Corrupção significa apodrecimento. E como é, então, que nos habituamos com a corrupção, como nos conformamos com a podridão? Como acontece essa decomposição moral? Vai aqui um esboço inicial; um pequeno ensaio sobre as circunstâncias em que a corrupção ocorre. Assim, esta ruminação é sobre esse processo traiçoeiro de dissolução, de degradação; tão sutil que acaba sendo aceito como normal.
Acontece que, geralmente, corrupção e má fé vêm juntas no mesmo pacote. Sartre explica bem o que significa isso: má fé. Quem usa de má fé tem a posse completa da verdade, mas, antes de tudo, turva sua própria visão, ilude a si mesmo. Afasta da consciência uma parte dos fatos, distorce, atribui um novo significado ao que acontece. Passa a não se achar culpado, mesmo sabendo que tem culpa. Oscila entre a boa fé e o cinismo.
O salário absurdo que o político ou o juiz atribui a si mesmo, o uso indevido que faz dos recursos públicos, corporativismo, clientelismo, tudo isso é apresentado sem a menor vergonha, aliás, pomposamente, por via de regra. O corrupto não perde a pose, ao contrário, age como se fosse corretíssimo, cerca-se de toda a cerimônia. O ritual, o simbolismo que serve para a corrupção, é o mesmo que serve para os atos mais nobres. A população então confunde rótulo com conteúdo. Acredita. O próprio corrupto não se acha corrupto. A má fé impede que a pessoa se dê conta da corrupção. Esse é um fato importante.
Além da má fé, há outra circunstância que normalmente disfarça a corrupção: é a má administração, a má gestão. Há muitos anos saiu um estudo sobre roubo nas empresas. A conclusão foi que, geralmente, o roubo está associado à falta de controle, de gerência. O ladrão então não se acha ladrão: diz para si mesmo que aquilo não tem dono, que ninguém se interessa pelo objeto que ele quer roubar, que tanto faz levar como deixar lá; se ele não levar, outro leva. Rouba sem culpa.
A pequena população da Islândia – 320 mil habitantes – deu-se conta de quanto a má gestão se confunde com o roubo. Geir Haarde era primeiro ministro no tempo em que faliram os bancos islandeses, privatizados havia pouco. Muita gente ficou endividada, empobreceu por isso. Haarde acabou sendo levado a julgamento. Aí se fez a distinção: não foi condenado por corrupção: foi condenado por incompetência. Alguns banqueiros, esses sim, acabaram presos.
Temos visto, então, tanto a ma fé quanto a má gestão promovendo um roubo sem culpa, ou seja, a má fé e a má gestão camuflam a dissolução dos costumes, escondem a degradação moral, a corrupção. Isso ficou patente no caso da Islândia. No resto do mundo, nem os políticos foram julgados nem os banqueiros presos pela crise de 2008. A mídia abafou o caso. Agiu de má fé. O pouco que foi noticiado sobre a Islândia omitiu a corrupção. O caso apareceu como confronto partidário, como disputa entre direita e esquerda. Muitos políticos e muitos milionários – de esquerda e direita – na Europa e nos EUA, não gostariam de ver a corrupção levada aos tribunais...
sábado, 24 de agosto de 2013
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