terça-feira, 14 de julho de 2009

O livro do Obama e a carta do Papa

Em 2006 o Obama publicou um livro (The Audacity of Hope). E agora o Papa escreveu uma carta com bastante conteúdo político (Encíclica “Caritas in veritate"). Assim é que ambos, o Presidente e o Papa, falam sobre o que tomam em conta quando pensam nos destinos do mundo.
Aviso ao leitor que este artigo é mais propriamente um resumo do que um texto literário corrido: exige portanto uma atenção que seria mais própria de quem estuda do que de quem lê por prazer. Os trechos extraídos são muito condensados; meus comentários, brevíssimos. Procurei ilustrar partes do pensamento de um e de outro, sem desfigurar o todo, apenas admitindo uma exposição um tanto entrecortada.
Começamos por este trecho, em que o Obama permite ver, em um relance, o estilo do governo Bush. Quando ainda era senador, Obama visitou, a convite, o então presidente Bush, na Casa Branca. “Obama!", o presidente (Bush) disse, apertando a minha mão. “Venha aqui conhecer a Laura”.... O Presidente se virou para um auxiliar próximo, que borrifou um monte de desinfetante para mãos nas mãos do Presidente. “Quer um pouco?”, o Presidente perguntou. “Coisa boa. Evita resfriados”. Depois Bush diz “Espero que você não se aborreça se eu lhe der um conselho... Todo o mundo vai ficar esperando que você escorregue, entende o que digo? Então, tome cuidado!”Pg 57.
Sobre os valores e o individualismo americano: “Nosso individualismo sempre foi ligado por um conjunto de valores comunitários, essa cola da qual depende toda sociedade sadia. ... E valorizamos uma constelação de comportamentos que expressam a consideração de um pelo outro: honestidade, justiça, humildade, bondade, cortesia e compaixão”. Pg 66 e 67.
Volta e meia em seu livro, Obama atribui importância capital ao diálogo. O que o arcabouço da nossa Constituição pode fazer é organizar a maneira como debatemos sobre o nosso futuro. Todo o mecanismo elaborado ... para nos forçar a conversar”. Pg110. Mostra, como exemplo disso, (pg114) que o único ponto que não foi conversado pelos Fundadores da Pátria, a escravidão – justamente por não ter sido objeto de discussão -acabou resultando em guerra civil.
Sobre a relação com os outros países, conta sobre a sua vida em 1967, aos seis anos, na Indonésia: “Vivíamos na periferia em uma casa modesta, sem ar-condicionado, refrigeração ou vasos sanitários com descarga. Não tínhamos carro, meu padrasto andava de motocicleta”. Pg322. Naquela época a CIA havia apoiado um golpe para derrubar o presidente Sukarno, que foi substituído por Suharto, favorável aos EUA. Os comunistas ligados ao antigo presidente foram mortos, ao longo do tempo. Estima-se ter havido um massacre de 500 mil a um milhão de pessoas. Hoje isso é um fato reconhecido mas, segundo Obama, nada transpirava. Vale repetir que ele tinha então seis anos, a mãe 24, e chegaram a Jakarta porque ela havia se casado com um estudante indonésio no Havaí.
Seguem trechos da carta do Papa, escrita em linguagem bem menos popular que a do Obama, e bem mais distendida - litúrgica – talvez. No entanto trata bastante de assuntos deste mundo.
O Papa valoriza os diálogos, assim como Obama faz; vê a verdade como criadora da compreensão mútua. “Com efeito, a verdade é « lógos » que cria « diá-logos » e, conseqüentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas.(4)
Neste outro tópico, quando se trata de separar totalmente o estado da igreja, possivelmente divergem Obama e o Papa, que diz “...se o fanatismo religioso impede em alguns contextos o exercício do direito de liberdade de religião, também a promoção programada da indiferença religiosa ou do ateísmo prático por parte de muitos países contrasta com as necessidades do desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos espirituais e humanos. Deus é o responsável pelo verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de « ser mais »”29. Nessa questão, Obama argumenta que, em uma democracia, não se pode cercear o direito de ser ateu.
O Papa valoriza a verdade e a benevolência; mais do que isso, vê a verdade e a benevolência como coisas interdependentes: “Não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor.” 30.
O Papa faz ver que o mercado precisa da confiança recíproca para funcionar: “O mercado está sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais. ...De fato, deixado unicamente ao princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o mercado não consegue gerar a coesão social de que necessita para bem funcionar. Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. E, hoje, foi precisamente esta confiança que veio a faltar; e a perda da confiança é uma perda grave” 35.
E reforça a percepção de que o mercado não é um mecanismo autônomo: “Não se deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe; mas toma forma a partir das configurações culturais que o especificam e orientam......A área econômica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à atividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.” 36.
Conclusão: tanto as palavras do Obama como as do Papa fundamentalmente retomam a noção simples, que no entanto parecia perdida, de que a benevolência, a verdade, e o diálogo caminham juntos. Sendo assim, trazem a esperança de volta...