quarta-feira, 17 de julho de 2013

PALAVRA DE HONRA

Esta ruminação aproveita o avanço tecnológico de hoje para trilhar um caminho antigo. Explicando melhor, resgata, pela Internet, um texto original em latim e também uma tradução; e revê o que parece perdido no tempo: a palavra de honra.

Vamos a uma época em que os velhos não se dedicavam tanto a imitar os jovens. Em vez disso, procuravam contar o que sabiam aos mais moços, para que as experiências passadas servissem às novas gerações.

Vamos então de volta ao De Officiis, um ensaio que trata das obrigações, dos deveres. Foi escrito por Cícero, no ano 44 a.C. Na sua última parte, compara o “levar vantagem” com o comportamento honrado. Acaba afirmando que o esperto – o esperto de fato, aquele que leva vantagem maior mesmo - é, afinal, o honesto. Não há ganho real com a degradação, a vantagem que se obtém é fugaz.

Cícero escreveu o De Officiis para o filho. Preocupava-se, porque achava que vivia em um tempo acostumado à corrupção. Talvez por isso – por encontrar poucos exemplos honrosos em volta – tenha então escolhido contar o que havia acontecido duzentos e onze anos antes. Assim é que culmina analisando bem o comportamento de um exemplo ancestral de virtude cívica: Marcus Atilius Regulus.

Regulus, cônsul romano, havia sido capturado pelos cartagineses. Aconteceu que os inimigos respeitavam-se mutuamente, de tal forma, que as conversas evoluíram. E resultou que, sob juramento, o prisioneiro Regulus foi solto e enviado a Roma. Iria como mensageiro. Deveria negociar - em casa - a sua própria troca por nobres cartagineses cativos. Caso a proposta fosse aceita, ele ficaria livre e os cartagineses seriam libertados pelos romanos e escoltados de volta para sua terra. Caso contrário – se a troca fosse recusada – Regulus deveria manter seu juramento: voltar a Cartago e entregar-se.

Então, tendo chegado a Roma, ele se dirigiu ao senado. Primeiro, disse que, estando sob juramento feito ao inimigo, considerava-se impedido de votar. Depois, esclareceu que a troca não seria vantajosa. Seria um mau negócio para Roma aceitar a proposta: ele, um velho, seria trocado por jovens capazes (1). Em outras palavras, discursou aparentemente contra si mesmo, mostrando que sua libertação seria contrária aos interesses do estado.

Para encurtar a história, o senado se opôs mesmo à troca de prisioneiros. E Regulus honrou sua palavra, voltando para Cartago, onde foi morto.

E então Cícero pergunta: Regulus foi burro? Por qual razão cumpriu seu juramento, se sabia que perderia a vida por isso? Estaria obrigado a cumprir um juramento feito sob coação?

Cícero argumenta que a vantagem verdadeira sempre está em ser honesto. "O que é desvantajoso para o estado pode ser vantajoso para o cidadão?(2)”. O que seria dos romanos se aprendessem que os senadores não são confiáveis?

E acaba por concluir que "Quem viola um juramento viola a fé (3)”. Morrer é melhor do que perder a honra.

Morrer é melhor do que perder a honra! Será? Lembro da notícia do suicídio do Getúlio Vargas em 1954. Ouvi a notícia no rádio da sala. Que espécie de "esperteza" foi essa?

1 - adulescentes esse et bonos duces (Assim diz o texto em latim. A Internet nos torna capazes de descer a esses detalhes, se quisermos).
2 - Potest autem, quod inutile rei publicae sit, id cuiquam civi utile esse?
3 - Qui ius igitur iurandum violat, is fidem violat...