cruzada. Após 40 dias de cerco, 12 mil cristãos lutando contra 1000 islamitas acabaram por tomar a cidade. Durante 24 horas torturaram e mataram 70 mil pessoas. Os judeus, que se refugiaram na sinagoga, foram queimados vivos.

Mais recentemente, os cristãos Bush e Blair resolveram atacar o Iraque. Usaram munição com urânio empobrecido. Hoje, nas regiões onde houve combate, os hospitais estão lotados por pacientes com câncer. Estima-se que cerca da metade da população da região morrerá nos próximos anos, principalmente de neuroblastoma. E teve a bomba atômica em Hiroshima, lembra? E depois Nagasaki, porque que uma cidade só não bastou. Os cristãos, aparentemente, rezam radiação atômica para tratar os não cristãos. Entre nós mesmos - cristãos misericordiosos que somos - usamos armamento convencional, como o “carpet bombing” que arrasou Dresden na Segunda Guerra... Como se vê, o cristianismo não tem muita relação com Cristo.

Chegando aos dias de hoje, talvez a novidade seja que vivem atualmente cerca de 25.000 judeus no Iran. Aliás, os judeus andam lá pela Pérsia há uns 2500 anos... Não foram trucidados, como os e-mails frequentemente fazem supor.

Então, pelo que foi dito acima, pode parecer que o demônio somos nós, cristãos. Não se trata disso; apenas não se deu espaço aqui para listar atrocidades deles também. O propósito foi só o de ampliar o quadro que vem aparecendo na Internet, incluindo a visão do outro lado. Só para equilibrar um pouco.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

PALAVRA DE HONRA

Esta ruminação aproveita o avanço tecnológico de hoje para trilhar um caminho antigo. Explicando melhor, resgata, pela Internet, um texto original em latim e também uma tradução; e revê o que parece perdido no tempo: a palavra de honra.

Vamos a uma época em que os velhos não se dedicavam tanto a imitar os jovens. Em vez disso, procuravam contar o que sabiam aos mais moços, para que as experiências passadas servissem às novas gerações.

Vamos então de volta ao De Officiis, um ensaio que trata das obrigações, dos deveres. Foi escrito por Cícero, no ano 44 a.C. Na sua última parte, compara o “levar vantagem” com o comportamento honrado. Acaba afirmando que o esperto – o esperto de fato, aquele que leva vantagem maior mesmo - é, afinal, o honesto. Não há ganho real com a degradação, a vantagem que se obtém é fugaz.

Cícero escreveu o De Officiis para o filho. Preocupava-se, porque achava que vivia em um tempo acostumado à corrupção. Talvez por isso – por encontrar poucos exemplos honrosos em volta – tenha então escolhido contar o que havia acontecido duzentos e onze anos antes. Assim é que culmina analisando bem o comportamento de um exemplo ancestral de virtude cívica: Marcus Atilius Regulus.

Regulus, cônsul romano, havia sido capturado pelos cartagineses. Aconteceu que os inimigos respeitavam-se mutuamente, de tal forma, que as conversas evoluíram. E resultou que, sob juramento, o prisioneiro Regulus foi solto e enviado a Roma. Iria como mensageiro. Deveria negociar - em casa - a sua própria troca por nobres cartagineses cativos. Caso a proposta fosse aceita, ele ficaria livre e os cartagineses seriam libertados pelos romanos e escoltados de volta para sua terra. Caso contrário – se a troca fosse recusada – Regulus deveria manter seu juramento: voltar a Cartago e entregar-se.

Então, tendo chegado a Roma, ele se dirigiu ao senado. Primeiro, disse que, estando sob juramento feito ao inimigo, considerava-se impedido de votar. Depois, esclareceu que a troca não seria vantajosa. Seria um mau negócio para Roma aceitar a proposta: ele, um velho, seria trocado por jovens capazes (1). Em outras palavras, discursou aparentemente contra si mesmo, mostrando que sua libertação seria contrária aos interesses do estado.

Para encurtar a história, o senado se opôs mesmo à troca de prisioneiros. E Regulus honrou sua palavra, voltando para Cartago, onde foi morto.

E então Cícero pergunta: Regulus foi burro? Por qual razão cumpriu seu juramento, se sabia que perderia a vida por isso? Estaria obrigado a cumprir um juramento feito sob coação?

Cícero argumenta que a vantagem verdadeira sempre está em ser honesto. "O que é desvantajoso para o estado pode ser vantajoso para o cidadão?(2)”. O que seria dos romanos se aprendessem que os senadores não são confiáveis?

E acaba por concluir que "Quem viola um juramento viola a fé (3)”. Morrer é melhor do que perder a honra.

Morrer é melhor do que perder a honra! Será? Lembro da notícia do suicídio do Getúlio Vargas em 1954. Ouvi a notícia no rádio da sala. Que espécie de "esperteza" foi essa?

1 - adulescentes esse et bonos duces (Assim diz o texto em latim. A Internet nos torna capazes de descer a esses detalhes, se quisermos).
2 - Potest autem, quod inutile rei publicae sit, id cuiquam civi utile esse?
3 - Qui ius igitur iurandum violat, is fidem violat...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

EDUCANDO EM 1960 ATRAVÉS DE MÁXIMAS E PROVÉRBIOS

Em 1960, no Rio, mais precisamente, no Colégio Santo Inácio, cada aluno tinha uma agenda com espaços reservados, em cada página, para uma máxima e um provérbio.

E chegava uma hora do dia em que as quatro turmas da mesma série iam para uma sala muito grande: o “Estudo”. Era então que as frases eram copiadas. Iam para a agenda aqueles pedaços de sabedoria concentrada: uma máxima e um provérbio.

Isso foi há 53 anos. Naquela época o espírito crítico era incentivado. Supunha-se que os meninos iriam ler o que haviam escrito. Esperava-se que pensassem um pouco. Dessa forma, questões abstratas eram levadas a serem consideradas. Os alunos iam percebendo a necessidade de haver normas, orientações, diretrizes. Por outro lado, iam percebendo que essas generalizações são limitadas, não servem para aplicação automática: tudo depende das circunstâncias.

Mas vamos de volta para os dias atuais, e lá estou eu de novo a tropeçar em ditados, citações e coisas do gênero. Estão lá, em livros antigos, que me atraem mais. É que os livros com mais de cem anos parecem muito mais verdadeiros do que os lançamentos recentes. Aliás, lançamentos recentes... Lançamentos? De livros? Lançar flechas, ou mesmo lanças, como o verbo sugere, faz mais sentido. Lançar livros não parece um gesto sensato... O fato é que os clássicos estão aí, mesmo sem terem sido lançados, sem terem motivo comercial. E ainda hoje podem ser baixados de graça como e-books. Atravessam os séculos à margem do mercado; sobreviveram sem dar lucro esse tempo todo; hão de ter alguma coisa de especial, essas obras velhas.

Talvez esta ruminação devesse parar por aqui porque, afinal, atualmente se diz que, para o bom entendedor, meia palavra basta. No entanto, contradizendo isso, uns 20 anos antes de Cristo nascer já se cogitava de não tentar ser muito conciso. O empenho em dizer logo, em ser rápido, sacrifica a clareza: "Brevis esse laboro, obscurus fio.” (Tento ser breve, sou obscuro. Horácio, Ars Poetica 3).

Sendo assim, para ser melhor compreendido, prefiro seguir esse conselho mais velho e me alongar um pouquinho. Mas, afinal, para me assegurar mesmo, para ter certeza de que fui claro, melhor ainda seria seguir o conselho de Sto. Agostinho, conselho aliás dado por escrito no ano 391 d.C.: “Audi partem alteram”. (Ouve a outra parte. De Duabus Animabus, 14, ii). Quem sabe, afinal, a outra parte - no caso o leitor - deixa algum comentário...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A MULTIDÃO CERCA O SENADO HÁ 2.230 ANOS

Vendo as ruas tomadas por nossas mobilizações contra mazelas em geral e, de vez em quando, lendo os ensaios de Montaigne, acabei embaralhando as histórias. O que eu lia pareceu ter alguma relação com o que estava aparecendo na TV. Os escritos pareceram familiares. As imagens e declarações que a televisão mostrava neste junho de 2013 acabaram ligadas aos escritos do século 16 que, por sua vez, descrevem coisas acontecidas há mais de dois milênios. Vamos ver se, assim como eu, o leitor acha que histórias antigas, de repente, voltaram. Reaparecem agora com uma roupagem um pouco diferente, como reprise de novela.

Então, voltamos ao ano 217 a.C., quando Aníbal vinha avançando com o exército cartaginês sobre território romano. Em Cápua, o magistrado Pacuvius Calavius, apoiado pelos senadores, queria resistir. Ao contrário deles, o povo não queria guerra, queria paz. Queriam que fosse logo negociada uma rendição. A população estava furiosa com os senadores. Era o senado contra o povo. E o povo foi às ruas: cercou o senado. Não foi ontem em Brasilia, foi em Cápua, há 2.230 anos.

E eis que apareceu o Pacuvius Calavius. Com os senadores trancados dentro do senado, propôs ao povo que fossem então retirados um a um, para serem executados. Mas só se faria isso depois de um tipo de plebiscito: só se liquidaria um senador depois que o povo escolhesse outro como substituto; um político bom no lugar de um político mau.

Houve um longo silêncio. Ninguém na multidão sugeria um nome. Até que alguém fez isso: criou coragem e indicou seu candidato para primeiro novo senador! Mas o que se ouviu foi um clamor contra si: ainda maior do que a gritaria havida contra o senado. Outros nomes foram apresentados. Em vão. A multidão não se entendia. Dispersaram-se.

Muitos anos mais tarde, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.) Quem vai às ruas hoje no Brasil pretende o quê? Se as passeatas não querem apenas destruir, querem substituir qual coisa por qual coisa?

Tudo indica que o povo brasileiro deseja uma mudança muito ampla. Não queremos só novos políticos: queremos novos costumes, novos hábitos, novas crenças. Chegamos coletivamente à conclusão de que a “esperteza” dá errado, que a burrice não deve ser acatada. Não acreditamos mais que haja um “jeitinho” para cretinice grossa. Mas essa mudança ética, que intimamente todos acham necessária, ainda precisa ser vivida. Os costumes de um povo não são mudados assim da noite para o dia. Enquanto isso, haja plebiscito.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

AS CONSEQÜÊNCIAS DA ÉTICA

A ética muda e com ela mudam a política e as leis. E a ética, a política e as leis mudaram muito. O Antigo Testamento determinava que o ladrão restituísse o que havia roubado. E caso não tivesse meios para isso, que fosse então vendido como escravo (Êxodo 22,3). Roubou, devolve! Ah, não tem como devolver? Vai ser vendido como escravo. Como se vê, a maneira de tratarmos os ladrões agora é outra, muitíssimo diferente.

Durante séculos admiramos a força, a majestade. Meu pai, aos 93, ainda acha que os feitos de Napoleão são admiráveis. Hoje, estranhamos os costumes de antigamente. Por exemplo – lá por volta do século XVII – os meninos cantores dos coros católicos eram castrados para manterem a voz fina. Isso era feito para maior glória do Papa. A ética consolidava um poder concentrado, absoluto, inquestionável.

Como se vê, o tema desta Ruminação é a evolução dos nossos hábitos, das nossas crenças. Vamos tratar basicamente da ética, que regula nossa relação com os outros. Ocorre que a ética, os valores, os atos admirados e os atos condenados, tudo isso conduz um grupo a resistir ou a sucumbir.

Mas não escrevo inspirado pela Bíblia, e sim por uma palestra feita por Thomas Huxley na Universidade de Oxford, em 1893, intitulada “Evolution and Ethics”. Nesse discurso ele conceitua o papel da ética do ponto de vista da biologia. Compara a humanidade a um sujeito que resolve fazer um jardim em um lugar distante, onde havia até então vegetação natural.

E o jardineiro, empreendedor, movido por sua própria vontade, resolveu selecionar determinadas espécies e extirpar outras. Inibiu a multiplicação ilimitada. Cuidou de evitar os danos que o tempo pudesse causar às plantas selecionadas; adubou quando preciso. Em outras palavras, o jardineiro trouxe o seu conceito próprio de bom e de mau. Nem tudo o que era bom para a Natureza considerou bom para ele. Impôs sua ética.

A ética é uma criação humana; pode-se dizer então, artificial. O jardineiro está sempre tendo que lutar contra a Natureza. A natureza dele não é igual à do cosmos.

Com o progresso científico, com as máquinas trabalhando para os homens e o melhor aproveitamento dos recursos, a vida foi ficando mais fácil. E a ética foi mudando, foi-se tornando mais suave. Hoje, parece que o jardineiro desistiu da ética que admira os mais fortes. Foi para o outro extremo. Passou a dar toda a atenção aos marginalizados. A gravidez na adolescência passou a ser acolhida. Os drogados são acolhidos. Os ladrões são acolhidos. Prega-se uma tolerância infinita. Reprimir é malvisto. O juiz ladrão recebe meritíssima aposentadoria como pena.

Ocorre que, estabelecendo comportamentos para o indivíduo, dirige-se o destino do grupo. Não basta olhar para cada um, é preciso ver o conjunto. O que parece bom para o indivíduo, pode vir a ser mau para todos. Permitindo-se tudo, nada é viável. Cabe a pergunta: praticando a ética atual, sobrevivemos?

Tenho um amigo que fabricava uma cachaça (Souza Leão). Vinha escrito no rótulo: “Cuidadosamente natural”. Isso resume a proposta desta ruminação: uma ética que cuide dos seus limites.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ATRASO E PROGRESSO

“Tu pareces um bugre, um índio louco!”. A minha avó, uma gaúcha nascida no começo do século XX, às vezes me classificava assim. Tinha boas razões. De vez em quando ela me equiparava aos índios, que eram tidos como ignorantes, grosseiros. Atrasados.

Hoje, não se deve mais dizer “povo atrasado”. São apenas diferentes. Afinal, “adiantamento” e “atraso” são – em última análise - questão de opinião. Ou não?

Vamos estabelecer então que nesta ruminação não haverá pretensão de provar coisa alguma; vamos só especular um pouco, testando a nossa concepção do que seja “progresso”. É que esse assunto, tão exaustivamente discutido nos últimos séculos passados, saiu da moda, e deixou um vazio na alma...

Mas, voltando aos nossos índios, sendo ou não “atrasados”, o fato é que havia canibalismo por aqui. Agora ninguém defende mais um costume como esse, mas houve um tempo em que era defendido. Há vários relatos na nossa história. Quando Mem de Sá sucedeu a D. Duarte, o primeiro cuidado que teve foi o de proibir que os índios aliados comessem carne humana. Decretou com toda a autoridade de pessoa nomeada.

Ocorreu que um cacique se opôs ao decreto – Cururupebe. Não pretendia abrir mão de um ritual tão significativo. A carne do inimigo morto vinha cheia de tradição, de simbolismo. E, assim sendo, anunciou que não iria se curvar às ordens do governador. Em seguida, duzentas tribos que viviam às margens do rio Paraguaçu juntaram-se a ele. Tribos e mais tribos unidas pela cultura comum.

Acabaram todos mortos: morreram defendendo o canibalismo... Matamos os canibais. Pronto. Matar pode. Comer a carne dos mortos é que é inadmissível.

Como se pode ver, estamos no terreno dos costumes, das opiniões. O que parece totalmente absurdo para uns, pode ser considerado normal por outros. Será então que a noção de progresso é absolutamente relativa? Não haveria argumentos objetivos para mostrar que um hábito é bom e o outro mau? Não haveria uma ligação entre o progresso científico e a ética, uma ligação entre progresso do conhecimento e progresso moral?

Sêneca (55aC-39dC) acreditava no valor do progresso científico; mas não que isso acarretasse garantia de melhora para o mundo. A vantagem estaria assegurada apenas ao cientista, ao filósofo, que se veria entre as estrelas, voltando para suas origens, em comunhão com o universo, levado por uma atividade intelectual ímpar, imensamente gratificante, mas dificilmente compartilhável. Então, se ele tinha razão, a população em geral não se beneficiaria necessariamente desses conhecimentos, restritos a tão poucos.

Já Rousseau (1712-1778) trouxe uma teoria desconcertante: o progresso só traz infelicidade! Achava que o homem havia sido feliz até desenvolver a agricultura e a metalurgia. Depois, havia trocado a felicidade pela civilização. A partir do momento em que o primeiro homem declarou que um lote de terra era sua propriedade privada; a partir daí, as desigualdades foram sendo ampliadas; e cada homem negociou a sua felicidade em um pacto social que trouxe desigualdades absurdas. O que foi bom para cada um individualmente, acabou sendo a desgraça de todos.

Depois do Rousseau, praticamente todos os que tratam desse assunto - até o Francis Fukuyama - concordam em que uma desigualdade grande é um mal a ser combatido. Em que pese esse consenso, no restante o assunto sempre se perdeu em um labirinto de idéias e opiniões. Houve um monte de franceses: Condorcet, Saint-Simon, Comte, revoluções, Marx... Mas vamos voltar aos gregos. Mal não há de fazer.

Há uns 2400 anos o filósofo Platão, concebendo o funcionamento de uma cidade ideal, chegou à conclusão que deveria haver igualdade entre homens e mulheres, em todas as tarefas possíveis. E ainda, para que houvesse harmonia, não deveria haver propriedade privada. Nem mulher exclusiva de um só homem; nem tampouco homem exclusivo de uma só mulher. Assim, os bens seriam bens de todos; e os filhos, filhos de todos, de modo que, tendo sido educados nesse ambiente, todos amariam e defenderiam o lugar onde morassem, não havendo distinção entre público e privado. Atingida essa situação ideal, aparentemente, não haveria mais progresso. O esforço seria todo para manter tudo assim, sem corromper esses costumes. E Platão atribuía à música uma influência enorme sobre os hábitos. Mudando-se a música, mudavam-se os costumes. E assim também com a ginástica, com os esportes. Então, e o futebol, por exemplo, caberia na cidade ideal? Vale arriscar que Platão aprovaria o futebol como fator de união. Mas o futebol como promotor de vendas e da discórdia, seria seguramente condenado. Nada de trocar de time por dinheiro. E vale notar que na cidade ideal o regime previsto NÃO seria o democrático.

Para encerrar, vai aqui uma conclusão pessoal, muito distante de qualquer comprovação: as teorias, as idealizações, a legislação, tudo isso se distancia muito dos costumes, da prática, das instituições; a tal ponto que se compreende a frase do Marx: “Je ne suis pas marxiste!” (Não sou marxista!). Assim é que pensar um pouco sobre o progresso alimenta a alma, rabisca um esboço, mas não produz resultado categórico. Graças a Deus.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A ÉTICA NO AUGE DO IMPÉRIO ROMANO

A ética que prevaleceu no auge do Império Romano merece uma comparação com a ética atual.

Há várias éticas. O que um povo acha bom, outro não acha. Culturas diferentes dão explicações diferentes para admirar ou condenar um ato. Hoje exaltamos agregar coisas a nós mesmos: apartamentos, carros, tablets. Consumir. Lá pelo ano 170 dC admirava-se o saber, a coragem, a justiça, a moderação. Prevalecia essa doutrina, estóica.

Vale a pena examinar os fundamentos disso - admirar coisas abstratas, em vez de coisas materiais. É claro que havia espaço para hipocrisia, para arrogância e para uma falsa pregação moralista; ainda assim, o estoicismo convenceu e perdurou por séculos.

A educação estóica ensinava aos jovens que tudo aquilo que o Destino nos dá, pode tirar de nós. A qualquer momento. Riqueza, saúde, e outras coisas desejadas, não fazem parte da gente. Assim como aparecem, se vão. Então – diziam os estóicos - que se busque um bom fluxo da vida, uma vida de acordo com a Natureza. Compreenda-se que muitos desejos são incompatíveis – um contradiz o outro. E assim, uma corrida irrefletida atrás das vontades e caprichos estabelece uma eterna insatisfação. Ou, finalmente, o tédio.

Não se trata de abandonar o mundo, de deixar o barco correr. Trata-se de saber que não se tem o controle de tudo, e que o que se deseja é apenas um desejo. Nossa alma não está em jogo: o que está em jogo está fora de nós.

Educado dessa forma, o jovem aprende a valorizar a si mesmo e não ao que a Fortuna lhe deu ou deixou de lhe dar. A obtenção de resultados – se tiverem que acontecer – não decorrerão só da sabedoria, da justiça, da coragem, da moderação. Os resultados podem vir ou não. Para o estóico, dá na mesma. Sua alma é indiferente aos resultados. Não sofre por ansiedade nem tampouco por decepção. Apenas empenha-se racionalmente, como deve, em harmonia com a Natureza. Ele sabe que riqueza e saúde não serão privilégio dos bons e entende isso como natural.

Antes de tudo, a ética estóica ensinava a respeitar a si mesmo e à sua ligação com o Todo. E nenhuma lei seria superior a isso. Esse pensamento era tão comum, tão geralmente aceito, que o Direito Romano reconhecia isso: a Lei Natural (jus naturali) como superior a todas as outras.

Algumas frases do livro “Meditações”, escrito pelo Imperador Marcus Aurelius, completam e ilustram o que foi dito acima sobre a ética estóica e encerram essas Ruminações:
"Isto tenhas sempre em mente: qual é a natureza do todo..." (II,9)
“Não considera como vantajoso o que te fizer quebrar a palavra ou perder o respeito próprio.”(III,7) ;
“Compreende, contudo, que um homem vale tanto quanto valem as coisas das quais se ocupa.” (VII, 3);
“Não sejas descuidado com as ações, nem confuso com as palavras, nem tortuoso com o pensamento.” (VIII, 51).

sábado, 17 de novembro de 2012

POLÍCIA, BANDIDO E DITADORES ROMANOS

Quando eu tinha uns dez anos, lá pelo final da década de 1950, a TV não tinha uma programação contínua. Na maior parte do tempo, se você ligasse o aparelho, veria só uma imagem fixa, que parecia um volante de automóvel, com o desenho de um índio americano, de cocar, bem no centro.

Para as crianças, sempre no mesmo horário, em um dia da semana, havia as lutas de “catch”. E sempre um “mocinho” lutava contra um “bandido”. O bandido não respeitava as regras: furava os olhos do outro com os dedos. Batia abaixo da cintura, na nuca... Eu não me conformava com isso. Achava que, desse jeito, o mal provavelmente venceria. Nada havia de concreto que, efetivamente, compensasse o bom comportamento. O juiz só fazia cara feia. O bandido zombava. Assim, ser honesto significava praticamente perder a luta. Só mesmo heróis, como o Ted Boy Marino, eram capazes de triunfar mesmo com toda essa desvantagem.

Agora, vejo pela televisão a luta da polícia de São Paulo contra o crime organizado. Os bandidos podem tudo, mas a polícia tem que seguir regras.

Lá pelo Século 4 antes de Cristo os romanos tinham um remédio para situações assim, excepcionais. Um dos cônsules podia, constitucionalmente, nomear um “ditador”, a quem eram concedidos poderes extraordinários - summum imperium. Previa-se que – em dadas situações – a lei comum não deveria prevalecer. Apenas durante um tempo limitado, em uma região também limitada, ficava estabelecido o imperium militae. Os diretos constitucionais eram então temporariamente suspensos. Uma só pessoa – o dictator – faria o que fosse preciso para restaurar a segurança para a população.

A nossa Constituição também prevê situações excepcionais, quando então o Estado tem mais poder sobre as pessoas. Assim, no caso de “estado de sítio” (Art. 139), a lei permite restringir a liberdade de imprensa e violar o sigilo das comunicações. Fazer busca e apreensão em domicílio. Usar prédios comuns como prisões. É permitido ainda requisitar bens. Nada além disso. Nada de ditadura.

Aliás, tratando-se de ditaduras, um amigo meu, italiano, Erando, contou que, na época do Mussolini, a Itália voltou a proceder como nos velhos tempos. Foi nomeado um prefeito para combater a Máfia na Sicília. E aconteceu que esse prefeito – o Prefeito de Ferro – andava com sua escolta quando encontrou um bando armado. Interpelando essas pessoas, eles disseram que eram caçadores. Por isso estavam armados. A lei permitia. Tudo legal. Apesar de suspeitíssimo. Mas, quando o prefeito ia-se afastando, um tiro, disparado pelas costas, acertou alguém da comitiva. Corajoso, o prefeito voltou para interrogar o bando. Mas de novo se viu amarrado pela lei: não podia prender ninguém, porque não se sabia ao certo quem havia disparado o tiro. O bando ria. O prefeito então mandou abrir fogo. Matou vários. No dia seguinte houve protestos. Os jornais só exprimiam indignação. No entanto, o Mussolini mandou cumprimentos ao prefeito, por telegrama. Com o passar do tempo a população achou tudo ótimo. A Máfia, que ocupava altos cargos no Estado e na Igreja na Itália, mudou-se para os Estados Unidos.

domingo, 21 de outubro de 2012

ENQUADRANDO OS FREE RIDERS

“Free riders” é como os economistas chamam os "espertinhos"; mais especificamente, as pessoas que se beneficiam de uma situação sem terem contribuído para ela, sem terem colaborado. Por exemplo, vizinhos se cotizam para melhorar a pavimentação de uma estrada. Um deles não paga. Não paga, mas, apesar disso, não há como impedir que ele, depois, usufrua da estrada consertada. Vai ser um “free rider”. Vai andar de graça.

Não é novidade: quando a colaboração não é obrigatória, poucos contribuem. Uma fábula milenar (Esopo) conta que uns passarinhos resolveram fazer o ninho em uma plantação de trigo. E os filhotes nasceram ali. Um dia, tempos depois, ouviram alguém se aproximar. Era um homem, e falava consigo mesmo, resmungava, repetindo que estava na hora da colheita. Dizia isso meio alto e dizia também que iria chamar os vizinhos para ajudarem. Os filhotes então ficaram nervosos e, olhando para a mãe, disseram afobados: “Vamos sair daqui! Vão colher o trigo!”. Mas ela respondeu tranqüila: “Calma! Ele pensa que os vizinhos vão ajudar. Temos muito tempo ainda, até que ele se convença de que vai ter que colher o trigo por conta própria.”.

Então, não deveria surpreender muito o fato de quase ninguém dedicar seu tempo, seu trabalho, ou seu dinheiro às coisas compartilhadas. Basta dar uma olhada na lista de freqüência das reuniões de condomínio para que se tenha uma boa noção disso. Aliás, antes, os síndicos trabalhavam de graça: hoje, a maioria é remunerada de alguma forma. As coisas só funcionam se tiverem uma lógica de mercado. Ou sob as penas da lei. Se não fosse a lei, muitos nunca pagariam suas taxas de condomínio.

A mesma coisa acontece com a contribuição sindical que, aliás, não é obrigatória em muitos países. Por essa razão, um exemplo clássico de “free rider” é o sujeito não sindicalizado que se beneficia das conquistas sindicais. Hoje, é perfeitamente legal ser "espertinho" em muitas situações.

A conclusão a que se chega, olhando daqui, é que talvez fizesse sentido uma “lei anti-espertinho”. A idéia é simples: se muitos trabalharam ou pagaram para terem melhorias, os demais beneficiados estariam obrigados – por lei - a contribuírem de maneira equivalente, como se fossem todos condôminos. Assim, quem sabe, até o Ministério Público, eventualmente, poderia acionar os "espertinhos".

Mas, lei é coisa traiçoeira: sempre pode ser usada para o mal. Cada caso tem sua singularidade... Falta amadurecer. Enfim, essas Ruminações podem ser só um passatempo. Se você tem um tempinho sobrando e quer opinar sobre isso, basta clicar em “comentário”, na linha abaixo. Quem sabe, despretensiosamente, acabamos enquadrando os “free riders”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PASSATEMPO

Não sei por que a Teoria da Relatividade pegou essa fama, de ser complicada. Já em 1916 o Einstein publicou uma explicação dirigida a leitores que tivessem educação equivalente à exigida para entrar na universidade. São pouco mais de 100 páginas. A versão para o inglês está disponível na Internet. Lendo, compreende-se; mas é preciso ter paciência: ele divaga muito, trata de muita coisa que não precisava estar ali.
Existe agora uma explicação do físico Russell Stannard, pela Oxford: muito mais clara e concisa. É um livreto, fininho. Mas acho que a explicação abaixo resolve, isto é, já nos leva a admitir que o tempo não é bem o que a gente acha que é. Este é o assunto aqui: a nossa noção de tempo.
A Teoria Especial da Relatividade está nisto porque ela nos induz a crer em uma realidade bastante contrária à nossa intuição. A gente acaba admitindo que, provavelmente, passado, presente e futuro fazem parte de um mesmo bloco, o “Universo Bloco”. A realidade é, no mínimo, quadridimensional, e não há muito sentido em falar de presente, passado e futuro como coisas dissociadas. Não há como visualizar uma realidade assim, mas Teoria da Relatividade melhora bem a percepção possível de se ter.
A Teoria Especial da Relatividade dá uma explicação para uma coisa que parecia não precisar de explicação: a luz viaja sempre a 299.792.458 km/s - 300 mil km/s para arredondar. Não importa se você acende um farol no chão ou em um avião: a luz vai sempre a 300 mil km/s. Só o Einstein ficou intrigado com isso: que negócio é esse de viajar sempre na mesma velocidade?
Para todas as outras coisas – ao contrário do que acontece com a luz - a velocidade varia de acordo com o referencial. Por exemplo, se alguém, em uma estação ferroviária, vê cair uma pedra da janela de um trem que passa em velocidade constante, percebe que ela não cai direto no chão, descreve uma curva. A velocidade vertical da queda, devida à força da gravidade, é somada à velocidade horizontal do trem. Da estação o sujeito vê que a pedra vai caindo, mas, durante a queda, vai também se deslocando na mesma direção do trem e acaba batendo no chão em baixo do lugar por onde a janela está passando.
Em uma outra situação, parecida, um passageiro dentro do trem deixa cair uma pedra: ele vê a pedra cair verticalmente. Como a velocidade horizontal da pedra é igual à velocidade do trem, o passageiro não vê a pedra descrever uma curva: vê cair perpendicularmente ao chão do vagão. Imagine que o trem fosse de vidro. O homem na estação dirá que a pedra caiu fazendo uma curva. Mas o passageiro dirá que caiu reto. Qual dos dois está certo? Ambos. A trajetória depende do referencial.
Agora imagine que, em vez da pedra, o passageiro joga um pulso de luz para o chão do vagão. A luz viajará sempre na mesma velocidade, a 300 mil km/s. Da estação, o homem verá o pulso de luz descrever uma curva, enquanto que o passageiro do vagão vê o pulso descrever uma reta curta, até o chão do vagão.
O diabo está no cálculo do tempo da trajetória do pulso. O passageiro calcula o tempo dividindo, pela velocidade da luz, o comprimento da reta descrita pelo pulso. Já o homem na estação calcula o tempo dividindo o comprimento da curva pelos mesmos 300 mil km/s; e acha que a luz demorou mais, porque a curva é mais comprida do que a reta. Digamos: enquanto o pulso de luz viajava até o chão, o relógio na estação andou 5ps e no trem andou 4ps. Ou seja: o tempo passou mais rápido para quem estava na estação do que para quem estava no trem!
Essa é a essência da Teoria Especial da Relatividade: como existe uma coisa (a luz) cuja velocidade não varia em função do referencial, então o tempo varia em função do referencial.
Levando adiante esse raciocínio, imagine que o trem passou pela estação. Então, o passageiro, no meio do vagão, joga no mesmo instante dois pulsos de luz, um para frente e outro para trás, na direção de deslocamento do trem. Ele dirá que ambos chegam nas paredes do vagão ao mesmo tempo. Já o homem na estação dirá que o pulso que chega na parede traseira chega primeiro. Ele viu a parede traseira correr contra o pulso de luz, enquanto a parede dianteira se afastava dele. O que é simultâneo para o passageiro, não é simultâneo para quem está na estação!
Isso significa que - dependendo de onde você esteja - você me dirá que simultaneamente estão acontecendo tais coisas no Rio de Janeiro e em Perth, na Austrália. Outra pessoa, em outro lugar do espaço, olhando para o Rio e para Perth, dirá que essas tais coisas não estão acontecendo ao mesmo tempo: uma acontece antes da outra...
Enfim, dá para se ver que o tempo é uma coisa muito diferente do que imaginamos. Passado, presente e futuro não são facilmente distinguíveis. Foi-se o passatempo...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Encenação de democracia

Ainda tenho arquivada uma entrevista que o Wen Jiabao, primeiro ministro chinês, concedeu ao The Times. Foi em 6 de setembro de 2006. Ele disse que não era razoável introduzir, de repente, a democracia na China. Tendo em conta o tamanho do país, a enorme diferença entre ricos e pobres - e também entre educados e não educados - o processo deveria começar por eleições diretas em algumas vilas. Demonstrada a capacidade das vilas administrarem a si mesmas, agora sim, a democracia se estenderia às cidades; depois às províncias para, finalmente, o país ter um governo central representativo.
Hoje, normalmente, “governo representativo” e “democracia” são tidos como sinônimos. Havendo eleição, é democracia. No nosso caso, com o voto obrigatório, a participação maciça dará sempre uma impressão de legitimidade à representação. Há uma encenação de democracia, talvez com a esperança de que acabe virando verdade. Será que, sendo encenada, a democracia é ensinada?
Em uma democracia assim imposta, forçada de cima para baixo sem maiores cuidados, o povo vota em quem aparece mais, em quem dá mais festa, em quem é mais engraçado, em quem paga alguma coisa. E então o Tiririca é o deputado mais votado do Brasil. Não que ele seja um mau deputado: o diabo é que, comparativamente, é um dos melhores!
Mas tudo tem limite. Ficou evidente que o povo estava elegendo bandidos conhecidos. Talvez porque preferisse bandidos conhecidos aos desconhecidos, quem sabe. Enfim, isso foi proibido. Ou seja, como o povo livre e soberano faz muita besteira, resolveu-se limitar um pouco essa soberania. Inventamos a democracia podada: Ficha Limpa. Isso ensina alguma coisa?
A verdade é que no nosso país - assim como na maioria dos outros - o grosso da população não tem noção do que seja administrar alguma coisa. Como o povo não tem o menor preparo para cuidar das coisas públicas, é levado a participar de uma encenação. Um povo que não tem a menor idéia do que seja governar, como pode ser soberano? Parece que os chineses estão certos: melhor ensinar democracia do que encenar democracia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

MINHA NETA E OS PERSAS

A prova era de história; cairia Ciro II. Achei que Ciro II ficava meio distante de uma menina de 10 anos e então, para ajudar a minha neta, Luluca, fui ler uns livros velhos sobre o assunto, comprados pelo meu pai em 1946 (Will Durant). E o Toynbee. Talvez lendo, conhecendo mais detalhes, eu pudesse trazer movimento, vida, e então tornasse a Pérsia de 550 anos antes de Cristo mais interessante.
Comecei procurando saber sobre as coisas que aconteceram. Depois, os fatos foram-se amontoando, ou talvez se espalhando, perdendo o sentido, de modo que ficou faltando um significado maior para tudo aquilo. Assim é que, naturalmente, as crenças persas começaram a me interessar mais. E também a Luluca quis saber sobre a mentalidade daquele povo antigo, que então, mais ou menos, seguia Zoroastro.
Presumivelmente o zoroastrismo tinha uma forte relação com a ética. Tudo o que chegou até nós através dos séculos leva a concluir que tinham uma ética talvez mais avançada que a nossa. Segundo o Livro Sagrado deles, o Avesta, havia três normas morais:
Faça de seu inimigo um amigo; faça do injusto, um justo; faça do ignorante uma pessoa instruída.
Essa primeira orientação moral, fazer do inimigo um amigo, induz mesmo a uma política assim, que já buscava concórdia na discórdia. Ficamos surpresos, a Luluca e eu, ao vermos que, há 2550 anos, já um povo inteiro se dava conta de que pode haver harmonia com dissonâncias.
O livro escolar da Luluca retrata a Pérsia como um império bem-vindo. As cidades, em muitos casos, sentiam alívio ao serem conquistadas por uma gente que lhes dava uma vida melhor do que seus próprios conterrâneos lhes vinham dando.
A segunda regra moral do zoroastrismo – fazer com que o injusto se torne justo – é outro chamado à conciliação. A justiça é que pode apaziguar as contradições que os homens e as instituições trazem dentro de si.
Finalmente, a terceira regra moral – instruir os ignorantes – liga-se também com as regras anteriores. As três regras convergem. A instrução é pré-requisito para que as pessoas possam compreender a si mesmos e aos outros. Ecoa lá longe a nossa atual preocupação com a educação. Há 2550 anos os persas reconheciam uma prioridade que redescobrimos recentemente.
Ainda preciso ouvir mais a Luluca para saber exatamente o que podemos concluir de tudo isso...

sábado, 1 de setembro de 2012

PAULO COELHO, CLINT EASTWOOD, OUTROS E A REALIDADE

No Bom Dia Brasil apareceu o Paulo Coelho. Foi entrevistado em sua casa em Genebra. E então contou que teve um problema cardíaco; daí o assunto foi-se desenvolvendo, e ele acabou conversando com o repórter sobre a perspectiva da morte. No final, para relaxar, foram para o jardim praticar arco e flecha, aliás, um esporte muito próprio para um mago.
Mas, foi outro tópico - possivelmente menos atraente - que me pareceu ter sido mais revelador, mais extraordinário. Talvez para contrastar com o seu sucesso habitual, o Paulo Coelho tenha resolvido falar rapidamente de um fracasso dele: um livro que não vendeu bem, chamado “A Solidão dos Poderosos”. E me impressionou muito a explicação que ele deu: disse que fracassou porque pensou muito para escrever. Só foram bem aceitos os livros que ele havia escrito sem pensar.
Pronto! O Mago, assim de passagem, displicentemente, no meio de uma entrevista, desvendou essa lei cósmica que impede que textos como este aqui sejam populares. Ruminações, como o nome diz, são muito pensadas; dissecam a realidade. Nem o Paulo Coelho, talvez o escritor mais lido no mundo, nem mesmo ele, terá leitores se tiver a pretensão de explicar melhor alguma coisa, se tiver a ousadia de estar mais consciente quando escreve. Quase ninguém tolera isso.
Mas não foi só o Paulo Coelho quem disse que pensar não é bom. Pouco tempo depois dessa entrevista dele em Genebra, o Clint Eastwood, nos EUA, mais precisamente na convenção do Partido Republicano, foi fazer um discurso contra o Obama e acabou reclamando de quem pondera, reclamando de quem vê os dois lados da questão; vociferando contra quem pergunta sobre outros caminhos e banca o advogado do diabo. Pronto de novo! Agora, outra celebridade diz quase a mesma coisa: não agüenta mais quem pense.
E aí me lembrei do T.S. Eliot (em Burnt Norton):
Go, go, go, said the bird: human kind
Cannot bear very much reality
.................................
Allow but a little consciousness.
To be conscious is not to be in time
A espécie humana não agüenta muita realidade. E assim, o Paulo Coelho, o Clint Eastwood e o T. S. Eliot tentam nos convencer de que a razão é ilusória; insistem em dizer que quem está muito consciente da realidade, perde-se no tempo.
E, como se não bastassem esses três ataques contra ruminações em geral, depois, à noite, me veio assombrar o Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Ficções do Interlúdio (285)):
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Finalmente, hoje pela manhã resolvi tomar tudo isso como simples advertências, avisos de que é importante ver caso a caso - ver - sem se perder em generalizações...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Extorsão legalizada, heroísmo quixotesco e outras coisas

No Reino Unido a remuneração média de um executivo é de 3 milhões de libras anuais (US$ 4,7m). Isso corresponde a cerca de R$ 780 mil por mês. No caso, os acionistas minoritários estão sendo depenados. Problema deles, coisa circunscrita.
Um caso mais grave acontece aqui, quando juízes e políticos dão a si mesmos privilégios e remunerações abusivas. Desse jeito, legaliza-se a extorsão. Dá-se o exemplo. E a extorsão passa a fazer parte da moralidade. Vira costume. Passa a ser normal.
Depois, considerando que o abuso foi homologado, a Polícia Federal, de repente, passa a aplicar métodos semelhantes aos das milícias: fustiga o cidadão comum para conseguir o que deseja.
Essa parece ser a nova ética: tirar proveito da posição. E assim, boa parte da área de saúde e da indústria farmacêutica faz toda sorte de campanha para extorquir dos cidadãos assustados. Não é médico, é doutor. Não é remédio, é droga.
Nessas situações, quando não há justiça, a pessoa honesta deixa de ter motivos práticos para continuar assim, porque sai quase sempre perdendo(*1). A honestidade, então, só se justifica no plano espiritual. Como Don Quixote, a pessoa honesta só permanece honesta se tiver visões que a pessoa comum não tem.
Em um ambiente assim, se alguém deseja ser honesto, desapegue-se de tudo. Como Don Quixote, deve fazer o bem pelo bem, sem planejar, sem se preocupar com sua imagem nem com seus negócios, cuidando somente do juízo que Deus venha a fazer dele(*2). Sem estar a serviço de programa algum, como os cavaleiros andantes medievais, o herói quixotesco fica ao sabor da arte. Isso é o que se exige da pessoa honesta que vive em uma sociedade desonesta.
Provavelmente foi para mudar uma moralidade assim prepotente que o eleitor francês arriscou o voto no novo Presidente da França, François Hollande. Ao menos ele tem um discurso aceitável: recusa-se a aceitar a chantagem como coisa normal. Diz isso claramente.
Tanto assim que fez seus ministros e secretários assinarem um código de conduta. Comprometem-se com 5 pontos; juram cumprir 5 deveres morais, detalhados em duas páginas: Solidariedade e coleguismo entre a equipe; Consulta ampla e transparência em suas proposições; Imparcialidade em vez de partidarismo; Disponibilidade total para a função pública, abandonando os afazeres privados; Integridade exemplar, frugalidade em contraposição à exibição de status.
E aqui?
*1. Ver, por exemplo, Platão, “A República”, 343; 359, 360.
*2. Ver “Vida de Don Quijote y Sancho”, Miguel de Unamuno, Ed 1908, pgs 27 e 43.

sábado, 28 de julho de 2012

A VIDA, OS AUTOMÓVEIS E O MILTON FRIEDMAN

Quem faz diferença, quem altera a paisagem, é notado. E quem é notado está a um passo de ser admirado. Assim, de tanto admirar quem chama a atenção, fica parecendo que sempre é bom mudar, produzir. Quanto mais alteração, quanto mais obra, melhor. Quanto mais movimento, quanto mais velocidade, melhor.
Mas vamos à realidade concreta. São vendidos cerca de 3,5 milhões de automóveis por ano no Brasil. Para imaginar melhor o que isso significa, um avião a jato de passageiros, comum, demoraria aproximadamente quinze horas voando sobre uma fila formada por eles. Enfileirados, esses automóveis, vendidos aqui em um ano, se estenderiam por aproximadamente 13.500 km, o que é mais do que o diâmetro da Terra. Uma coisa parece óbvia: não pode ser sempre “quanto mais, melhor”.
Então, se não serão mais produtos industrializados, o que vai ser? O que vai dar empregos? Como as pessoas poderão viver? Para onde podem ir as multidões que vivem da produção industrial?
Além de queda, coice: se a produção tem um limite, ainda por cima, torna-se cada vez mais concentrada, em busca de ganhos de escala. Robôs, tecnologia, tudo enfim conspira para reduzir ainda mais os empregos na indústria.
E assim, este brevíssimo ensaio examina uma perspectiva provável: especula sobre o futuro.
Além da indústria de automóveis, outras vão crescendo e transformando eficientemente a Natureza em lixo. A cada ano, no Brasil, cerca de um milhão de automóveis deixam de circular.
Os desempregados não podem ir para o campo : a colocação em massa em áreas rurais é inviável. Recortar o mundo em 7 bilhões de pedacinhos - um lotezinho de terra para cada um - significaria o fim da produção de alimentos.
Restaram os empregos no setor de serviços, nas cidades. Haja lojinhas – virtuais talvez - igrejas, produtores de filmes, cantores, jogadores de futebol, cabeleireiros... Escolas, quem sabe, locais para que se faça exercício físico. Mas isso já existe. Ou existiu: muita gente, já no setor de serviços mesmo, também foi substituída por computadores, como aconteceu nos bancos.
Talvez então, uma mentalidade próxima à hindu venha a prevalecer. Nem tudo é pressa, nem tudo é produção na Índia. Ou, quem sabe, para honrar as tradições ocidentais, venhamos a resgatar a velha idéia dos filósofos gregos, de que a vida mais elevada é a contemplativa.
Enfim, a vida espiritual talvez seja parte do caminho; não só para o indivíduo, mas para uma economia sustentável. Para explicar isso melhor recorre-se ao Milton Friedman. Morreu em 2006. Talvez os mais velhos se lembrem dele, um economista da Universidade de Chicago, Prêmio Nobel em 1976, famoso por seus estudos sobre consumo e moeda, na linha do Hayek. É dele a idéia de jogar dinheiro de helicóptero para que a economia permita que a vida continue.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

MONUMENTOS À MEGALOMANIA

Agora, em 2012, foi inaugurado em Londres um edifício com 310 metros de altura, o maior da Europa. Olhando daqui do sítio parece incrivelmente pequeno. Diminui porque errou de milênio: se tivesse sido construído em 2012 A.C., teria sido um sucesso. Junto com a Torre de Babel ou o Farol de Alexandria teria deixado todo o mundo de boca aberta! Fogos de artifício, rojões! Que coisa impressionante, então!
Mas os ingleses não são os únicos. Haja Dubais, haja estádios de futebol. Torres Gêmeas. Como é possível que, ainda hoje, queiram erguer edifícios enormes? Como isso acontece?
Quem admira essas novas Pirâmides e Coliseus? Simplórios, talvez. Alguém que fica impressionado com objetos grandes, com sons fortes, com cores chamativas. Pessoas muito primárias, trogloditas. Nada de sutilezas. Nada de abstrações. Que troglodita admiraria um bom Código Penal? Troglodita se impressiona é com tigre gigante, com muitos tigres. Olha que tigre grande! Olha quanto tigre! Olha que prédio enorme! Mas, Código Penal?
No entanto, mesmo nos dias de hoje, simplórios provavelmente não são capazes de empreender a construção de monumentos à megalomania. Como isso é viabilizado economicamente? Tudo indica que a superpopulação torna tudo possível. A superpopulação, no início, viabiliza tudo. Depois, nada mais se sustenta.

domingo, 24 de junho de 2012

CRESCIMENTO POPULACIONAL, TECNOLOGIA E UMA NOVA MENTALIDADE

Para quem ouve os discursos sobre o meio ambiente fica parecendo que o número de pessoas pode ir aumentando sempre; tem-se a impressão de que a quantidade de gente não importa e - haja os bilhões que houver - sempre será possível preservar os recursos naturais. E ainda por cima se deseja que estejam todos empregados.
No entanto, havendo pouca gente, a “sustentabilidade” acontece naturalmente. Por outro lado, a superpopulação é insustentável.
Quando eu nasci o mundo tinha uns 2,5 bilhões de pessoas e o Tom Jobim já achava que havia gente demais e passarinho de menos. Hoje somos 7 bilhões e a ONU estima que, em um cenário pessimista, o mundo venha a ter 11 bilhões de habitantes em 2050. E que a população continue crescendo.
Quanto ao emprego, tudo se agrava com esse avanço impressionante da tecnologia, que reduz a necessidade de trabalhadores. As máquinas, os computadores, os robôs, cada vez mais substituem as pessoas. Mesmo sem aumento da população é difícil acreditar que vá haver emprego para muita gente trabalhar 8 horas por dia, 5 dias na semana.
Preservar o meio ambiente com superpopulação é inviável. Preservar empregos com evolução da tecnologia, também é inviável.
Ao contrário do que acontece em muitas regiões desenvolvidas, na Região Norte do Brasil as mulheres estão tendo mais filhos. A taxa de crescimento da população aumentou: passou para 2,01% ao ano. Contrasta bastante com a taxa na China, de 0,47%. Pretendemos que a Floresta Amazônica seja habitada, pretendemos vender automóveis lá? E esses novos habitantes vão trabalhar onde?
Mas não é preciso ir à Amazônia para ver isso: aqui junto ao sítio, chega cada vez mais gente.
Concluindo este rapidíssimo ensaio, passa-se então a compreender melhor a lógica da nova mentalidade: apoio ao homossexualismo (taxa de fertilidade zero) e Bolsa-família (não são necessários mais empregos)... Parece engraçado, mas tudo tem uma razão, ainda que permaneça no inconsciente.