Mujica e Pierre Rabhi vivem de acordo com seus discursos: vivem frugalmente. Pregam a inviabilidade de continuar a “crescer”; a impossibilidade de “progredir” no sentido em que temos caminhado: mais energia, mais automóveis, mais geladeiras, mais gente, mais casas... Pierre Rabhi é um camponês algeriano que vê o crescimento econômico como problema e não como solução. Acredita que assim vamos freneticamente nos desligando dos fundamentos da vida.
Realmente, parece que o básico da vida, as noções essenciais, vão sendo esquecidas. Vai aqui um exemplo: caminhando com a minha neta – uma pernambucaninha de 13 anos - acabei parando em uma barraquinha e pedindo uma água de coco. Ela preferiu água mineral. Quando terminei de beber, pedi que o vendedor abrisse o coco e fizesse uma colher:
- Abrir o coco para quê?
- Para comer a laminha...
- Que é isso? Você come isso? Usa essa lasca como colher?
Em vez disso, água mineral. Não há mais diversidade. Tudo é mercado de massa. As barracas de Boa Viagem têm arquitetura de Dubai. Os assuntos que “interessam” à massa são meia dúzia.
A verdade é que esse progresso não tem cumprido a promessa de nos libertar. Ainda que máquinas fabulosas estejam fazendo o trabalho que os homens antes faziam – paradoxalmente – a ociosidade vem produzindo o pior dos mundos. O dinheiro passou a dar direito a tudo: não há limites. Convive-se com a inquietude e com as drogas, sejam legais ou ilegais. Haja ansiolíticos. Por qual razão não estamos aproveitando o imenso benefício que as maravilhas da tecnologia põem a nosso dispor? Para onde nos conduz um crescimento alucinado, drogado?
Vemos gritos por justiça, por inclusão, por igualdade. Contudo, a Justiça não parece possível se, antes, não cultivarmos outras três virtudes clássicas: a Coragem, o Conhecimento e, sobretudo, a Temperança. É que não se fala mais dessa última virtude; da moderação, da sobriedade, da parcimônia, da frugalidade.
A sobriedade, a parcimônia, deveriam ser ensinadas nas famílias, nas escolas. Realmente, parece muito difícil que venhamos a ter Justiça em um mundo que não valoriza a moderação... A temperança põe limites aos desejos, a temperança vai contra a ostentação como valor.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
ACLAMANDO OS CORRUPTOS
Não adianta: o corrupto tem um prestígio inesgotável entre os eleitores. Sendo impedido de se candidatar, vai um amigo ou algum parente como candidato no lugar dele. E o povo então elege esse desconhecido, dublê do corrupto. Se o condenado não pode, pode o sócio, pode o irmão. A Lei da Ficha Limpa não dá conta desse impulso incontrolável.
Os vigaristas são, em geral, simpáticos. Não tratam de assuntos incompreensíveis: nada de abstrações como Constituição, República, Justiça, Dignidade e coisas assim. Nada dessas coisas difíceis, como cronogramas, prestação de contas... Apenas, de vez em quando, mesmo fora do período das eleições, aparecem nas comunidades. Distribuem agrados. Basta isso.
A democracia é o governo do povo. E o povo age assim. A voz do povo é a voz de Deus. E lá se vão os corruptos, ungidos, aclamados pela multidão.
Alguns cidadãos, no entanto, não se conformam com esse triunfo democrático dos ladrões. Ficam cismados com essa resposta esquisita que a democracia lhes dá. Buscam explicações. E dizem que a nossa democracia é novinha, incipiente, e precisa ser educada. Vamos tutelar a democracia! O povo é soberano, “pero no mucho”. Não se trata de cortar a soberania popular, vamos só podar um pouquinho. E assim, esse punhado de heróis, já que ninguém mais se importa, inventa leis como a Ficha Limpa. Criam leis em uma tentativa de ensinar, de orientar. Mas leis assim, estranhas aos hábitos da população, provavelmente acabam desrespeitadas. E surtem o efeito contrário: o povo aprende que as leis não são para valer.
Talvez, diante desse quadro, alguns idealistas fiquem deprimidos. Um caminho para se livrar disso é imaginar que as coisas podem se corrigir sozinhas. O Brasil é um país unido, enorme, apesar de todas as probabilidades contrárias.
Ou então, que valha a frase do ecologista francês: “Não sou pessimista, é tarde demais para isso.”; e continua atuando animado, indiferente ao quadro desanimador.
Os vigaristas são, em geral, simpáticos. Não tratam de assuntos incompreensíveis: nada de abstrações como Constituição, República, Justiça, Dignidade e coisas assim. Nada dessas coisas difíceis, como cronogramas, prestação de contas... Apenas, de vez em quando, mesmo fora do período das eleições, aparecem nas comunidades. Distribuem agrados. Basta isso.
A democracia é o governo do povo. E o povo age assim. A voz do povo é a voz de Deus. E lá se vão os corruptos, ungidos, aclamados pela multidão.
Alguns cidadãos, no entanto, não se conformam com esse triunfo democrático dos ladrões. Ficam cismados com essa resposta esquisita que a democracia lhes dá. Buscam explicações. E dizem que a nossa democracia é novinha, incipiente, e precisa ser educada. Vamos tutelar a democracia! O povo é soberano, “pero no mucho”. Não se trata de cortar a soberania popular, vamos só podar um pouquinho. E assim, esse punhado de heróis, já que ninguém mais se importa, inventa leis como a Ficha Limpa. Criam leis em uma tentativa de ensinar, de orientar. Mas leis assim, estranhas aos hábitos da população, provavelmente acabam desrespeitadas. E surtem o efeito contrário: o povo aprende que as leis não são para valer.
Talvez, diante desse quadro, alguns idealistas fiquem deprimidos. Um caminho para se livrar disso é imaginar que as coisas podem se corrigir sozinhas. O Brasil é um país unido, enorme, apesar de todas as probabilidades contrárias.
Ou então, que valha a frase do ecologista francês: “Não sou pessimista, é tarde demais para isso.”; e continua atuando animado, indiferente ao quadro desanimador.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
EDUARDO CAMPOS, OUTROS E A MÁ-FÉ
Na morte, a dor da família deve ser respeitada. Não obstante, outros sentimentos merecem respeito. Portanto, vai aqui um pequeno ensaio, examinando atitudes relacionadas à morte do Eduardo Campos, candidato à presidência. Ao final, volta-se ao conceito de “má-fé”, tão exaustivamente explicado pelo velho Sartre.
E assim este ensaio começa notando que, mesmo com apenas 9% dos votos, um candidato recebe homenagens póstumas infinitamente maiores do que receberia um ótimo cientista, ou médico, ou policial, ou professor... Noticia-se uma desolação nacional formidável, aparentemente superior a qualquer tragédia que aflija os outros.
Na véspera de sua morte, em entrevista ao Jornal Nacional, foi perguntado ao Eduardo Campos se ele não se constrangia por usar a máquina pública, através da política, para tornar a sua mãe – Ana Arraes – Ministra do Tribunal de Contas da União. Ora, o TCU é um tribunal incumbido de fiscalizar o Estado. Ou seja, seria correto usar a política para dar à própria mãe um cargo vitalício no Tribunal incumbido de vigiar o filho? Aliás, o entrevistador mencionou que Campos havia conseguido também colocar dois parentes no Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco. Ser fiscalizado por parentes não lhe parecia inconveniente? Campos disse que não; que os nomes haviam sido aprovados pelo voto dos deputados.
Um outro fato consolida essa noção de que não vemos mal quando a pessoa é “boa”. Após a queda do avião ter sido noticiada, publicou-se que a Presidente da República havia oferecido um avião (da FAB) à mãe do candidato morto para levá-la a Recife. E então, a mãe desolada viajou ao lado de outro Ministro do TCU, José Múcio. Explicando melhor: a mais alta autoridade do Poder Executivo ofereceu um avião, para que a Ministra que deveria fiscalizá-la fosse ao encontro da família. De quebra, fez favor a outro Ministro, com dinheiro público. Os ministros, comovidos, aceitaram o gesto magnânimo de quem deveriam estar investigando.
Tudo muito diferente do que ocorre na Alemanha, por exemplo: no ano passado, nas férias da Presidente Angela Merkel, o marido, Joachim Sauer, foi de carro encontrá-la na ilha de Ischia, na Itália, porque, para ir no avião presidencial, teria que pagar muito.
Mas vamos voltar aos desastres nacionais. Recentemente uma conhecida capotou com sua caminhonete quando estava transportando queijo da fazenda para a cidade. Em seguida ao acidente, vários carros pararam. Ela havia ficado presa – pedia socorro para sair da cabine. Mas paravam para roubar os queijos. Demorou até que alguém enfrentasse os saqueadores e fosse ajudá-la. Demorou a aparecer esse que – achando a situação absurda – interveio para parar com a roubalheira e auxiliar a vítima.
Situações assim são comuns. Há um tempo a Globo entrevistou saqueadores da carga de um caminhão tombado. Entrevistados no ato de pilhagem, diziam que “todo o mundo estava fazendo isso”; que “a carga estava se estragando e melhor seria se alguém aproveitasse”...
Sartre vem à lembrança quando – guardadas as proporções – faz-se a comparação da maneira de agir dos políticos com esses outros, que se apossam do que parece ser de ninguém. O conceito de má-fé que o Sartre instituiu é muito interessante: a má-fé começa com o sujeito enganando a si mesmo. Começa justificando o injustificável. Parte de uma desculpa esfarrapada. Muita gente "boa" age da má-fé. E, normalmente, não nos damos conta disso. Daí este ensaio.
E assim este ensaio começa notando que, mesmo com apenas 9% dos votos, um candidato recebe homenagens póstumas infinitamente maiores do que receberia um ótimo cientista, ou médico, ou policial, ou professor... Noticia-se uma desolação nacional formidável, aparentemente superior a qualquer tragédia que aflija os outros.
Na véspera de sua morte, em entrevista ao Jornal Nacional, foi perguntado ao Eduardo Campos se ele não se constrangia por usar a máquina pública, através da política, para tornar a sua mãe – Ana Arraes – Ministra do Tribunal de Contas da União. Ora, o TCU é um tribunal incumbido de fiscalizar o Estado. Ou seja, seria correto usar a política para dar à própria mãe um cargo vitalício no Tribunal incumbido de vigiar o filho? Aliás, o entrevistador mencionou que Campos havia conseguido também colocar dois parentes no Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco. Ser fiscalizado por parentes não lhe parecia inconveniente? Campos disse que não; que os nomes haviam sido aprovados pelo voto dos deputados.
Um outro fato consolida essa noção de que não vemos mal quando a pessoa é “boa”. Após a queda do avião ter sido noticiada, publicou-se que a Presidente da República havia oferecido um avião (da FAB) à mãe do candidato morto para levá-la a Recife. E então, a mãe desolada viajou ao lado de outro Ministro do TCU, José Múcio. Explicando melhor: a mais alta autoridade do Poder Executivo ofereceu um avião, para que a Ministra que deveria fiscalizá-la fosse ao encontro da família. De quebra, fez favor a outro Ministro, com dinheiro público. Os ministros, comovidos, aceitaram o gesto magnânimo de quem deveriam estar investigando.
Tudo muito diferente do que ocorre na Alemanha, por exemplo: no ano passado, nas férias da Presidente Angela Merkel, o marido, Joachim Sauer, foi de carro encontrá-la na ilha de Ischia, na Itália, porque, para ir no avião presidencial, teria que pagar muito.
Mas vamos voltar aos desastres nacionais. Recentemente uma conhecida capotou com sua caminhonete quando estava transportando queijo da fazenda para a cidade. Em seguida ao acidente, vários carros pararam. Ela havia ficado presa – pedia socorro para sair da cabine. Mas paravam para roubar os queijos. Demorou até que alguém enfrentasse os saqueadores e fosse ajudá-la. Demorou a aparecer esse que – achando a situação absurda – interveio para parar com a roubalheira e auxiliar a vítima.
Situações assim são comuns. Há um tempo a Globo entrevistou saqueadores da carga de um caminhão tombado. Entrevistados no ato de pilhagem, diziam que “todo o mundo estava fazendo isso”; que “a carga estava se estragando e melhor seria se alguém aproveitasse”...
Sartre vem à lembrança quando – guardadas as proporções – faz-se a comparação da maneira de agir dos políticos com esses outros, que se apossam do que parece ser de ninguém. O conceito de má-fé que o Sartre instituiu é muito interessante: a má-fé começa com o sujeito enganando a si mesmo. Começa justificando o injustificável. Parte de uma desculpa esfarrapada. Muita gente "boa" age da má-fé. E, normalmente, não nos damos conta disso. Daí este ensaio.
domingo, 13 de julho de 2014
FUTEBOL, PÁTRIA E DINHEIRO
O futebol brasileiro faz lembrar do Vadinho, um personagem do Jorge Amado. Acontece que o Vadinho caiu morto no meio da rua. Com ele lá, estendido no chão, foi juntando gente em volta. Até que apareceu um médico que, examinado o corpo, confirmou a morte. E então alguém pergunta: “Doutor, ele morreu de quê?” E o Doutor responde: “De tudo meu filho, de tudo...”
Daqui do sítio se tem a impressão de que a seleção teria o mesmo laudo: morreu de tudo. Morreu uma seleção composta por milionários preocupados em mostrar que valem mesmo o dinheiro que recebem. Vivem em outros países. Relacionam-se com o Brasil através da CBF, da FIFA – instituições não muito edificantes, não muito exemplares.
Afinal, o que é esporte? Que diabo significa essa palavra, esporte? Fazer uma coisa por esporte é fazer por diversão, por prazer. Mas, e o esporte profissional? Esporte profissional é mais ou menos como amor profissional. E lá vem a velha anedota do surfista profissional que dizia que o que mais queria na vida era largar o surf para se dedicar ao que realmente gostava... Enfim, o conceito de esporte profissional traz uma contradição latente: o esportista profissional tem obrigação de gostar do que faz.
Há algumas décadas o futebol era, antes de tudo, um esporte. Hoje é, principalmente, um negócio. Está ligado visceralmente à indústria do entretenimento. E a indústria do entretenimento valoriza a aparência e não o espírito esportivo.
Antes, a Seleção era a Pátria de Chuteiras e os jogadores representavam o Brasil em um mundo metido a besta. Foi quando começamos a nos perceber como capazes – começamos a acreditar que o vira-latas era melhor do que o cão de raça. Foi um período dourado. Ganhamos de todo o mundo.
Mas o tempo devora tudo. No lugar do futebol veio o "futebol-negócio", uma máquina muito mais exata, muito mais racional. E agora percebemos que, mesmo tendo 200 milhões de habitantes, perdemos da Holanda, que tem 17 milhões e da Alemanha, que tem 81 milhões. Voltamos a ser vira-latas? Parece que não! Fomos para o outro extremo. Nos comportamos como bichinhos mimados. Nos dedicamos muito mais ao penteado, à chuteira pintada, à aparência, ao marketing. Além disso, os brasileiros hoje acham que têm direito a tudo. Temos direito a casa, comida, temos direito a dinheiro, devemos ser perdoados pelos nossos crimes e, por que não, temos direito à Copa do Mundo. Temos direito à vitória. Choramos muito se formos contrariados.
Daqui do sítio se tem a impressão de que a seleção teria o mesmo laudo: morreu de tudo. Morreu uma seleção composta por milionários preocupados em mostrar que valem mesmo o dinheiro que recebem. Vivem em outros países. Relacionam-se com o Brasil através da CBF, da FIFA – instituições não muito edificantes, não muito exemplares.
Afinal, o que é esporte? Que diabo significa essa palavra, esporte? Fazer uma coisa por esporte é fazer por diversão, por prazer. Mas, e o esporte profissional? Esporte profissional é mais ou menos como amor profissional. E lá vem a velha anedota do surfista profissional que dizia que o que mais queria na vida era largar o surf para se dedicar ao que realmente gostava... Enfim, o conceito de esporte profissional traz uma contradição latente: o esportista profissional tem obrigação de gostar do que faz.
Há algumas décadas o futebol era, antes de tudo, um esporte. Hoje é, principalmente, um negócio. Está ligado visceralmente à indústria do entretenimento. E a indústria do entretenimento valoriza a aparência e não o espírito esportivo.
Antes, a Seleção era a Pátria de Chuteiras e os jogadores representavam o Brasil em um mundo metido a besta. Foi quando começamos a nos perceber como capazes – começamos a acreditar que o vira-latas era melhor do que o cão de raça. Foi um período dourado. Ganhamos de todo o mundo.
Mas o tempo devora tudo. No lugar do futebol veio o "futebol-negócio", uma máquina muito mais exata, muito mais racional. E agora percebemos que, mesmo tendo 200 milhões de habitantes, perdemos da Holanda, que tem 17 milhões e da Alemanha, que tem 81 milhões. Voltamos a ser vira-latas? Parece que não! Fomos para o outro extremo. Nos comportamos como bichinhos mimados. Nos dedicamos muito mais ao penteado, à chuteira pintada, à aparência, ao marketing. Além disso, os brasileiros hoje acham que têm direito a tudo. Temos direito a casa, comida, temos direito a dinheiro, devemos ser perdoados pelos nossos crimes e, por que não, temos direito à Copa do Mundo. Temos direito à vitória. Choramos muito se formos contrariados.
sábado, 19 de abril de 2014
SUSTENTABILIDADE?
O conceito de “sustentabilidade” não se sustenta facilmente. Pretende que o ser humano seja naturalmente artificial; ou, talvez, artificialmente natural.
A possibilidade de haver superpopulação ilustra bem o que está em jogo na questão da “sustentabilidade”. Se é que queremos qualidade de vida, e se vamos continuar confinados ao Planeta Terra, então - obviamente - a população humana não deve aumentar além de determinado número.
Ocorre que a espécie humana – assim como todos os seres vivos - multiplica-se naturalmente enquanto houver meios de sustentação. Assim, a limitação planejada de filhos não é natural, é artificial. Tão artificial quanto um prédio ou uma máquina. É fruto da mente humana. Então, a “qualidade de vida” que queremos não é "natural". Se formos "naturais", não teremos a vida que queremos. Essa verdade parece difícil de ser encarada.
Assim é que a nossa Constituição diz* o que queremos: queremos ter filhos à vontade. E assim, a nossa Lei Maior proíbe que o Estado se intrometa no planejamento familiar, ao mesmo tempo em que incumbe esse mesmo Estado de prover recursos para todos os que vierem a nascer.
Nossos políticos, nossas leis, apenas refletem o “Crescei e multiplicai-vos”; ou seja, nosso discurso, pretensamente racional, na verdade, não esclarece, não fundamenta racionalmente. Queremos e pronto!
E, se o meio ambiente não é capaz de sustentar um crescimento ilimitado da população, também não parece capaz de sustentar um eterno “crescimento econômico”. Infelizmente, pelo jeito, também o “crescimento econômico” parece inevitável: faz parte do discurso político. O candidato que prometer estagnação econômica está perdido.
Há, no entanto, casos concretos em que a Razão busca um acordo com a Natureza. Houve um tempo em que a água de Manhattan vinha da ilha de Manhattan mesmo (até por volta de 1800). Hoje, Nova Iorque vai buscar água em Catskill Mountains, Delaware River, enfim, em nascentes protegidas que ocupam 5.100 quilômetros quadrados a oeste e ao norte de NY, em distâncias de até 200 km. Trata-se de uma área um pouquinho menor que nosso Distrito Federal. A água que abastece Nova Iorque precisa de pouco tratamento. Vem de fontes limpas e as autoridades vivem preocupadas em evitar infestações e pragas. De 1997 a 2007 compraram mais 34.000 ha de terra, para preservar.
No Brasil aparentamos estar fazendo preservação semelhante. Mas, de fato, não fazemos. Por exemplo, foi criada, em março de 2010, a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe (31.643 ha). O propósito seria proteger florestas e nascentes próximas do Recife. Mas vale dizer que essa região continua sendo devastada, embora provenha dela a água para Recife, inclusive água engarrafada. Leis federais, estaduais e municipais, que defendem o meio ambiente, são ostensivamente transgredidas. Mas não é só em Pernambuco.
E São Paulo, ameaçado pela falta d'água? São Paulo não pode parar.
Redação revisada em 20 de julho de 2014
* Art. 226, § 7: Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.
A possibilidade de haver superpopulação ilustra bem o que está em jogo na questão da “sustentabilidade”. Se é que queremos qualidade de vida, e se vamos continuar confinados ao Planeta Terra, então - obviamente - a população humana não deve aumentar além de determinado número.
Ocorre que a espécie humana – assim como todos os seres vivos - multiplica-se naturalmente enquanto houver meios de sustentação. Assim, a limitação planejada de filhos não é natural, é artificial. Tão artificial quanto um prédio ou uma máquina. É fruto da mente humana. Então, a “qualidade de vida” que queremos não é "natural". Se formos "naturais", não teremos a vida que queremos. Essa verdade parece difícil de ser encarada.
Assim é que a nossa Constituição diz* o que queremos: queremos ter filhos à vontade. E assim, a nossa Lei Maior proíbe que o Estado se intrometa no planejamento familiar, ao mesmo tempo em que incumbe esse mesmo Estado de prover recursos para todos os que vierem a nascer.
Nossos políticos, nossas leis, apenas refletem o “Crescei e multiplicai-vos”; ou seja, nosso discurso, pretensamente racional, na verdade, não esclarece, não fundamenta racionalmente. Queremos e pronto!
E, se o meio ambiente não é capaz de sustentar um crescimento ilimitado da população, também não parece capaz de sustentar um eterno “crescimento econômico”. Infelizmente, pelo jeito, também o “crescimento econômico” parece inevitável: faz parte do discurso político. O candidato que prometer estagnação econômica está perdido.
Há, no entanto, casos concretos em que a Razão busca um acordo com a Natureza. Houve um tempo em que a água de Manhattan vinha da ilha de Manhattan mesmo (até por volta de 1800). Hoje, Nova Iorque vai buscar água em Catskill Mountains, Delaware River, enfim, em nascentes protegidas que ocupam 5.100 quilômetros quadrados a oeste e ao norte de NY, em distâncias de até 200 km. Trata-se de uma área um pouquinho menor que nosso Distrito Federal. A água que abastece Nova Iorque precisa de pouco tratamento. Vem de fontes limpas e as autoridades vivem preocupadas em evitar infestações e pragas. De 1997 a 2007 compraram mais 34.000 ha de terra, para preservar.
No Brasil aparentamos estar fazendo preservação semelhante. Mas, de fato, não fazemos. Por exemplo, foi criada, em março de 2010, a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe (31.643 ha). O propósito seria proteger florestas e nascentes próximas do Recife. Mas vale dizer que essa região continua sendo devastada, embora provenha dela a água para Recife, inclusive água engarrafada. Leis federais, estaduais e municipais, que defendem o meio ambiente, são ostensivamente transgredidas. Mas não é só em Pernambuco.
E São Paulo, ameaçado pela falta d'água? São Paulo não pode parar.
Redação revisada em 20 de julho de 2014
* Art. 226, § 7: Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.
quinta-feira, 20 de março de 2014
QUATRO OPINIÕES SOBRE A DEMOCRACIA
Vão aqui quatro opiniões históricas sobre a democracia, com a intenção de desmistificar, de ajustar expectativas.
Parece razoável começar pela visão do filósofo Platão, o mais antigo entre os quatro apresentados aqui. Platão não acreditava que a democracia fosse boa coisa. Mesmo se tratando da democracia direta – superior, portanto, à democracia representativa, hoje em voga, feita por procuração.
Cerca de 380 anos antes de Cristo nascer, Platão via a democracia como conseqüência de uma vitória dos pobres, parecendo ser, talvez, a mais bela das constituições, prometendo uma cidade que se encheria de liberdade(1) e amor à igualdade!(2) Mas percebia que, em uma democracia de fato, logo a população se insurge contra qualquer chefe que não seja dócil e permissivo; o pai passa a ter medo de desagradar o filho; por sua vez, o filho não respeita os pais; os professores só elogiam os alunos e os alunos têm os mestres em pouca consideração. Os velhos ficam querendo imitar os jovens. E a alma dos cidadãos se torna tão melindrosa que se aborrecem com qualquer contrariedade, e passam a não dar atenção às leis(3). Por fim, em um ambiente assim, anárquico, logo alguém mais violento domina. E surge então a mais selvagem das escravaturas. Ou seja, resumindo, Platão diz que a democracia traz o caos e termina em tirania.
Outra visão de democracia, mais amena, é a de Santo Agostinho que, já depois de Cristo, lá pelo ano 394, faz ainda restrições a ela(4), como se observa no diálogo que matem com Evodius:
_ Agostinho: Então, se um povo é ordeiro e sério e trata o bem comum com cuidado; e se todos valorizam mais o interesse público do que o privado; assim, não é correto que a lei permita que esse povo escolha os seus magistrados?
_ Evodius: É correto.
_ Agostinho: Mas suponha que esse mesmo povo gradualmente se torne corrupto. Que venha a preferir o interesse privado ao bem público. Que os votos sejam comprados e vendidos e o povo, corrompido pela cobiça de honrarias, dê o poder a homens inescrupulosos, esbanjadores. Nesse caso, se existisse um homem bom e poderoso, que tomasse o poder do povo e o conferisse a um punhado de pessoas boas, ou mesmo a um só homem, não seria certo?
_ Evodius: Sim, seria.
Como se vê, Santo Agostinho achava que a democracia até poderia ser uma boa forma de governo, mas não para qualquer população. Haveria populações capazes de tomarem conta de si mesmas e populações que estariam em melhor condição se tuteladas.
Tem mais ou menos essa mesma opinião o filósofo inglês Stuart Mill: quanto mais evoluído for o povo, mais a democracia representativa seria justificada. Conhecido por defender a democracia representativa como – teoricamente - a melhor forma de governo, em seu livro famoso(5), publicado em 1861, ele, no entanto, dedica um capítulo inteiro para tratar das condições sociais em que a democracia representativa é inaplicável. Em suma, ele aponta requisitos morais e alguns conhecimentos necessários, sem os quais um governo democrático não funcionaria. Populações menos instruídas seriam dominadas por uma minoria que, a pretexto de representá-los, aumentaria os impostos e criaria cargos para enriquecer um grupo privilegiado.
Finalmente, que juízo faziam da democracia os fundadores da nossa República Federativa do Brasil, lá por volta de 1889? Note-se que foram poucos os que proclamaram a República: constituíam uma minoria reduzidíssima. A maioria era indiferente e até gostava do Imperador. E a idéia de “ordem e o progresso” foi tirada de Comte, que nunca foi fã da liberdade e muito menos da democracia. Os positivistas acreditavam em um governo que tomaria decisões baseadas em critérios científicos e não no capricho das multidões.
Inconclusa, esta ruminação fica por aqui, suspensa, porque há ainda muito a considerar sobre o assunto...
1A República 557
2Idem 561
3Idem 563
4De Libero Arbitrio - Liber Primus
5On Representative Government - Ch IV
Parece razoável começar pela visão do filósofo Platão, o mais antigo entre os quatro apresentados aqui. Platão não acreditava que a democracia fosse boa coisa. Mesmo se tratando da democracia direta – superior, portanto, à democracia representativa, hoje em voga, feita por procuração.
Cerca de 380 anos antes de Cristo nascer, Platão via a democracia como conseqüência de uma vitória dos pobres, parecendo ser, talvez, a mais bela das constituições, prometendo uma cidade que se encheria de liberdade(1) e amor à igualdade!(2) Mas percebia que, em uma democracia de fato, logo a população se insurge contra qualquer chefe que não seja dócil e permissivo; o pai passa a ter medo de desagradar o filho; por sua vez, o filho não respeita os pais; os professores só elogiam os alunos e os alunos têm os mestres em pouca consideração. Os velhos ficam querendo imitar os jovens. E a alma dos cidadãos se torna tão melindrosa que se aborrecem com qualquer contrariedade, e passam a não dar atenção às leis(3). Por fim, em um ambiente assim, anárquico, logo alguém mais violento domina. E surge então a mais selvagem das escravaturas. Ou seja, resumindo, Platão diz que a democracia traz o caos e termina em tirania.
Outra visão de democracia, mais amena, é a de Santo Agostinho que, já depois de Cristo, lá pelo ano 394, faz ainda restrições a ela(4), como se observa no diálogo que matem com Evodius:
_ Agostinho: Então, se um povo é ordeiro e sério e trata o bem comum com cuidado; e se todos valorizam mais o interesse público do que o privado; assim, não é correto que a lei permita que esse povo escolha os seus magistrados?
_ Evodius: É correto.
_ Agostinho: Mas suponha que esse mesmo povo gradualmente se torne corrupto. Que venha a preferir o interesse privado ao bem público. Que os votos sejam comprados e vendidos e o povo, corrompido pela cobiça de honrarias, dê o poder a homens inescrupulosos, esbanjadores. Nesse caso, se existisse um homem bom e poderoso, que tomasse o poder do povo e o conferisse a um punhado de pessoas boas, ou mesmo a um só homem, não seria certo?
_ Evodius: Sim, seria.
Como se vê, Santo Agostinho achava que a democracia até poderia ser uma boa forma de governo, mas não para qualquer população. Haveria populações capazes de tomarem conta de si mesmas e populações que estariam em melhor condição se tuteladas.
Tem mais ou menos essa mesma opinião o filósofo inglês Stuart Mill: quanto mais evoluído for o povo, mais a democracia representativa seria justificada. Conhecido por defender a democracia representativa como – teoricamente - a melhor forma de governo, em seu livro famoso(5), publicado em 1861, ele, no entanto, dedica um capítulo inteiro para tratar das condições sociais em que a democracia representativa é inaplicável. Em suma, ele aponta requisitos morais e alguns conhecimentos necessários, sem os quais um governo democrático não funcionaria. Populações menos instruídas seriam dominadas por uma minoria que, a pretexto de representá-los, aumentaria os impostos e criaria cargos para enriquecer um grupo privilegiado.
Finalmente, que juízo faziam da democracia os fundadores da nossa República Federativa do Brasil, lá por volta de 1889? Note-se que foram poucos os que proclamaram a República: constituíam uma minoria reduzidíssima. A maioria era indiferente e até gostava do Imperador. E a idéia de “ordem e o progresso” foi tirada de Comte, que nunca foi fã da liberdade e muito menos da democracia. Os positivistas acreditavam em um governo que tomaria decisões baseadas em critérios científicos e não no capricho das multidões.
Inconclusa, esta ruminação fica por aqui, suspensa, porque há ainda muito a considerar sobre o assunto...
1A República 557
2Idem 561
3Idem 563
4De Libero Arbitrio - Liber Primus
5On Representative Government - Ch IV
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O VALOR DOS IMÓVEIS E O VALOR DO DINHEIRO
Os melhores imóveis do Reino Unido têm sido comprados por estrangeiros. Por lá, quem compra imóveis novos, bons, não compra para morar: compra para investir. O fato é que estrangeiros - de Cingapura, da China, Malásia, Rússia - acabaram comprando 85% dos melhores imóveis de Londres em 2012.*
“Aqui como lá, más fadas há”. Isso acontece naturalmente em muitos países, porque o mercado orienta as pessoas. Ou será que as pessoas orientam o mercado? O fato é que dinheiro é só papel pintado e andam imprimindo às toneladas desde 2008. Com dinheiro até a metade das canelas, sem saber direito quanto vale isso, algumas pessoas veem o mercado imobiliário como porto mais seguro para armazenar valor. Assim como o ouro. O ouro seria um porto seguro também. Mas, seria mesmo? Afinal, ouro não serve para muita coisa, além de ostentar. Então, meio cismados com o ouro, muitos correram para os imóveis. Como consequência, sobem os preços no mercado imobiliário e o cidadão comum passa a ter dificuldades para morar razoavelmente. Os preços para compra e aluguel sobem, mesmo com muitos imóveis vazios, desocupados.
Como resposta a uma loucura dessas, a Austrália, por exemplo, resolveu que, para estrangeiros comprarem imóveis, é preciso haver a aprovação de um conselho (Foreign Investment Review Board). Basicamente, estrangeiros só podem comprar imóveis por lá se garantirem a construção de outros. Como se vê, na Austrália então, só quem pode distorcer o mercado são os australianos, os estrangeiros, não!
Recentemente li dois textos: um, do Chesterton, escrito em 1910 (What’s Wrong with the World) e outro, escrito pelo Papa Francisco agora em 2013 (Evangelii Gaudium). Ambos propõem uma forma de relacionamento econômico vinculada a um relacionamento social mais ameno, mais racional, mais classe média. Chesterton, e, mais de cem anos depois, o Papa, tanto um como outro, criticaram o capitalismo assim como o socialismo e pediram que se visse a realidade, que se tivesse bom senso, independentemente da crença em um ou outro sistema.
As circunstâncias da Londres do Chesterton em 1910 eram outras, é claro. Discutia-se se as mulheres deveriam ou não votar. Mas, independente de tudo, Chesterton entendia que a casa, o lar, é onde o cidadão se sente livre. Lá, ele pode ser ele mesmo. Lá se afirma o indivíduo, a família. Não achava aceitável as pessoas viverem em favelas, nem tampouco em conjuntos habitacionais, lugares em que a individualidade não é preservada. Por sua vez, o Papa diz que o dinheiro deve servir ao homem e não o homem ao dinheiro.
Concluindo, parece razoável entender que o valor dos imóveis, de alguma forma, transcende o valor do dinheiro. A propriedade imobiliária abriga o espírito de uma sociedade. A forma como os prédios ocupam o solo diz muito de uma população. Então, será razoável dizer que cresce a classe média no Brasil? Quem mora empilhado, em um ambiente em que não há respeito à individualidade, pode ser considerado “classe média”? Essa maneira de viver, que vamos achando “normal”, é a que queremos ou apenas achamos que não há outro jeito?
* “Stop rich overseas investors from buying up UK homes, report urges” The Observer, Saturday 1 February 2014 21.27 GMT.
“Aqui como lá, más fadas há”. Isso acontece naturalmente em muitos países, porque o mercado orienta as pessoas. Ou será que as pessoas orientam o mercado? O fato é que dinheiro é só papel pintado e andam imprimindo às toneladas desde 2008. Com dinheiro até a metade das canelas, sem saber direito quanto vale isso, algumas pessoas veem o mercado imobiliário como porto mais seguro para armazenar valor. Assim como o ouro. O ouro seria um porto seguro também. Mas, seria mesmo? Afinal, ouro não serve para muita coisa, além de ostentar. Então, meio cismados com o ouro, muitos correram para os imóveis. Como consequência, sobem os preços no mercado imobiliário e o cidadão comum passa a ter dificuldades para morar razoavelmente. Os preços para compra e aluguel sobem, mesmo com muitos imóveis vazios, desocupados.
Como resposta a uma loucura dessas, a Austrália, por exemplo, resolveu que, para estrangeiros comprarem imóveis, é preciso haver a aprovação de um conselho (Foreign Investment Review Board). Basicamente, estrangeiros só podem comprar imóveis por lá se garantirem a construção de outros. Como se vê, na Austrália então, só quem pode distorcer o mercado são os australianos, os estrangeiros, não!
Recentemente li dois textos: um, do Chesterton, escrito em 1910 (What’s Wrong with the World) e outro, escrito pelo Papa Francisco agora em 2013 (Evangelii Gaudium). Ambos propõem uma forma de relacionamento econômico vinculada a um relacionamento social mais ameno, mais racional, mais classe média. Chesterton, e, mais de cem anos depois, o Papa, tanto um como outro, criticaram o capitalismo assim como o socialismo e pediram que se visse a realidade, que se tivesse bom senso, independentemente da crença em um ou outro sistema.
As circunstâncias da Londres do Chesterton em 1910 eram outras, é claro. Discutia-se se as mulheres deveriam ou não votar. Mas, independente de tudo, Chesterton entendia que a casa, o lar, é onde o cidadão se sente livre. Lá, ele pode ser ele mesmo. Lá se afirma o indivíduo, a família. Não achava aceitável as pessoas viverem em favelas, nem tampouco em conjuntos habitacionais, lugares em que a individualidade não é preservada. Por sua vez, o Papa diz que o dinheiro deve servir ao homem e não o homem ao dinheiro.
Concluindo, parece razoável entender que o valor dos imóveis, de alguma forma, transcende o valor do dinheiro. A propriedade imobiliária abriga o espírito de uma sociedade. A forma como os prédios ocupam o solo diz muito de uma população. Então, será razoável dizer que cresce a classe média no Brasil? Quem mora empilhado, em um ambiente em que não há respeito à individualidade, pode ser considerado “classe média”? Essa maneira de viver, que vamos achando “normal”, é a que queremos ou apenas achamos que não há outro jeito?
* “Stop rich overseas investors from buying up UK homes, report urges” The Observer, Saturday 1 February 2014 21.27 GMT.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
UM POEMA DO DRUMMOND
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade - Antologia Poética
Se chegamos a esse ponto, como foi mesmo? Medimos e contabilizamos tudo, dissecamos a alegria?
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade - Antologia Poética
Se chegamos a esse ponto, como foi mesmo? Medimos e contabilizamos tudo, dissecamos a alegria?
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
UM TABU HORROROSO
Quem ouve os repórteres de Pernambuco fica com a impressão de que as pessoas não morrem mais. É muito pior: “vão a óbito”. Assim, o sujeito diz no noticiário: "Foi a óbito". Pronto! E lá está o espectador, hipnotizado, aparvalhado. Puro horror. Até o português usado é horroroso.
Muita gente não fala da morte com naturalidade. No entanto, contrariando essa turma, há indícios de que se deve encarar o assunto, isto é, se deve falar da morte normalmente porque, afinal, a morte faz parte do processo natural.
A mim me pareceu que, pelo menos em uma situação, falar com simplicidade da morte foi vantajoso. Faz uns 25 anos. Um amigo, enfrentando hostilidade em uma situação tensa, disse, calmissimamente, que não tinha o menor medo de nada – para ele tanto fazia estar vivo como morto. Se não tinha medo da morte, realmente não tinha razão para temer coisa alguma. Saiu ganhando. Sem medo, não se submeteu a nada nem a ninguém.
Mas essa dúvida – falar ou não da morte - tem bem mais que 25 anos e não precisa se limitar ao caso acima. Há muito tempo, em 1572, Montaigne escreveu um ensaio* defendendo a idéia de que – sem vencer o medo da morte – não se aproveita a vida. E justificava sua posição argüindo que os Parlamentos mandavam os criminosos de volta para serem executados nos lugares onde haviam cometido os crimes. No caminho, lhes davam todas as regalias. Será, no entanto, que aproveitavam? Quantos saboreavam tranqüilos esses últimos privilégios? Ora, a morte é também o nosso destino. O remédio vulgarmente receitado é não pensar nela. Mas como não pensar nela? Que bruta estupidez é essa, que recomenda uma falta de visão tão grosseira?
Como não ver? Como não saber da morte, se aprendemos que Cristo morreu aos 33? Como deixar de saber da morte do vizinho? Assim como todo o mundo, o próprio Montaigne teve exemplos próximos: um irmão dele morreu aos 23 anos. Estava jogando “jeu de paume”, um esporte ancestral do tênis, e levou uma bolada na cabeça, perto da orelha direita. Não ligou. Seis horas depois, morreu. Como não encarar isso?
Vai-se fugir também das cerimônias fúnebres? Como não pensar na morte, passando por cemitérios e templos onde se ampliam formidavelmente o mistério e o medo? Quem teme a morte fica mais apavorado ainda quando o foco passa do natural para o sobrenatural.
Estar consciente parece ser melhor do que estar despreparado. Desconhecer a morte ou mesmo desconhecer a velhice não parece razoável. A história conta que um guarda de César – já bem combalido pelo tempo – veio pedir permissão para que pudesse se afastar e então pôr fim à própria vida. Sentia-se agora incapaz para a função. César respondeu: “Tu pensas então que ainda estás vivo?”.
Enfim, parece que ter consciência dos limites naturais, encarar, enfrentar a morte, não significa sofrer por antecedência, não significa se entregar, ao contrário: sofre-se menos, vive-se mais, quando se está livre do medo. Talvez o objetivo da filosofia seja mesmo essa terapia...
* Philosopher, c'est apprendre à mourir.
Muita gente não fala da morte com naturalidade. No entanto, contrariando essa turma, há indícios de que se deve encarar o assunto, isto é, se deve falar da morte normalmente porque, afinal, a morte faz parte do processo natural.
A mim me pareceu que, pelo menos em uma situação, falar com simplicidade da morte foi vantajoso. Faz uns 25 anos. Um amigo, enfrentando hostilidade em uma situação tensa, disse, calmissimamente, que não tinha o menor medo de nada – para ele tanto fazia estar vivo como morto. Se não tinha medo da morte, realmente não tinha razão para temer coisa alguma. Saiu ganhando. Sem medo, não se submeteu a nada nem a ninguém.
Mas essa dúvida – falar ou não da morte - tem bem mais que 25 anos e não precisa se limitar ao caso acima. Há muito tempo, em 1572, Montaigne escreveu um ensaio* defendendo a idéia de que – sem vencer o medo da morte – não se aproveita a vida. E justificava sua posição argüindo que os Parlamentos mandavam os criminosos de volta para serem executados nos lugares onde haviam cometido os crimes. No caminho, lhes davam todas as regalias. Será, no entanto, que aproveitavam? Quantos saboreavam tranqüilos esses últimos privilégios? Ora, a morte é também o nosso destino. O remédio vulgarmente receitado é não pensar nela. Mas como não pensar nela? Que bruta estupidez é essa, que recomenda uma falta de visão tão grosseira?
Como não ver? Como não saber da morte, se aprendemos que Cristo morreu aos 33? Como deixar de saber da morte do vizinho? Assim como todo o mundo, o próprio Montaigne teve exemplos próximos: um irmão dele morreu aos 23 anos. Estava jogando “jeu de paume”, um esporte ancestral do tênis, e levou uma bolada na cabeça, perto da orelha direita. Não ligou. Seis horas depois, morreu. Como não encarar isso?
Vai-se fugir também das cerimônias fúnebres? Como não pensar na morte, passando por cemitérios e templos onde se ampliam formidavelmente o mistério e o medo? Quem teme a morte fica mais apavorado ainda quando o foco passa do natural para o sobrenatural.
Estar consciente parece ser melhor do que estar despreparado. Desconhecer a morte ou mesmo desconhecer a velhice não parece razoável. A história conta que um guarda de César – já bem combalido pelo tempo – veio pedir permissão para que pudesse se afastar e então pôr fim à própria vida. Sentia-se agora incapaz para a função. César respondeu: “Tu pensas então que ainda estás vivo?”.
Enfim, parece que ter consciência dos limites naturais, encarar, enfrentar a morte, não significa sofrer por antecedência, não significa se entregar, ao contrário: sofre-se menos, vive-se mais, quando se está livre do medo. Talvez o objetivo da filosofia seja mesmo essa terapia...
* Philosopher, c'est apprendre à mourir.
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