quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Construindo certezas e dúvidas

Vai aqui uma ruminação sobre nossas certezas. Vista por outro ângulo, trata das nossas dúvidas. Sendo assim, parece razoável começar perguntando, então, se existiria mesmo alguma certeza absoluta. Existem as certezas matemáticas. Mas as certezas matemáticas apenas provam que B = B. A matemática apenas reconhece, faz cair em si, dar-se conta; não traz imagens novas do mundo, apenas arruma o que se sabe.
Do mundo real temos apenas impressões, imagens, fragmentos. Mas então pelo menos temos isso: essa certeza absoluta de estarmos tendo alguma impressão ou sensação. Por exemplo, enquanto aumenta sua febre - mesmo que não esteja frio de fato – o doente sente frio; dessa sensação ele não tem dúvida: sente frio com certeza. Há um outro exemplo, mais ilustrativo talvez: um árabe vê uma miragem, um oásis. Mesmo que não haja oásis algum, aconteceu uma imagem mental, ele tem certeza disso. Com segurança absoluta pode dizer que teve a impressão. Embora não saiba se o oásis existe na realidade.
Nesse caso não se tem certeza absoluta do que está objetivamente ocorrendo. Há uma única certeza absoluta possível: a certeza de que estamos tendo uma impressão. Essa certeza no entanto é insuficiente, resolve pouquíssima coisa. Então, diante da vida, precisamos ter fé, mesmo sem certeza absoluta. E assim, para todos os fins práticos, temos certeza também de partes da realidade, sabemos com certeza de algumas coisas. Podemos apontar para um cachorro e dizer: “Olha o cachorro!”. Se outras pessoas confirmam, ficamos com a certeza de que tanto o cachorro quanto essas pessoas são reais. É uma questão de bom senso.
Mas não é tão simples assim, essa certeza vinda do bom senso. Digamos que aquilo que todo o mundo chamou de cachorro fosse um lobo. Um zoólogo esclareceu depois. Parecia cachorro, mas era lobo. Nesse caso o bom senso errou, mas errou por pouco, como acontece frequentemente.
Não se consegue escapar dessa imprecisão: tudo o que podemos dizer aos outros é intermediado pela linguagem. O uso, a prática, é que vai dando significado às palavras, assim é que podemos falar apenas daquela parte da realidade sujeita ao uso e, portanto, sujeita à linguagem. E a linguagem introduz confusão. A realidade é explicada sempre através de interpretação, de conceitos, que têm um grau de incerteza. Afinal, por mais uniforme que haja sido o aprendizado dessa linguagem - mesmo havendo todo o mundo estudado na mesma escola - a palavra “corda”, em casa de enforcado, tem outro significado. Nossa comunicação com os outros tem sempre esse grau de ambiguidade, há sempre uma interpretação diferente possível, não só pela conotação, mas até pelo que as palavras denotam. O que é um banquinho para uns pode ser chamado de cadeira por outros, dependendo do tamanho do encosto...
E a certeza fica menor um pouco ainda nas previsões. Mesmo que nossa previsão seja baseada em alguma experiência que não tem falhado, é mais incerta que uma constatação presente, por exemplo: “Vem olhar o cachorro amanhã porque ele está sempre aqui”. Provavelmente estará, mas é uma certeza menor do que quando digo: “Olha o cachorro agora!”. O futuro sempre adiciona alguma dúvida. A realidade muda constantemente.
Concluindo, antes de tudo, a matemática e a linguagem merecem uma atenção especial, para evitar mal-entendidos. Talvez a maior parte dos nossos erros se deva a mal-entendidos.
E, mesmo sem mal-entendidos, podemos ter falsas certezas: acreditar no que não é verdade. Mas há outro erro, possivelmente mais comum: errar por duvidar. Errar por não acreditar no que é verdade. Duvidar é mais fácil que provar. Sempre é possível duvidar de novo, pedir mais provas. Sendo assim, provavelmente erramos mais por não acreditar na verdade do que por acreditar na mentira. Talvez devêssemos rever nossas crenças mas, sobretudo, deveríamos rever nossas descrenças.