sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A CORRUPÇÃO, A AMIZADE E O TEMPO


A busca por um padrão moral não é novidade; por isso talvez seja interessante voltar no tempo para examinar a questão em outras circunstâncias. Talvez valha a pena recapitular, dar uma olhada nas propostas morais de quando não havia Cristo e muito menos Brasil. Por isso, este ensaio faz um resumo bem sintético de dois escritos de Cícero(1), ambos feitos no ano 44 AC, quando a República Romana agonizava.

A República Romana, em tempos anteriores, normais, era conduzida por dois cônsules – eleitos para governarem por um ano. O poder alternava entre um e outro mensalmente. Mas por volta do ano 44 AC a política atravessava tempos turbulentos e frequentemente os direitos constitucionais eram suspensos por lei marcial. Naquele ano, nos idos de março, César foi assassinado.

Cícero, que além de escritor era político (já havia até sido eleito cônsul e exercido o cargo uns 19 anos atrás), escrevia então ao mesmo tempo em que procurava escapar ileso(2).

Essas eram as circunstâncias; mas vamos à proposta moral que Cicero faz nesses dois escritos, “De Officiis” e “De Amicitia”, respectivamente sobre as obrigações morais e sobre a amizade.

Ao propor uma ética, um rumo moral, Cícero assume a linha estoica, isto é, põe o dever acima de tudo. Os estoicos entendem que a vida é imprevisível, nela acontece de tudo, mas o que importa é que você procure sempre conhecer, ser justo, ser corajoso e ser equilibrado. Exercer essas quatro virtudes é o bem supremo: sabedoria, justiça, coragem e temperança. Os interesses pessoais importam pouco; no entanto, frequentemente, a vida premia quem é virtuoso. Essa é a ética proposta por Cícero, bem resumida no trecho abaixo (De Officiis I,5):

“Porque aquele que concebe o bem supremo assim, sem que tenha conexão com a virtude, mas apenas ligado a seus interesses, sem avaliar a honestidade, esse, sem dar vez à bondade natural, não pode colher amizades, nem justiça, nem generosidade; e não pode ser de modo algum forte quem julga que a dor é o mal supremo, nem equilibrado quem acha que o prazer é o supremo bem.”(3)

Já sobre a amizade - correndo-se o risco de ser obscuro por resumir demais - pode-se dizer que a amizade verdadeira deve decorrer de afinidade e não de interesse. Muito menos de interesses vergonhosos. Na amizade não se procura um cúmplice para o vício, mas um auxiliar para a virtude. Por isso, é preciso conhecer bem a pessoa antes de se tornar amigo dela, até porque não se pode desconfiar dos amigos. Assim sendo, seguem alguns trechos do “De Amicitia”:

"...como primeira lei da amizade, não pedir nem conceder nada de vergonhoso." (Cap XII)

"Não renunciaremos à amizade unicamente pelos aborrecimentos que possam advir de nossos amigos, assim como não renunciaremos à virtude pelas inquietações e angústias que a acompanham." (Cap XIII)

"Nossa amizade não nasceu pois da utilidade, mas a utilidade a seguiu." (Cap XIV)

"Se encontrarmos quem prefira amizade ao dinheiro, onde achar aquele que não prefira as honras, as magistraturas, os comandos, o poder, a autoridade?" (Cap XVII)

"Assim, não será demais insistir, é preciso conhecer antes de amar e não amar antes de conhecer." (Cap XXII)

"A dissimulação é funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em nós o sentimento da verdade) mas é, sobretudo, contrária à amizade." (Cap XXV)


Para concluir então, alguma razão Cícero há de ter quando propõe um rumo moral a ser seguido pelos amigos. Basta ver a quantidade de “amigos” denunciando outros nos tempos que correm.





(1) De Amicitia e De Officiis – Marcus Tullius Cicero
(2) Acabou sendo assassinado no ano seguinte, aos 63 anos de idade, por ter criticado Marco Antônio.
(3) Nam qui summum bonum sic instituit, ut nihil habeat cum virtute coniunctum, idque suis commodis, non honestate metitur, hic, si sibi ipse consentiat et non interdum naturae bonitate vincatur, neque amicitiam colere possit nec iustitiam nec liberalitatem; fortis vero dolorem summum malum iudicans aut temperans voluptatem summum bonum statuens esse certe nullo modo potest. De Officiis I,5.