quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

DEVERES MORAIS, FILHOS, GOVERNANTES E NÓS


No ano 44 AC a República Romana agonizava. Pouco depois, Cícero foi assassinado por defendê-la. Por enquanto, escrevia livros para seu filho - sob o título De Officiis - tratando das obrigações morais em geral.

O Livro III trata do aparente conflito que existe entre o que é moralmente correto e o que é vantajoso para a pessoa. Em outras palavras, muitas vezes há um aparente conflito entre a ação que “resolve”, que traz benefícios, e a ação correta. Cícero argumenta que, se a solução é imoral, então não é solução. O resultado, o lucro, que se obtém sendo imoral, acaba sendo prejuízo.

Aqui são mostrados dois casos, extraídos do Livro III. O primeiro trata de um político que se tornou mais poderoso passando por cima dos colegas. O segundo caso é sobre um pai que resolve roubar tesouros dos templos e o filho descobre.

Vamos ao primeiro caso: no ano 85 AC, Marius Gratidianus participou de um conselho de pretores que procurava editar uma resolução sobre a flutuação do valor da moeda, o Denarius. Chegaram à conclusão de que o valor das dívidas deveria ser reduzido. E resolveram que anunciariam mais tarde – todos juntos, na tribuna - um decreto dando aos endividados o direito de pagar só ¼ do valor devido. Aliás, como curiosidade, vale adicionar que decidiram não abordar a incômoda questão da falsificação da moeda...

Acontece que Marius saiu direto para a tribuna e divulgou sozinho a resolução ao público. Não esperou pelos parceiros.

O povo adorou. O partido do Marius, o Populares, ganhou mais força. Os endividados vibraram com a redução drástica das dívidas. Ele foi aplaudido entusiaticamente com esse expediente. Tornou-se imensamente popular. Em várias ruas acabaram erguendo estatuas dele. Queimavam incenso e cantavam em homenagem a ele. Obteve uma popularidade imprecendente com as massas. Mas entre seus pares perdeu a reputação.

E Cícero conclui que a aparente vantagem que Marius obteve dando um golpe nos parceiros, não foi uma vantagem real... Perdeu entre os que conviviam com ele.

No outro caso - em que o pai está roubando os templos - Cícero concorda que nessa situação o filho não deve denunciar, porque é do interesse do Estado que os cidadãos sejam leais a seus pais. Mas – em outras circunstâncias - por exemplo, se o pai pretende trair o país, se a segurança do país está em jogo, aí então o filho deve de todo jeito tentar impedir que a Pátria seja lesada, nem que tenha que “sacrificar” o pai!

Concluindo, Cícero era um estóico, como eu. Acreditamos que não há bem maior do que estar em paz consigo mesmo, porque o que acontece no mundo pode ser alterado por nossas ações – sejam elas boas ou más – mas o único resultado durável, que só depende de nós e pode durar para sempre é o de estarmos em paz com nossas consciências.