sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FAKE NEWS, JUÍZOS E PREJUÍZOS



Este ensaio trata das nossas opiniões; é sobre como estabelecemos nossos conceitos e preconceitos. É sobre como formamos nossos juízos. Vale examinar um caso antigo para que se tenha uma noção geral do que se trata.

Os ricos não são elogiados pelos Evangelhos; ao contrário, Jesus recomenda a um rico que dê tudo aos pobres (1) e diz também que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.(2) E o Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres, já era um ídolo no Século XV.

Enfim, essa ideia de que os ricos estão errados, de que a riqueza é um mal, afinal isso é um conceito ou um preconceito?

O preconceito é um prejulgamento (3), um juízo antecipado, feito sem um exame mais atento, sem muita consideração aos fatos. É importante reconhecer que mesmo um estudo cuidadoso não garante conclusões inquestionáveis; um sujeito pode buscar fatos e pensar por um longo tempo e ainda assim chegar a uma conclusão infeliz. Mas enfim, o preconceito é, por definição, uma opinião rasa, superficial, formada sem muita consideração a coisa alguma.

A filosofia ressalta duas origens para o preconceito, ou seja, o preconceito se estabelece de duas maneiras: ou o sujeito não pensa porque obedece cegamente a uma autoridade - repete sem pensar o que ouve de quem confia; ou, numa outra maneira de se ter um preconceito, forma uma convicção apressada. Então, o preconceito aparece assim: ou porque a autoridade mandou, ou porque havia pressa e não se examinou direito. Em outras palavras, o preconceito se forma porque o caso não foi levado ao tribunal da razão, não foi visto com calma e sensatez, não foi submetido ao entendimento.

Voltando então ao caso dos ricos, sempre haverá quem defenda que o luxo e a riqueza falsificam a vida; e sempre haverá também boas razões para acreditar que a pobreza tem sido mais frequentemente causa de degradação moral do que a riqueza. Não é o propósito deste ensaio ir mais fundo nessa questão, que foi apresentada aqui só para ilustrar, para mostrar aspectos importantes na constituição de uma opinião. Basta portanto de antiguidade. Já se viu que a questão não é simples. Mas vamos mesmo assim tentar iluminar um pouco os caminhos atuais.

Nos tempos correntes vale pensar um pouco sobre as “fake news”. A Internet é uma formadora de opinião nova, ainda pouco conhecida. É uma fonte de disseminação de fatos que antes ficariam longe do conhecimento público. Os políticos devem estar interessados em controlar isso, assim como tentam controlar outros meios de comunicação.

Uma possibilidade então é que postem deliberadamente na Internet um monte de notícias falsas. Vivemos atropelados por uma avalanche de informações. Verdades vêm misturadas com meias verdades e mentiras descaradas. Assim, quando estourarem as acusações verdadeiras, o público já vai estar farto, não vai mais estar prestando atenção. Volta a valer o velho ditado: “O melhor lugar para se esconder um boi é no meio de uma boiada”. A Internet estará desacreditada. E assim se consolida a distração como uma tática milenar para controlar a opinião das massas. A população vai formar convicções sem raciocinar sobre os fatos.

Enfim, não será surpresa se um juízo assim, antecipado, se confundir com prejuízo. Para evitar isso e fundamentar uma opinião vai ser preciso garimpar, procurar as informações verdadeiras como ouro entre as pedras.


1- Marcos 10:21
2- Lucas 18:24-25
3- Gadamer – Verdade e Método [276]

Um comentário:

Adriana Svacina disse...

Já está acontecendo, a rodo. E espera-se que os robôs, os bots, serão os grandes disseminadores de fake news nas redes sociais, fazendo com que montes de preconceituosos percam tempo discutindo em cima de nenhum fato real.