domingo, 16 de agosto de 2009

INTERPRETANDO A GENTILEZA

O remédio deveria ser tomado para controlar a doença - sempre. O médico disse isso para esse meu amigo, enquanto escrevia e carimbava a receita, ao final da consulta. E completou depois, enquanto lhe entregava o papel: “Comprando em tal lugar e dando esse código, você compra mais barato.”
E era mais barato mesmo, lá na farmácia indicada pelo doutor. E, realmente, foi preciso dar o tal código. Assim é que o meu amigo tem tomado o seu remédio; mas, junto com o comprimido, tem engolido também uma certa dúvida. E essa dúvida se agravou com a chegada de uma carta do laboratório fabricante, cumprimentando o paciente e lhe dando parabéns por estar seguindo o tratamento prescrito. O médico e a indústria farmacêutica, unidos para que ele tomasse o remédio... E agora, isso é bom?
Não é à toa que muita gente tem achado mais simples a grosseria, que dificilmente é falsa. A cordialidade é suspeita, o desaforo, não. Isso explicaria a multidão que hoje parece mais confortável trocando insultos que amabilidades.
Interpretar uma gentileza não é tarefa fácil: pode-se errar por aceitar e pode-se também errar por recusar: rejeitar todo gesto atencioso não soa muito sensato.
Essa dificuldade - de julgar acertadamente uma gentileza - fica bem evidente em um episódio que ocorreu em 1780, no Forte de Camapuã, em Mato Grosso.
O sargento-mor, que chefiava o Forte, havia recebido instruções do governador para ser gentil com os índios Guaicurus. No entanto, parece que não vinha sendo tão cordial assim, tanto que um grupo de oficiais já estava escrevendo um memorial – de denúncia - criticando o sargento-mor por agir de maneira desconfiada com os índios; e estavam nisso quando apareceu um bando deles, a uns trezentos metros do Forte. Vinham com mulheres, ovelhas, perus, peles e artigos para troca. O Comandante ordenou então que continuassem lá fora, e enviou doze soldados para negociarem. E os soldados foram, chefiados por um ajudante.
Para encurtar a história, os índios acabaram sendo admitidos no Forte e, depois de terem comido e bebido, atacaram os soldados. Mataram 45 homens e fugiram com as armas e munições que conseguiram roubar.
E então os oficiais, que antes estavam escrevendo contra a desconfiança do Comandante, rasgaram o que já haviam rabiscado e começaram a redigir outro documento, agora contra a gentileza dele...