segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Extorsão legalizada, heroísmo quixotesco e outras coisas

No Reino Unido a remuneração média de um executivo é de 3 milhões de libras anuais (US$ 4,7m). Isso corresponde a cerca de R$ 780 mil por mês. No caso, os acionistas minoritários estão sendo depenados. Problema deles, coisa circunscrita.
Um caso mais grave acontece aqui, quando juízes e políticos dão a si mesmos privilégios e remunerações abusivas. Desse jeito, legaliza-se a extorsão. Dá-se o exemplo. E a extorsão passa a fazer parte da moralidade. Vira costume. Passa a ser normal.
Depois, considerando que o abuso foi homologado, a Polícia Federal, de repente, passa a aplicar métodos semelhantes aos das milícias: fustiga o cidadão comum para conseguir o que deseja.
Essa parece ser a nova ética: tirar proveito da posição. E assim, boa parte da área de saúde e da indústria farmacêutica faz toda sorte de campanha para extorquir dos cidadãos assustados. Não é médico, é doutor. Não é remédio, é droga.
Nessas situações, quando não há justiça, a pessoa honesta deixa de ter motivos práticos para continuar assim, porque sai quase sempre perdendo(*1). A honestidade, então, só se justifica no plano espiritual. Como Don Quixote, a pessoa honesta só permanece honesta se tiver visões que a pessoa comum não tem.
Em um ambiente assim, se alguém deseja ser honesto, desapegue-se de tudo. Como Don Quixote, deve fazer o bem pelo bem, sem planejar, sem se preocupar com sua imagem nem com seus negócios, cuidando somente do juízo que Deus venha a fazer dele(*2). Sem estar a serviço de programa algum, como os cavaleiros andantes medievais, o herói quixotesco fica ao sabor da arte. Isso é o que se exige da pessoa honesta que vive em uma sociedade desonesta.
Provavelmente foi para mudar uma moralidade assim prepotente que o eleitor francês arriscou o voto no novo Presidente da França, François Hollande. Ao menos ele tem um discurso aceitável: recusa-se a aceitar a chantagem como coisa normal. Diz isso claramente.
Tanto assim que fez seus ministros e secretários assinarem um código de conduta. Comprometem-se com 5 pontos; juram cumprir 5 deveres morais, detalhados em duas páginas: Solidariedade e coleguismo entre a equipe; Consulta ampla e transparência em suas proposições; Imparcialidade em vez de partidarismo; Disponibilidade total para a função pública, abandonando os afazeres privados; Integridade exemplar, frugalidade em contraposição à exibição de status.
E aqui?
*1. Ver, por exemplo, Platão, “A República”, 343; 359, 360.
*2. Ver “Vida de Don Quijote y Sancho”, Miguel de Unamuno, Ed 1908, pgs 27 e 43.