sábado, 20 de fevereiro de 2010
Pontos fracos do capitalismo
Recapitulando, quem haveria de dizer que o Greenspan – por muitos anos chairman do Federal Reserve, uma espécie de arcanjo do sistema financeiro mundial - viria a ser favorável à nacionalização dos bancos? Ou que o falecido Milton Friedman, papa do monetarismo, prêmio Nobel em economia em 76, iria ser lembrado por haver recomendado que, em crises como a de 2008, se distribuísse dinheiro "de helicóptero" para a população?
Assim é que, depois de ler o Finacial Times, o WSJ, Bloomberg etc. por um tempão, sem qualquer propósito prático em vista, vai aqui um resumo dos pontos fracos do capitalismo, percebidos daqui do sítio:
1. É falsa a presunção de que os interesses das empresas coincidem sempre com os interesses das pessoas. Por exemplo, tome-se a indústria farmacêutica: o interesse dela é, obviamente, que haja mais doentes e não que a população seja toda saudável. Ou tome-se o caso da indústria de defensivos agrícolas, que não vive sem as pragas. Ou ainda a indústria bélica, que não vive sem as guerras. Não se espera que as pessoas desejem as doenças, pragas ou guerras, assim como querem essas empresas. Em algum ponto, portanto, os interesses das pessoas divergem dos interesses das empresas. O capitalismo dificulta a ação política nesses casos, porque há dinheiro para corrupção.
2. O Estado não pode ser visto como incompetente. Ao mesmo tempo em que o capitalismo desqualifica o Estado e o tacha de incompetente para produzir, designa, a esse mesmo Estado - trapalhão - as tarefas de vencer as guerras, legislar, julgar, controlar a moeda e conter o crime. Ou seja, o Estado - incapaz de produzir para o mercado - é capaz no entanto de dar conta de tarefas muito mais difíceis, como vencer as guerras, manter a moeda, conter o crime... Isso pareceu muito esquisito, visto daqui.
3. A distinção entre público e privado fica impossível no caso específico de algumas grandes empresas. Então, o roubo torna-se semelhante à ação legítima; não há lei que possa distinguir claramente um do outro.
Primeiro, existem os monopólios naturais como, por exemplo, o caso do fornecimento d’água. Dificilmente haverá vários canos d’água, de várias empresas, chegando a cada casa. Nesses casos, todas as vantagens que a competição traz são perdidas. O monopólio natural explorado por particulares terá tanto envolvimento com o Estado, que pouco se diferenciará do próprio Estado.
Segundo, existem as grandes empresas, que naturalmente se associam aos governos de seus países para vencerem concorrentes estrangeiros. São casos como o da indústria do petróleo, em que o ganho de escala de produção determina de quem é o mercado. Por exemplo, a Halliburton, empresa ligada ao então vice-presidente Cheney, foi chamada pelo governo dos Estados Unidos para reconstruir o Iraque, como se fosse uma estatal.
Finalmente há também o caso de "empresas grandes demais para falirem", que estão imunes ao risco, porque o governo não tem alternativa senão socorrê-las se estiverem mal. O exemplo pior foi o que se teve com o dinheiro injetado no sistema financeiro dos países desenvolvidos. Mas a GM é também um exemplo disso; foi nacionalizada: o governo dos Estados Unidos tem 60% das ações da empresa, o governo canadense, 12,5%; 17,5% pertencem ao plano de saúde do sindicato dos trabalhadores.
4. O capitalismo não sabe conviver com a fartura, porque o lucro tende a zero quando o mercado está plenamente abastecido. Sendo assim, as empresas naturalmente criam “necessidades”, que não são necessidades das pessoas, são do mercado. Essas “necessidades” inventadas pelo mercado têm malefício duplo: enlouquecem as pessoas e esgotam o meio ambiente. Por exemplo: que necessidade há de trocar de celular freqüentemente?
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