domingo, 2 de setembro de 2018
NOSSAS ESCOLHAS, A INCAPACIDADE E A INSENSATEZ
Este ensaio trata das escolhas, do livre arbítrio *. Presume-se que temos sempre alguma liberdade. Ou seja, este ensaio presume que temos opções: nosso futuro não está pré-determinado. Mesmo presos, dentro de uma cela, ainda assim podemos decidir se vamos ou não tentar o suicídio. Independente de onde viemos, independente de nossa genética, independente das restrições do momento, sempre temos escolhas a fazer.
Mais precisamente, o foco aqui é o processo de escolha, especialmente a explicação para as escolhas erradas, as escolhas que conduzem ao que é pior em vez de conduzirem ao que é melhor. Errar então significa escolher o ruim preterindo o que é bom. Vamos especular sobre como acontece o erro; como acabamos deixando o melhor de lado e ficando com o pior. Inicialmente é interessante distinguir “incapacidade” de “insensatez”. As palavras tem significados sutis.
Possivelmente nossas escolhas partem de alguma intuição, de alguma crença inicial. Achamos logo que tal decisão será boa, ou que será ruim; achamos que vai funcionar de tal jeito. Alguém nos disse, vimos de relance e assim temos essa impressão. E então, essa crença inicial, essa intuição, é bastante para tomarmos uma decisão?
A esta altura é bom definir o significado de "incapacidade" (ad hoc); vamos considerar que “incapacidade” seja uma restrição natural, assim como um animal é incapaz de ler um folheto com instruções. Um outro exemplo de incapacidade seria a nossa de fazer determinadas previsões; ou de saber de tudo o que acontece no Universo. Assim é que podemos errar por incapacidade, por uma limitação natural. Quanto mais incapazes diante da escolha a fazer, mais dependemos da sorte. Na verdade sempre há uma certa incapacidade, ou seja, por natureza não somos capazes de acertar com total segurança.
Mas a boa escolha começa com a boa vontade, com o desejo de honestidade, o desejo de buscar a verdade, de entender. Empenhar-se. A boa escolha então presumiria explorar ao máximo a capacidade de saber, de conhecer. Quanto mais conhecimento, menos dependência do acaso.
Cabe agora definir o que seja insensatez. Chegamos ao ponto crucial. Talvez a maior causa das escolhas erradas seja a insensatez. Ocorre que, mesmo sabendo, mesmo tendo capacidade de entender o que se passa, muito frequentemente prevace a insensatez, consistindo essa insensatez em perceber a verdade e, ainda assim, comportar-se como se não a tivesse percebido. A insensatez equivale à má-fé.
O orgulho, a soberba seria a causa da insensatez. O sujeito escolhe impor a sua vontade, os seus caprichos, ainda que perceba o mal que isso causa. Não é que não saiba das prováveis conseqüências: simplesmente não se importa. Na verdade a insensatez - e não a incapacidade - parece ser a causa dos grandes males que a humanidade pratica. Finalmente, é justo reconhecer que as idéias postas aqui foram roubadas de Santo Agostinho.
* Este ensaio se fundamenta no livro De Libero Arbitrio, escrito a partir do ano 388 por Santo Agostinho.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
SOBRE OS SOFRIMENTOS POR NÃO SERMOS NATURAIS
Este assunto surgiu pela coincidência de eu estar lendo um ensaio escrito em 1576* e, ao mesmo tempo, estar penando por causa de exames médicos que trouxeram um grande sofrimento inútil.
Escrito na França 76 anos após o Brasil ter sido descoberto, há portanto 442 anos, o ensaio trata longamente do desprezo que temos pela inteligência dos animais. Julgamos que vivemos muito melhor do que eles, acreditamos que quanto mais sofisticado, melhor. Vamos então a um trecho extraído desse livro velho que, parece mentira, mas fala de nós:
“Os animais nos mostram muito bem o quanto a agitação do nosso espírito nos traz doenças.
Isso que nos dizem do Brasil, que não morrem a não ser de velhice - atribuem à serenidade e tranquilidade dos ares em que vivem; eu atribuo sobretudo à tranquilidade de suas almas, descarregadas de toda paixão, pensamento e ocupação prolongados ou desagradáveis: como gente que passa sua vida em admirável simplicidade e ignorância, sem letras, sem lei, sem rei, sem qualquer religião.”
Mas por que essa menção ao jeito de os brasileiros levarem a vida? É que o "atraso" teria tornado os brasileiros, em certos aspectos, mais felizes do que os europeus. Já em um trecho anterior Montaigne ilustrava bem o que queria dizer, insistindo em que muitas vezes sofremos inutilmente por sermos “inteligentes”. Vamos a esse outro trecho desse escrito tão antigo:
“O filósofo Pyrrho**, correndo no mar o risco de uma grande tormenta, não apresentou para os que estavam com ele imitarem mais do que a segurança de um porco, que viajava com eles, olhando a tempestade sem medo.”
Está visto portanto que o assunto é antigo, mas vamos então a exemplos atuais desse mal que o progresso nos pode fazer; vamos examinar essa “ciência” que conduz à burrice. E assim vão aqui dois casos simultâneos de "burrice científica", acontecidos comigo e com minha filha agora…
Enquanto um exame por “ultrassom” revelava nela, erradamente, problemas na gestação (outro “ultrassom” mostrou que estava tudo bem) – ao mesmo tempo constatava-se que remédios que me haviam sido prescritos para tomar diariamente eram absolutamente desnecessários.
Pode-se mostrar aqui, também, um terceiro caso, desta vez não particular, mas um caso de sofrimento inútil generalizado, imposto pelo "progresso". Trata-se do conhecimento de uma possibilidade remota de evolução de um cancêr. Revela-se à pessoa que tal doença pode vir a ocorrer. E a pessoa é submetida a uma angústia e - muito provavelmente - a cirurgias e tratamentos, para um mal que provavelmente nunca aconteceria. Vale saber que, há algum tempo, pesquisas acreditadas, realizadas com imenso número de pessoas, evidenciam que pequenos nódulos nos seios das mulheres são em imensa maioria benignos ou, mesmo sendo câncer, jamais se desenvolveriam.
Enfim o propósito desta Ruminação foi mostrar que o raciocínio - em seus excessos - nos faz mal e que a naturalidade frequentemente pode nos mostrar caminhos para uma vida melhor.
* Apologie de Raimond Sebond – Montaigne
**Pyrrho (360 - 270 AC) é citado nos clássicos referentes à Grécia.
Escrito na França 76 anos após o Brasil ter sido descoberto, há portanto 442 anos, o ensaio trata longamente do desprezo que temos pela inteligência dos animais. Julgamos que vivemos muito melhor do que eles, acreditamos que quanto mais sofisticado, melhor. Vamos então a um trecho extraído desse livro velho que, parece mentira, mas fala de nós:
“Os animais nos mostram muito bem o quanto a agitação do nosso espírito nos traz doenças.
Isso que nos dizem do Brasil, que não morrem a não ser de velhice - atribuem à serenidade e tranquilidade dos ares em que vivem; eu atribuo sobretudo à tranquilidade de suas almas, descarregadas de toda paixão, pensamento e ocupação prolongados ou desagradáveis: como gente que passa sua vida em admirável simplicidade e ignorância, sem letras, sem lei, sem rei, sem qualquer religião.”
Mas por que essa menção ao jeito de os brasileiros levarem a vida? É que o "atraso" teria tornado os brasileiros, em certos aspectos, mais felizes do que os europeus. Já em um trecho anterior Montaigne ilustrava bem o que queria dizer, insistindo em que muitas vezes sofremos inutilmente por sermos “inteligentes”. Vamos a esse outro trecho desse escrito tão antigo:
“O filósofo Pyrrho**, correndo no mar o risco de uma grande tormenta, não apresentou para os que estavam com ele imitarem mais do que a segurança de um porco, que viajava com eles, olhando a tempestade sem medo.”
Está visto portanto que o assunto é antigo, mas vamos então a exemplos atuais desse mal que o progresso nos pode fazer; vamos examinar essa “ciência” que conduz à burrice. E assim vão aqui dois casos simultâneos de "burrice científica", acontecidos comigo e com minha filha agora…
Enquanto um exame por “ultrassom” revelava nela, erradamente, problemas na gestação (outro “ultrassom” mostrou que estava tudo bem) – ao mesmo tempo constatava-se que remédios que me haviam sido prescritos para tomar diariamente eram absolutamente desnecessários.
Pode-se mostrar aqui, também, um terceiro caso, desta vez não particular, mas um caso de sofrimento inútil generalizado, imposto pelo "progresso". Trata-se do conhecimento de uma possibilidade remota de evolução de um cancêr. Revela-se à pessoa que tal doença pode vir a ocorrer. E a pessoa é submetida a uma angústia e - muito provavelmente - a cirurgias e tratamentos, para um mal que provavelmente nunca aconteceria. Vale saber que, há algum tempo, pesquisas acreditadas, realizadas com imenso número de pessoas, evidenciam que pequenos nódulos nos seios das mulheres são em imensa maioria benignos ou, mesmo sendo câncer, jamais se desenvolveriam.
Enfim o propósito desta Ruminação foi mostrar que o raciocínio - em seus excessos - nos faz mal e que a naturalidade frequentemente pode nos mostrar caminhos para uma vida melhor.
* Apologie de Raimond Sebond – Montaigne
**Pyrrho (360 - 270 AC) é citado nos clássicos referentes à Grécia.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018
“ORDEM E PROGRESSO” E O SOCIALISMO
Em 1889 os fundadores da nossa República escreveram em nossa bandeira: “Ordem e Progresso”. Mas o que isso significava exatamente, o que queriam dizer essas palavras?
Naquela época, a idéia de progresso era bastante discutida. Que país se desejava? E assim este ensaio procura recapitular, rever as razões dos fundadores da nossa República. A pergunta que a Globo faz hoje aos brasileiros – que país você deseja – qual resposta teria tido da nossa elite em 1889?
Como aprendemos no colégio, as lideranças da época acreditavam no positivismo. Nossa bandeira, no entanto, revela alguma restrição a essa crença. O lema “Ordem e Progresso” exclui uma parte do pensamento positivista completo, sintetizado em uma frase de Auguste Comte(1): “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso como meta.” Como se vê, nossa bandeira deixou o amor de lado. Abreviamos: ficamos só com “Ordem e Progresso”.
Independente dessa nossa abreviação, o positivismo era uma doutrina otimista; acreditava que o conhecimento científico iria permitir que o ser humano vivesse em uma crescente harmonia. Harmonia com a Natureza e harmonia social. Haveria progresso material, fartura, recursos e comodidade cada vez mais ao gosto da humanidade. As ciências sociais iriam progredir; o funcionamento da sociedade seria previsível com maior exatidão. A ciência seria capaz de estabelecer uma ética ideal, capaz de tornar a vida de todos o melhor possível.
Voltamos então à questão inicial, objetivo deste ensaio. Que progresso é esse que vem atrelado a uma ordem. Que Brasil exatamente se via no futuro?
Comte achava difícil medir a felicidade de um povo; seria difícil então estabelecer a felicidade como meta. Esse “Progresso” previsto na bandeira não poderia prometer felicidade. Então, se não era felicidade o alvo, seria talvez mais liberdade e igualdade para o povo?
Sendo a felicidade uma meta obscura, quem sabe o objetivo do país poderia ser dar cada vez mais liberdade à população. Todos livres e iguais. Mas isso conduziria à anarquia. Platão já avisava sobre esses excessos havia mais de 22 séculos(2): a democracia ilimitada leva à desordem. É que a liberdade de todos aniquila a liberdade de cada um. A liberdade de um colide com a do outro. Basta pensar: se uma pessoa tem quantos filhos quantos queira, haverá cada vez mais gente, cada vez menos espaço, menos liberdade para todo o mundo… Além disso, naquela época, havia o exemplo concreto, recente, da Revolução Francesa, que acabou perdendo o rumo em sua busca por liberdade, igualdade e fraternidade. Assim, com os franceses perdidos diante da confusão geral, surgiu Napoleão como alternativa ditatorial ao caos. Napoleão: um retrocesso moral e intelectual segundo a ótica positivista.
Quem sabe então o objetivo do Brasil seria - em vez de liberdade e igualdade - harmonia e bem-estar material? Enfim, a ciência poderia apontar o melhor caminho: dizer o quê, como e quanto produzir, para então distribuir essa produção para uma população ideal de tantas pessoas. Uma população sábia, vivendo sem dificuldades materiais. Assim, o sonho positivista se parece muito com o sonho socialista de uma sociedade planejada. A questão é que um sonho equivocado pode virar pesadelo.
Talvez o pensamento dos fundadores da nossa República, por sorte, esteja resumido em um artigo publicado por Albert Einstein sessenta anos depois, em 1949 (Why Socialism). Einstein começa apontando os desperdícios e sofrimentos inerentes à ética capitalista(3). São óbvios. No entanto, uma ética superior dependeria de avanços científicos, especialmente no campo social. E Einstein alerta para os riscos de confiar na ciência e nos métodos científicos quando a questão são problemas humanos(4). Dizia ele: … “a conquista do socialismo requer a solução de problemas sociopolíticos extremamente difíceis… Como prevenir que a burocracia se torne toda poderosa e arrogante?” ...
Concluindo então, talvez por honestidade e plena consciência de suas limitações, nossos antepassados tenham preferido excluir da bandeira a palavra amor; por não saberem como estabelecer de imediato o funcionamento de um Estado amoroso. Mas, sem dúvida, valorizavam o conhecimento – inclusive de uma ciência social mais exata - que nos conduziria ao bem estar material, juntamente com a concórdia. Esse seria o progresso buscado.
1 L'amour pour principe, l'ordre pour base, et le progrès pour but..
2 Platão, A República [562}
3 The economic anarchy of capitalist society as it exists today is, in my opinion, the real source of the evil.
4 be on our guard not to overestimate science and scientific methods when it is a question of human problems... The achievement of socialism requires the solution of some extremely difficult socio-political problems: how is it possible, in view of the far-reaching centralization of political and economic power, to prevent bureaucracy from becoming all-powerful and overweening? How can the rights of the individual be protected and therewith a democratic counterweight to the power of bureaucracy be assured?… Clarity about the aims and problems of socialism is of greatest significance in our age of transition.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
FAKE NEWS, JUÍZOS E PREJUÍZOS
Este ensaio trata das nossas opiniões; é sobre como estabelecemos nossos conceitos e preconceitos. É sobre como formamos nossos juízos. Vale examinar um caso antigo para que se tenha uma noção geral do que se trata.
Os ricos não são elogiados pelos Evangelhos; ao contrário, Jesus recomenda a um rico que dê tudo aos pobres (1) e diz também que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.(2) E o Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres, já era um ídolo no Século XV.
Enfim, essa ideia de que os ricos estão errados, de que a riqueza é um mal, afinal isso é um conceito ou um preconceito?
O preconceito é um prejulgamento (3), um juízo antecipado, feito sem um exame mais atento, sem muita consideração aos fatos. É importante reconhecer que mesmo um estudo cuidadoso não garante conclusões inquestionáveis; um sujeito pode buscar fatos e pensar por um longo tempo e ainda assim chegar a uma conclusão infeliz. Mas enfim, o preconceito é, por definição, uma opinião rasa, superficial, formada sem muita consideração a coisa alguma.
A filosofia ressalta duas origens para o preconceito, ou seja, o preconceito se estabelece de duas maneiras: ou o sujeito não pensa porque obedece cegamente a uma autoridade - repete sem pensar o que ouve de quem confia; ou, numa outra maneira de se ter um preconceito, forma uma convicção apressada. Então, o preconceito aparece assim: ou porque a autoridade mandou, ou porque havia pressa e não se examinou direito. Em outras palavras, o preconceito se forma porque o caso não foi levado ao tribunal da razão, não foi visto com calma e sensatez, não foi submetido ao entendimento.
Voltando então ao caso dos ricos, sempre haverá quem defenda que o luxo e a riqueza falsificam a vida; e sempre haverá também boas razões para acreditar que a pobreza tem sido mais frequentemente causa de degradação moral do que a riqueza. Não é o propósito deste ensaio ir mais fundo nessa questão, que foi apresentada aqui só para ilustrar, para mostrar aspectos importantes na constituição de uma opinião. Basta portanto de antiguidade. Já se viu que a questão não é simples. Mas vamos mesmo assim tentar iluminar um pouco os caminhos atuais.
Nos tempos correntes vale pensar um pouco sobre as “fake news”. A Internet é uma formadora de opinião nova, ainda pouco conhecida. É uma fonte de disseminação de fatos que antes ficariam longe do conhecimento público. Os políticos devem estar interessados em controlar isso, assim como tentam controlar outros meios de comunicação.
Uma possibilidade então é que postem deliberadamente na Internet um monte de notícias falsas. Vivemos atropelados por uma avalanche de informações. Verdades vêm misturadas com meias verdades e mentiras descaradas. Assim, quando estourarem as acusações verdadeiras, o público já vai estar farto, não vai mais estar prestando atenção. Volta a valer o velho ditado: “O melhor lugar para se esconder um boi é no meio de uma boiada”. A Internet estará desacreditada. E assim se consolida a distração como uma tática milenar para controlar a opinião das massas. A população vai formar convicções sem raciocinar sobre os fatos.
Enfim, não será surpresa se um juízo assim, antecipado, se confundir com prejuízo. Para evitar isso e fundamentar uma opinião vai ser preciso garimpar, procurar as informações verdadeiras como ouro entre as pedras.
1- Marcos 10:21
2- Lucas 18:24-25
3- Gadamer – Verdade e Método [276]
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