A ética muda e com ela mudam a política e as leis. E a ética, a política e as leis mudaram muito. O Antigo Testamento determinava que o ladrão restituísse o que havia roubado. E caso não tivesse meios para isso, que fosse então vendido como escravo (Êxodo 22,3). Roubou, devolve! Ah, não tem como devolver? Vai ser vendido como escravo. Como se vê, a maneira de tratarmos os ladrões agora é outra, muitíssimo diferente.
Durante séculos admiramos a força, a majestade. Meu pai, aos 93, ainda acha que os feitos de Napoleão são admiráveis. Hoje, estranhamos os costumes de antigamente. Por exemplo – lá por volta do século XVII – os meninos cantores dos coros católicos eram castrados para manterem a voz fina. Isso era feito para maior glória do Papa. A ética consolidava um poder concentrado, absoluto, inquestionável.
Como se vê, o tema desta Ruminação é a evolução dos nossos hábitos, das nossas crenças. Vamos tratar basicamente da ética, que regula nossa relação com os outros. Ocorre que a ética, os valores, os atos admirados e os atos condenados, tudo isso conduz um grupo a resistir ou a sucumbir.
Mas não escrevo inspirado pela Bíblia, e sim por uma palestra feita por Thomas Huxley na Universidade de Oxford, em 1893, intitulada “Evolution and Ethics”. Nesse discurso ele conceitua o papel da ética do ponto de vista da biologia. Compara a humanidade a um sujeito que resolve fazer um jardim em um lugar distante, onde havia até então vegetação natural.
E o jardineiro, empreendedor, movido por sua própria vontade, resolveu selecionar determinadas espécies e extirpar outras. Inibiu a multiplicação ilimitada. Cuidou de evitar os danos que o tempo pudesse causar às plantas selecionadas; adubou quando preciso. Em outras palavras, o jardineiro trouxe o seu conceito próprio de bom e de mau. Nem tudo o que era bom para a Natureza considerou bom para ele. Impôs sua ética.
A ética é uma criação humana; pode-se dizer então, artificial. O jardineiro está sempre tendo que lutar contra a Natureza. A natureza dele não é igual à do cosmos.
Com o progresso científico, com as máquinas trabalhando para os homens e o melhor aproveitamento dos recursos, a vida foi ficando mais fácil. E a ética foi mudando, foi-se tornando mais suave. Hoje, parece que o jardineiro desistiu da ética que admira os mais fortes. Foi para o outro extremo. Passou a dar toda a atenção aos marginalizados. A gravidez na adolescência passou a ser acolhida. Os drogados são acolhidos. Os ladrões são acolhidos. Prega-se uma tolerância infinita. Reprimir é malvisto. O juiz ladrão recebe meritíssima aposentadoria como pena.
Ocorre que, estabelecendo comportamentos para o indivíduo, dirige-se o destino do grupo. Não basta olhar para cada um, é preciso ver o conjunto. O que parece bom para o indivíduo, pode vir a ser mau para todos. Permitindo-se tudo, nada é viável. Cabe a pergunta: praticando a ética atual, sobrevivemos?
Tenho um amigo que fabricava uma cachaça (Souza Leão). Vinha escrito no rótulo: “Cuidadosamente natural”. Isso resume a proposta desta ruminação: uma ética que cuide dos seus limites.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
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