domingo, 11 de dezembro de 2011

EXAMES PREVENTIVOS E TRATAMENTOS ERRADOS

Os fatos citados aqui dizem respeito às mamografias, mas a lógica aplica-se também a outros exames preventivos.
O governo dos EUA (U.S. Preventive Services Task Force), a partir de 2009, passou a recomendar que as mamografias fossem feitas apenas a partir dos 50 anos. Anteriormente eram indicadas a partir dos 40. Além disso, a recomendação agora é que não sejam mais feitas anualmente: apenas ano sim, ano não. Dessa forma, evita-se uma quantidade imensa de biópsias e tratamentos equivocados. Hoje se admite que até mesmo o tratamento pode vir a ser maléfico; por exemplo: a radiação pode acelerar a aparição de cânceres secundários, desfigurar, ou bloquear artérias no coração. Muitos cânceres teriam um progresso tão lento que antecipar o tratamento não traria vantagem alguma. (ver TIME Magazine Oct. 25, 2011).
Em seu bestseller de 2009 (What the Dog Saw) Malcolm Gladwell mostra que as mamografias normalmente não dão resultados claros; estão sujeitas a interpretações pessoais: manchas brancas significam acúmulo de cálcio – o que pode ser benigno ou não. Também os nódulos podem ser benignos ou não. Distinguir maligno de benigno é questão de opinião. Tudo depende do aspecto de bolinhas brancas e borrões. As estatísticas e as entrevistas com médicos e radiologistas levam a concluir que o diagnóstico é inacreditavelmente impreciso. Por exemplo, uma dada mamografia - de uma paciente sadia - foi mostrada a uma mesa composta por dez radiologistas credenciados: três acharam normal; dois acharam anormal, contudo, provavelmente benigno; quatro ficaram em dúvida e um interpretou como câncer. Há inúmeras estatísticas que consolidam esse cenário confuso. Tudo indica que a cada 10 mil mamografias salvam-se três vidas à custa de infernizar ou mesmo mutilar equivocadamente centenas de pessoas.
A toda essa imprecisão adiciona-se outro agravante: a partir de 1971 caiu a obrigação de serem feitas autópsias em pelo menos 20% das pessoas falecidas em hospitais nos EUA. A causa das mortes em hospitais não é mais confirmada. Por isso, na prática, não se sabe ao certo quais são as causas de morte para pessoas de 65 anos ou mais (The Changing Profile of Autopsied Deaths in the United States, 1972–2007, Donna L. Hoyert, Ph.D.)
Um artigo publicado pela Dra Barbara Starfield, MD no The JOURNAL of the AMERICAN MEDICAL ASSOCIATION (JAMA) Vol 284, #4, de 26 de julho de 2000, já revelava que os erros médicos são a terceira causa de morte nos EUA: 106 mil mortes no ano eram causadas por efeitos colaterais de medicamentos, 80 mil por infecção hospitalar, 27 mil por erros médicos e duas mil por cirurgias desnecessárias.
Enfim, conclui-se que mais exames nem sempre significam mais segurança. A prevenção traz riscos também. E a medicina progride ao reconhecer isso.