“Cambalache” é um tango muito conhecido; antigo. Tão antigo, que ainda acusa, ainda reclama por não se admirar o bem, nem tampouco se condenar o mal:
......
Todo es igual! Nada es mejor!
Lo mismo um burro
Que um gran profesor!
......
Hoje se entende que, se o sujeito é ladrão, é porque nasceu com determinadas características, em dado contexto social; é ladrão porque é viciado; enfim, está imerso em tais circunstâncias que não tem escolha. E, se não há escolha, não há responsabilidade; aconteceu o inevitável, ninguém tem culpa. Por outro lado, também ninguém merece admiração: se alguém arriscou a própria vida para salvar uma criança, foi só isso: mais uma banalidade. O melhor aluno da sala e o pior são apenas alunos, só isso. Dizer que um é bom e o outro ruim é discriminação; não se deve falar em diferenças, tudo é a mesma coisa. Só nos esportes é que vale reconhecer mérito: taça, medalha de ouro e tudo o mais, só em competições esportivas.
Por trás desses novos tempos que vivemos há uma crença: uma crença que leva a tolerar tudo, a achar que nada merece oposição. E a não reconhecer mérito. Acredita-se, hoje, que tudo o que acontece é determinado pelo que aconteceu antes, tudo faz parte de uma cadeia imensa de eventos inevitáveis, decorrentes de uma onda que vem do passado. Essa idéia, essa crença, veio do estágio atual da ciência, que acredita que tudo está encadeado desde o Big Bang; ou seja, quem toma decisões é a evolução da espécie, o DNA.
Assim é que, aparentemente, o pensamento de Santo Agostinho – a crença no livre arbítrio da vontade - foi “superado”. Agostinho rejeitava essa idéia do determinismo. Para ele, mesmo que uma pessoa fosse escrava de outra, ainda assim haveria escolhas livres a serem feitas. Ainda que fosse menor de idade ou incapaz mentalmente, ainda assim, tinha uma certa liberdade de escolha e, portanto, tinha um certo grau de responsabilidade.
Lá por volta do ano 395 Agostinho escreveu “De libero arbitrio voluntatis”. Muito do pensamento ocidental tradicional, cristão principalmente, está explicado ali. Nossa antiga visão do bem e do mal, do certo e do errado, vem dali. Acho que vale a pena dar uma olhada nesse pensamento agora desprezado. Santo Agostinho acreditava que o bem e o mal não são questão de opinião de outras pessoas; achava que é importante que cada um conheça e compreenda as questões morais. Que comece testando, partindo de alguma crença, e vá verificando se cada uma delas faz sentido.
Agostinho entende que tudo o que existe é bom. O mal é só uma desordem, uma má escolha, uma substituição de uma coisa melhor por outra pior. “Fazer o mal consiste em virar as costas para o que se pode compreender”, deixar-se levar por desejos desordenados, em vez de seguir a razão.
Mas, como saber que uma coisa é superior, como compreender que uma coisa é melhor que outra? Certamente não haverá uma constatação científica, não será uma questão de fatos, mas uma questão de opinião, de juízo.
Agostinho, então, estabelece que o conhecimento, a coragem, a justiça, a moderação, são escolhas superiores. Por exemplo, são superiores à riqueza, à saúde, ao poder. Não é que saúde, riqueza ou poder sejam maus – são bons – tornam-se maus se forem escolhidos no lugar da justiça, da coragem, do conhecimento, da moderação, enfim, das virtudes clássicas.
Mas como é que se constata isso, como confirmar, por exemplo, que a justiça deve prevalecer sobre a riqueza? Que diferença há entre acreditar e compreender? Em dado momento, no diálogo com seu amigo Evodius, Agostinho diz: “Como eu gostaria de que você soubesse, da mesma forma que acredita, que os animais não têm razão!*”
Como então se passa do “acreditar” para o “compreender”? Como compreender que tal escolha é melhor e a outra pior? Talvez um filósofo do século 20, muito respeitado por ingleses e americanos, apesar de ser austríaco – Wittgenstein – possa ajudar nisso. Era matemático, além de filósofo. Começou tentando ser lógico e preciso ao explicar o significado das palavras. Acabou por admitir, tendo exaurindo todas as formulações da lógica, que o significado de muitas palavras é melhor compreendido pelo uso. Daí a sua frase famosa “Não pense, apenas veja!**” E, afinal, é assim que se compreende Santo Agostinho.
• *De libero arbitrio voluntatis [7].
• **Philosophical Investigations [66].
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
MANDELA É ADMIRADO POR QUÊ?
A admiração pelo Mandela não parece ser uma espécie comum de admiração. Admirar um jogador de futebol habilidoso ou dar importância a um bilionário qualquer são coisas que se vêem com freqüência. Mas parece que a importância que se dá ao Mandela tem uma explicação mais sutil. Não é comum reconhecerem a força moral. A força bruta é logo notícia, mas a força moral é mais difícil de ser admirada: nem todas as populações são capazes disso.
Mandela passou 28 anos preso, resistiu a todas as propostas de corrupção. Não cedeu; não teve medo de arriscar a vida pelo seu ideal. Venceu o racismo, é verdade, mas o que mais se distingue no caso não é tanto a sua vitória, mas a sua atitude. Importa a vitória, mas - mais do que isso - importa a maneira como foi conseguida.
Há mais de dois mil anos a nossa civilização ensina o valor de quatro hábitos bons, fundamentais. O primeiro deles é o hábito de procurar conhecer, procurar saber o suficiente antes de agir. O segundo é o hábito de ser justo, de honrar o que foi combinado. O terceiro, é o hábito de não se abater facilmente, de ser corajoso, não se deixar dominar pelo medo. Finalmente, o último desses hábitos bons é a temperança, a moderação, que traz para a vida diária alguma ordem, alguma disciplina.
O respeito, a admiração ao Mandela não se devem a um ou outro gesto dele; não se devem ao fato de haver derrotado o racismo: se devem a virtudes constantes; a bons hábitos persistentes por toda a sua longa vida. Gostam dele porque tem um caráter extraordinário.
Se é assim, se ele é admirado por seu caráter, então o mais significativo no caso é o fato de o mundo estar reconhecendo valores morais. Será mesmo? Quando se vê o mundo reverenciando assim o Mandela, isso significa que há populações capazes de entenderem a importância da ética? Será que muitos percebem além das aparências, além das superficialidades? Ou a multidão se move bovinamente, sem saber direito por que gosta dele?
Mandela passou 28 anos preso, resistiu a todas as propostas de corrupção. Não cedeu; não teve medo de arriscar a vida pelo seu ideal. Venceu o racismo, é verdade, mas o que mais se distingue no caso não é tanto a sua vitória, mas a sua atitude. Importa a vitória, mas - mais do que isso - importa a maneira como foi conseguida.
Há mais de dois mil anos a nossa civilização ensina o valor de quatro hábitos bons, fundamentais. O primeiro deles é o hábito de procurar conhecer, procurar saber o suficiente antes de agir. O segundo é o hábito de ser justo, de honrar o que foi combinado. O terceiro, é o hábito de não se abater facilmente, de ser corajoso, não se deixar dominar pelo medo. Finalmente, o último desses hábitos bons é a temperança, a moderação, que traz para a vida diária alguma ordem, alguma disciplina.
O respeito, a admiração ao Mandela não se devem a um ou outro gesto dele; não se devem ao fato de haver derrotado o racismo: se devem a virtudes constantes; a bons hábitos persistentes por toda a sua longa vida. Gostam dele porque tem um caráter extraordinário.
Se é assim, se ele é admirado por seu caráter, então o mais significativo no caso é o fato de o mundo estar reconhecendo valores morais. Será mesmo? Quando se vê o mundo reverenciando assim o Mandela, isso significa que há populações capazes de entenderem a importância da ética? Será que muitos percebem além das aparências, além das superficialidades? Ou a multidão se move bovinamente, sem saber direito por que gosta dele?
sábado, 30 de novembro de 2013
A DEVASTAÇÃO DAS NASCENTES DO BEBERIBE E AS PALAVRAS DO PAPA.
O Rio Beberibe nasce aqui pertinho do sítio. Mas as nascentes estão secando. O riacho principal já desapareceu em alguns trechos. Passou de “rio perene” a leito seco nos últimos cinco anos. Há uma devastação feroz.
As leis federais, estaduais e municipais são claríssimas: exigem preservação ou, se for o caso, reflorestamento, recuperação ambiental. Nascentes e rios têm que ser preservados. Água é vital. Todo o mundo sabe disso. E a lei consolida essa noção: obriga os governos a cuidarem das águas. A lei obriga, mas os governos ouvem a outros interesses, e não à lei.*
Os governos se omitem totalmente: nem o federal, nem o estadual nem o municipal fazem cumprir a lei. A população completa o cenário jogando lixo por toda parte. Esse é o quadro: de um lado, políticos inescrupulosos, do outro, uma multidão alucinada, interessada talvez em consumir logo alguma coisa, em festejar não se sabe o quê. O esgoto, quando não corre pela rua, passa por uma fossa coletiva e é jogado no riacho.
Fui falar a uns adolescentes; mostrar umas fotos; tentar fazer ver como tinham perdido a possibilidade de tomar banhos no rio. Fui falar sobre a água mineral que brotava ali e que agora tem que ser comprada. A presença não era obrigatória. No entanto, hoje, em muitos momentos, a escola lembra um hospício. Não há a disciplina mínima necessária para construir alguma coisa coletiva. A esperança fica em uns poucos.
Daqui por diante transcrevo trechos da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, divulgada pelo Vaticano no último dia 26 de novembro. São palavras do Papa, que servem ao caso melhor que as minhas:
“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada.”
“Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria».”
“Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras.”
“Para a ética, olha-se habitualmente com certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa.”
“Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência.”
Enfim, a Exortação do Papa Francisco conforta o meu coração e me traz esperança. E a você, que sentimento traz?
*Código Florestal (Art. 4 e 7). Leis estaduais de Pernambuco, que protegem especificamente essa área (Lei Estadual 9860/86 Arts. 3, 7, 13, 18 e 31; Lei Estadual 11 206/95 Art.9). Na esfera municipal a questão é tratada especificamente. O Plano Diretor de Camaragibe (Lei 341/2007, Art. 8 e 68) estabelece ali uma Zona de Proteção de Manancial, prevendo recuperação ambiental e até mesmo o monitoramento da qualidade da água do Rio das Pacas, nominalmente citado. Para coroar, foi criada a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe pelo Decreto Estadual 34.692/10.
As leis federais, estaduais e municipais são claríssimas: exigem preservação ou, se for o caso, reflorestamento, recuperação ambiental. Nascentes e rios têm que ser preservados. Água é vital. Todo o mundo sabe disso. E a lei consolida essa noção: obriga os governos a cuidarem das águas. A lei obriga, mas os governos ouvem a outros interesses, e não à lei.*
Os governos se omitem totalmente: nem o federal, nem o estadual nem o municipal fazem cumprir a lei. A população completa o cenário jogando lixo por toda parte. Esse é o quadro: de um lado, políticos inescrupulosos, do outro, uma multidão alucinada, interessada talvez em consumir logo alguma coisa, em festejar não se sabe o quê. O esgoto, quando não corre pela rua, passa por uma fossa coletiva e é jogado no riacho.
Fui falar a uns adolescentes; mostrar umas fotos; tentar fazer ver como tinham perdido a possibilidade de tomar banhos no rio. Fui falar sobre a água mineral que brotava ali e que agora tem que ser comprada. A presença não era obrigatória. No entanto, hoje, em muitos momentos, a escola lembra um hospício. Não há a disciplina mínima necessária para construir alguma coisa coletiva. A esperança fica em uns poucos.
Daqui por diante transcrevo trechos da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, divulgada pelo Vaticano no último dia 26 de novembro. São palavras do Papa, que servem ao caso melhor que as minhas:
“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada.”
“Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria».”
“Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras.”
“Para a ética, olha-se habitualmente com certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa.”
“Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência.”
Enfim, a Exortação do Papa Francisco conforta o meu coração e me traz esperança. E a você, que sentimento traz?
*Código Florestal (Art. 4 e 7). Leis estaduais de Pernambuco, que protegem especificamente essa área (Lei Estadual 9860/86 Arts. 3, 7, 13, 18 e 31; Lei Estadual 11 206/95 Art.9). Na esfera municipal a questão é tratada especificamente. O Plano Diretor de Camaragibe (Lei 341/2007, Art. 8 e 68) estabelece ali uma Zona de Proteção de Manancial, prevendo recuperação ambiental e até mesmo o monitoramento da qualidade da água do Rio das Pacas, nominalmente citado. Para coroar, foi criada a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe pelo Decreto Estadual 34.692/10.
sábado, 26 de outubro de 2013
PERDOAI! CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPUNIDADE E A TRADIÇÃO RELIGIOSA.
A lógica do Inferno é, basicamente, pagar pelo erro, retribuir. É um castigo irreversível, aplicado aos erros graves. Ninguém volta do Inferno. Fica lá pagando pelo que fez.
E ainda, enquanto o condenado responde pelo mal que causou, vai dando um exemplo dissuasivo. Por conta do Inferno, todo o mundo pensa duas vezes antes de cometer um crime.
Já a lógica do Purgatório é diferente: reabilitar. Aplica-se a faltas mais leves. Vão passar um tempo no Purgatório os que cometeram erros menores. Passam por lá em um processo educativo e depois vão para o Céu.
O que confunde um pouco tudo isso é outra lógica: a lógica do perdão, da misericórdia. Aliás, esse não é um tema novo. Em 1655 o Padre Antônio Vieira pregou o Sermão do Bom Ladrão, justamente para falar sobre a impunidade; afinal, Deus perdoou o ladrão arrependido. Ambos, Cristo e o Bom Ladrão, morreram na cruz. E, ao morrer, o Rei levou o Bom Ladrão consigo para o Paraíso.
Mas o Padre Antônio Vieira, há 358 anos, percebeu que os cristãos entendiam mal esse exemplo de Cristo. Equivocavam-se quanto ao conceito de misericórdia. Não se devam conta de que só o ladrão arrependido de verdade havia sido perdoado. Generalizavam o perdão, interpretavam mal a história e passavam a perdoar todo o mundo, incluindo o mau ladrão.
Assim é que, em 1655, no mesmo sermão, já o padre argumentava contra a impunidade dizendo que, desse jeito, sem justiçar os malfeitores, em vez de os reis levarem consigo os ladrões para o Céu, estava acontecendo o contrário: os ladrões estavam levando os reis para o Inferno.
Parece que, no Brasil, o conceito de misericórdia continua sendo mal entendido. Ficou reverberando no inconsciente coletivo: “Perdoai”. “Não julgueis!”. Pelo que se vê, acredita-se hoje que castigar é mau. Os pais não castigam. Os professores não castigam. Os juízes não condenam.
Principalmente, foi banido o castigo para pagar pelo que fez, para retribuir. Não se castiga para dar o exemplo, para dissuadir. Também não se castiga para evitar a reincidência, ou seja, também não se castiga isolando o condenado para que não possa repetir o crime. Rarissimamente se faz isso. O objetivo do castigo é – em regra - a reabilitação.
É como se não houvesse crime grave; todos serão reeducados, voltarão ao convívio social. O Inferno fica vazio. Resta só o Purgatório. Mas será que o Inferno fica mesmo vazio? Ou será que o Inferno agora é aqui?
E ainda, enquanto o condenado responde pelo mal que causou, vai dando um exemplo dissuasivo. Por conta do Inferno, todo o mundo pensa duas vezes antes de cometer um crime.
Já a lógica do Purgatório é diferente: reabilitar. Aplica-se a faltas mais leves. Vão passar um tempo no Purgatório os que cometeram erros menores. Passam por lá em um processo educativo e depois vão para o Céu.
O que confunde um pouco tudo isso é outra lógica: a lógica do perdão, da misericórdia. Aliás, esse não é um tema novo. Em 1655 o Padre Antônio Vieira pregou o Sermão do Bom Ladrão, justamente para falar sobre a impunidade; afinal, Deus perdoou o ladrão arrependido. Ambos, Cristo e o Bom Ladrão, morreram na cruz. E, ao morrer, o Rei levou o Bom Ladrão consigo para o Paraíso.
Mas o Padre Antônio Vieira, há 358 anos, percebeu que os cristãos entendiam mal esse exemplo de Cristo. Equivocavam-se quanto ao conceito de misericórdia. Não se devam conta de que só o ladrão arrependido de verdade havia sido perdoado. Generalizavam o perdão, interpretavam mal a história e passavam a perdoar todo o mundo, incluindo o mau ladrão.
Assim é que, em 1655, no mesmo sermão, já o padre argumentava contra a impunidade dizendo que, desse jeito, sem justiçar os malfeitores, em vez de os reis levarem consigo os ladrões para o Céu, estava acontecendo o contrário: os ladrões estavam levando os reis para o Inferno.
Parece que, no Brasil, o conceito de misericórdia continua sendo mal entendido. Ficou reverberando no inconsciente coletivo: “Perdoai”. “Não julgueis!”. Pelo que se vê, acredita-se hoje que castigar é mau. Os pais não castigam. Os professores não castigam. Os juízes não condenam.
Principalmente, foi banido o castigo para pagar pelo que fez, para retribuir. Não se castiga para dar o exemplo, para dissuadir. Também não se castiga para evitar a reincidência, ou seja, também não se castiga isolando o condenado para que não possa repetir o crime. Rarissimamente se faz isso. O objetivo do castigo é – em regra - a reabilitação.
É como se não houvesse crime grave; todos serão reeducados, voltarão ao convívio social. O Inferno fica vazio. Resta só o Purgatório. Mas será que o Inferno fica mesmo vazio? Ou será que o Inferno agora é aqui?
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Maquiavel anda rondando por aí?
Quando o idealismo está por um fio, já se vai o tempo de o idealista estudar o inimigo para saber direito como o diabo pensa... Assim é que esta Ruminação trata de repassar o pensamento de Maquiavel.
Maquiavel defende a necessidade de praticar o mal, porque acha que – no mundo real – o idealista não sobrevive. Há muita gente jogando sujo e quem joga limpo não tem vez.
Para ele, não importa como deveria ser: importa como é. Os homens dão valor às aparências: quase ninguém dá valor ao que não vê. Os ideais valem pouco, o que comanda é a necessidade. O que existe, o que vale, é a vulgaridade e não o pensamento de uma meia dúzia de falsos sábios. O que há no mundo é incoerência: não há possibilidade de coerência.
Segundo ele, a república não se mantém buscando um ideal; o patriotismo não mantém a república, o que mantém a república é o medo. Assim ensina Maquiavel. A população deseja ser comandada, embora não reconheça esse desejo, assim como não reconhece muitas de suas próprias necessidades. É preciso enganar o povo dizendo que a justiça é possível, embora se saiba que não é.
Assim recomendava Maquiavel a César Borgia, filho do Papa Alexandre VI. Que agisse como fosse necessário e explicasse depois. Que declarasse ser contra a fraude e a força, mas, incoerentemente, usasse a fraude e a força. Foi o que cardeal César Borgia fez, com algum excesso, possivelmente.
Para concluir, olhando daqui do sítio, e tomado por certo misticismo, antevê-se uma boa chance de Maquiavel reencarnar, nem que seja metaforicamente. O pior é que parece que ele tem razão, ao menos em parte do que diz.
Maquiavel defende a necessidade de praticar o mal, porque acha que – no mundo real – o idealista não sobrevive. Há muita gente jogando sujo e quem joga limpo não tem vez.
Para ele, não importa como deveria ser: importa como é. Os homens dão valor às aparências: quase ninguém dá valor ao que não vê. Os ideais valem pouco, o que comanda é a necessidade. O que existe, o que vale, é a vulgaridade e não o pensamento de uma meia dúzia de falsos sábios. O que há no mundo é incoerência: não há possibilidade de coerência.
Segundo ele, a república não se mantém buscando um ideal; o patriotismo não mantém a república, o que mantém a república é o medo. Assim ensina Maquiavel. A população deseja ser comandada, embora não reconheça esse desejo, assim como não reconhece muitas de suas próprias necessidades. É preciso enganar o povo dizendo que a justiça é possível, embora se saiba que não é.
Assim recomendava Maquiavel a César Borgia, filho do Papa Alexandre VI. Que agisse como fosse necessário e explicasse depois. Que declarasse ser contra a fraude e a força, mas, incoerentemente, usasse a fraude e a força. Foi o que cardeal César Borgia fez, com algum excesso, possivelmente.
Para concluir, olhando daqui do sítio, e tomado por certo misticismo, antevê-se uma boa chance de Maquiavel reencarnar, nem que seja metaforicamente. O pior é que parece que ele tem razão, ao menos em parte do que diz.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
A CLASSE MÉDIA, MARX E AS ABELHAS.
A classe média vem sendo dizimada praticamente em todo o Ocidente. Uma teoria para explicar a razão disso é que a burguesia está desaparecendo porque o avanço da tecnologia e a globalização têm roubado os empregos que antes cabiam a ela. Com o progresso, as máquinas fazem o trabalho e os homens ficam ociosos. Será mesmo?
Um artigo publicado no jornal inglês The Guardian (Suzanne Moore, 28/08/2013) aponta o Brasil e a Turquia como raros lugares em que a classe média protesta nas ruas: no resto do mundo vai morrendo sem espernear. O artigo afirma mais: a ideologia que sustenta a classe média está desaparecendo com ela. Sobriedade, autocontrole, trabalho árduo, honestidade, patriotismo, são valores que, então, vão sendo derrotados, desacreditados. Os novos valores passam a ser ganância, ostentação, arrogância, desonestidade. É o que funciona, é o que se vê, é o que dá resultado imediato.
O diabo é que, em um cenário assim, Marx se ergue do túmulo cheio de razão. Ele previa uma “ditadura do proletariado”, último passo antes de se chegar a uma sociedade sem classes, sem o Estado. E assim, sem a burguesia, meia dúzia de milionários ficam diante da massa esfomeada. Isso não é novidade na história. Sem a classe média, o Estado se desagrega, fica difícil existir paz social.
Então, Marx previu bem? Ele sempre afirmou que o Estado tem o único propósito de servir como instrumento de poder(1). Entendia que a classe média não quer o poder, quer apenas proteção para a família, para a propriedade. Assim, o Estado serve ao capital e, em troca, garante a vida tranquila da classe média. Por isso, Marx acreditava que a melhor forma de governo seria aquela que precipitasse o fim do Estado, porque nunca acreditou que o Estado pudesse proporcionar justiça ou o bem comum, como propunham os filósofos gregos.
Vale lembrar que Aristóteles, ao contrário do Marx, valorizava o papel da classe média: dizia que a virtude está no meio-termo, longe dos extremos. Achava que a classe média promove o bem comum na medida em que valoriza a razão; enquanto os muito ricos e os muito pobres, por via-de-regra, apenas seguem seus desejos e instintos.
Enfim, o fantasma do Marx tem opositores mais velhos quando vem assombrar a classe média. De qualquer forma, esta ruminação é para os burgueses. Proletariado, em geral, não lê coisa que leve a refletir. E quem está no poder, normalmente, também não.
A única saída para a classe média continuar a existir parece ser a volta da honestidade, da justiça, da coragem, da moderação. A força que a classe média tem seria moral, aliás, só pode ser moral. Essa é a ideia que se defende aqui: que a força viria da ética.
Por outro lado, não há saída para a burguesia se não houver um Estado que garanta uma ordem, que recompense os valores praticados. Afinal, quem é honrado só obtém resultados em um ambiente honrado. A moralidade tem que ser, antes de tudo, um sentimento ligado à prática.
Fica então a pergunta: como a força moral acabaria construindo e consolidando um Estado decente? O argumento é clássico(2): as abelhas não se unem para fazer o mel; fazem o mel porque estão unidas. Primeiro os valores, a ética, depois os resultados. Como se vê, a saída para a classe média tem poucas garantias - mas existiria outra?
(1) A Teoria das Formas de Governo - Norberto Bobbio Ed Univ. de Brasília pg 164
(2) De Officiis - Cicero Liber Primus [157]
Um artigo publicado no jornal inglês The Guardian (Suzanne Moore, 28/08/2013) aponta o Brasil e a Turquia como raros lugares em que a classe média protesta nas ruas: no resto do mundo vai morrendo sem espernear. O artigo afirma mais: a ideologia que sustenta a classe média está desaparecendo com ela. Sobriedade, autocontrole, trabalho árduo, honestidade, patriotismo, são valores que, então, vão sendo derrotados, desacreditados. Os novos valores passam a ser ganância, ostentação, arrogância, desonestidade. É o que funciona, é o que se vê, é o que dá resultado imediato.
O diabo é que, em um cenário assim, Marx se ergue do túmulo cheio de razão. Ele previa uma “ditadura do proletariado”, último passo antes de se chegar a uma sociedade sem classes, sem o Estado. E assim, sem a burguesia, meia dúzia de milionários ficam diante da massa esfomeada. Isso não é novidade na história. Sem a classe média, o Estado se desagrega, fica difícil existir paz social.
Então, Marx previu bem? Ele sempre afirmou que o Estado tem o único propósito de servir como instrumento de poder(1). Entendia que a classe média não quer o poder, quer apenas proteção para a família, para a propriedade. Assim, o Estado serve ao capital e, em troca, garante a vida tranquila da classe média. Por isso, Marx acreditava que a melhor forma de governo seria aquela que precipitasse o fim do Estado, porque nunca acreditou que o Estado pudesse proporcionar justiça ou o bem comum, como propunham os filósofos gregos.
Vale lembrar que Aristóteles, ao contrário do Marx, valorizava o papel da classe média: dizia que a virtude está no meio-termo, longe dos extremos. Achava que a classe média promove o bem comum na medida em que valoriza a razão; enquanto os muito ricos e os muito pobres, por via-de-regra, apenas seguem seus desejos e instintos.
Enfim, o fantasma do Marx tem opositores mais velhos quando vem assombrar a classe média. De qualquer forma, esta ruminação é para os burgueses. Proletariado, em geral, não lê coisa que leve a refletir. E quem está no poder, normalmente, também não.
A única saída para a classe média continuar a existir parece ser a volta da honestidade, da justiça, da coragem, da moderação. A força que a classe média tem seria moral, aliás, só pode ser moral. Essa é a ideia que se defende aqui: que a força viria da ética.
Por outro lado, não há saída para a burguesia se não houver um Estado que garanta uma ordem, que recompense os valores praticados. Afinal, quem é honrado só obtém resultados em um ambiente honrado. A moralidade tem que ser, antes de tudo, um sentimento ligado à prática.
Fica então a pergunta: como a força moral acabaria construindo e consolidando um Estado decente? O argumento é clássico(2): as abelhas não se unem para fazer o mel; fazem o mel porque estão unidas. Primeiro os valores, a ética, depois os resultados. Como se vê, a saída para a classe média tem poucas garantias - mas existiria outra?
(1) A Teoria das Formas de Governo - Norberto Bobbio Ed Univ. de Brasília pg 164
(2) De Officiis - Cicero Liber Primus [157]
sábado, 24 de agosto de 2013
A Corrupção e a Consciência da Culpa
Corrupção significa apodrecimento. E como é, então, que nos habituamos com a corrupção, como nos conformamos com a podridão? Como acontece essa decomposição moral? Vai aqui um esboço inicial; um pequeno ensaio sobre as circunstâncias em que a corrupção ocorre. Assim, esta ruminação é sobre esse processo traiçoeiro de dissolução, de degradação; tão sutil que acaba sendo aceito como normal.
Acontece que, geralmente, corrupção e má fé vêm juntas no mesmo pacote. Sartre explica bem o que significa isso: má fé. Quem usa de má fé tem a posse completa da verdade, mas, antes de tudo, turva sua própria visão, ilude a si mesmo. Afasta da consciência uma parte dos fatos, distorce, atribui um novo significado ao que acontece. Passa a não se achar culpado, mesmo sabendo que tem culpa. Oscila entre a boa fé e o cinismo.
O salário absurdo que o político ou o juiz atribui a si mesmo, o uso indevido que faz dos recursos públicos, corporativismo, clientelismo, tudo isso é apresentado sem a menor vergonha, aliás, pomposamente, por via de regra. O corrupto não perde a pose, ao contrário, age como se fosse corretíssimo, cerca-se de toda a cerimônia. O ritual, o simbolismo que serve para a corrupção, é o mesmo que serve para os atos mais nobres. A população então confunde rótulo com conteúdo. Acredita. O próprio corrupto não se acha corrupto. A má fé impede que a pessoa se dê conta da corrupção. Esse é um fato importante.
Além da má fé, há outra circunstância que normalmente disfarça a corrupção: é a má administração, a má gestão. Há muitos anos saiu um estudo sobre roubo nas empresas. A conclusão foi que, geralmente, o roubo está associado à falta de controle, de gerência. O ladrão então não se acha ladrão: diz para si mesmo que aquilo não tem dono, que ninguém se interessa pelo objeto que ele quer roubar, que tanto faz levar como deixar lá; se ele não levar, outro leva. Rouba sem culpa.
A pequena população da Islândia – 320 mil habitantes – deu-se conta de quanto a má gestão se confunde com o roubo. Geir Haarde era primeiro ministro no tempo em que faliram os bancos islandeses, privatizados havia pouco. Muita gente ficou endividada, empobreceu por isso. Haarde acabou sendo levado a julgamento. Aí se fez a distinção: não foi condenado por corrupção: foi condenado por incompetência. Alguns banqueiros, esses sim, acabaram presos.
Temos visto, então, tanto a ma fé quanto a má gestão promovendo um roubo sem culpa, ou seja, a má fé e a má gestão camuflam a dissolução dos costumes, escondem a degradação moral, a corrupção. Isso ficou patente no caso da Islândia. No resto do mundo, nem os políticos foram julgados nem os banqueiros presos pela crise de 2008. A mídia abafou o caso. Agiu de má fé. O pouco que foi noticiado sobre a Islândia omitiu a corrupção. O caso apareceu como confronto partidário, como disputa entre direita e esquerda. Muitos políticos e muitos milionários – de esquerda e direita – na Europa e nos EUA, não gostariam de ver a corrupção levada aos tribunais...
Acontece que, geralmente, corrupção e má fé vêm juntas no mesmo pacote. Sartre explica bem o que significa isso: má fé. Quem usa de má fé tem a posse completa da verdade, mas, antes de tudo, turva sua própria visão, ilude a si mesmo. Afasta da consciência uma parte dos fatos, distorce, atribui um novo significado ao que acontece. Passa a não se achar culpado, mesmo sabendo que tem culpa. Oscila entre a boa fé e o cinismo.
O salário absurdo que o político ou o juiz atribui a si mesmo, o uso indevido que faz dos recursos públicos, corporativismo, clientelismo, tudo isso é apresentado sem a menor vergonha, aliás, pomposamente, por via de regra. O corrupto não perde a pose, ao contrário, age como se fosse corretíssimo, cerca-se de toda a cerimônia. O ritual, o simbolismo que serve para a corrupção, é o mesmo que serve para os atos mais nobres. A população então confunde rótulo com conteúdo. Acredita. O próprio corrupto não se acha corrupto. A má fé impede que a pessoa se dê conta da corrupção. Esse é um fato importante.
Além da má fé, há outra circunstância que normalmente disfarça a corrupção: é a má administração, a má gestão. Há muitos anos saiu um estudo sobre roubo nas empresas. A conclusão foi que, geralmente, o roubo está associado à falta de controle, de gerência. O ladrão então não se acha ladrão: diz para si mesmo que aquilo não tem dono, que ninguém se interessa pelo objeto que ele quer roubar, que tanto faz levar como deixar lá; se ele não levar, outro leva. Rouba sem culpa.
A pequena população da Islândia – 320 mil habitantes – deu-se conta de quanto a má gestão se confunde com o roubo. Geir Haarde era primeiro ministro no tempo em que faliram os bancos islandeses, privatizados havia pouco. Muita gente ficou endividada, empobreceu por isso. Haarde acabou sendo levado a julgamento. Aí se fez a distinção: não foi condenado por corrupção: foi condenado por incompetência. Alguns banqueiros, esses sim, acabaram presos.
Temos visto, então, tanto a ma fé quanto a má gestão promovendo um roubo sem culpa, ou seja, a má fé e a má gestão camuflam a dissolução dos costumes, escondem a degradação moral, a corrupção. Isso ficou patente no caso da Islândia. No resto do mundo, nem os políticos foram julgados nem os banqueiros presos pela crise de 2008. A mídia abafou o caso. Agiu de má fé. O pouco que foi noticiado sobre a Islândia omitiu a corrupção. O caso apareceu como confronto partidário, como disputa entre direita e esquerda. Muitos políticos e muitos milionários – de esquerda e direita – na Europa e nos EUA, não gostariam de ver a corrupção levada aos tribunais...
terça-feira, 30 de julho de 2013
E-mails sobre o islã
Aparecem agora uns e-mails sobre o islã. Falam como se o islamismo fosse uma novidade horrível: apareceu uma religião malvada. As religiões sempre foram todas boazinhas, e agora surge essa, perversa. No entanto, que tal abrir o livro de história e ver que cristãos e muçulmanos andam às turras há 1500 anos? Faz tempo que conhecemos os islamitas, ou maometanos, ou muçulmanos, ou sarracenos. De acordo com a conveniência, damos um nome diferente a eles.
Vai aqui então uma complementação, mostrando só um pouquinho mais sobre o islã; e sobre nós mesmos. Possivelmente, quem não sabe dos islamitas, também não sabe dos cristãos. Vamos então a alguns fatos ilustrativos; primeiro, um mais próximo de nós, na Espanha.
Por volta do ano 711, árabes e berberes islamitas invadiram a península ibérica. Derrotaram logo os visigodos, que haviam aderido ao cristianismo. A população acolheu os invasores, que os tratava bem melhor que os antigos governantes.
Durante os quinhentos anos que ficaram por lá, os árabes foram, em geral, excelentes administradores. Os impostos, mesmo para os não maometanos, acabaram sendo inferiores aos que os visigodos, aliados aos bispos, vinham cobrando. Preocupavam-se com o povo: um quarto dos impostos recolhidos ia para os pobres; construíram 70 bibliotecas... Vale lembrar que Córdoba acabou sendo a terceira cidade mais importante do mundo, atrás apenas de Bagdá e Constantinopla. Mostraram-se tolerantes; não tentaram converter ninguém. O clima era de liberdade. Por exemplo, o califa Hakam II tinha um judeu como primeiro ministro. Casamentos entre muçulmanos e cristãos eram permitidos. Um filósofo deles, Averróis (Ibn Rushd), apresentou uma nova visão da filosofia de Aristóteles, que impressionou até mais aos cristãos que aos próprios maometanos. Assim é que, na Espanha, em geral, os islamitas árabes deixaram uma boa impressão.
Longe da Espanha, em uma Jerusalém naquele tempo dominada por eles, conviviam em paz judeus e cristãos. Havia um templo cristão no Santo Sepulcro – construído sob mando maometano - com capacidade para 8 mil pessoas. E havia a sinagoga. No ano 1099 chegou por lá a Primeira Cruzada. Após 40 dias de cerco, 12 mil cristãos lutando contra 1000 islamitas acabaram por tomar a cidade. Durante 24 horas torturaram e mataram 70 mil pessoas. Os judeus, que se refugiaram na sinagoga, foram queimados vivos.
Mais recentemente, os cristãos Bush e Blair resolveram atacar o Iraque. Usaram munição com urânio empobrecido. Hoje, nas regiões onde houve combate, os hospitais estão lotados por pacientes com câncer. Estima-se que cerca da metade da população da região morrerá nos próximos anos, principalmente de neuroblastoma. E teve a bomba atômica em Hiroshima, lembra? E depois Nagasaki, porque que uma cidade só não bastou. Os cristãos, aparentemente, rezam radiação atômica para tratar os não cristãos. Entre nós mesmos - cristãos misericordiosos que somos - usamos armamento convencional, como o “carpet bombing” que arrasou Dresden na Segunda Guerra... Como se vê, o cristianismo não tem muita relação com Cristo.
Chegando aos dias de hoje, talvez a novidade seja que vivem atualmente cerca de 25.000 judeus no Iran. Aliás, os judeus andam lá pela Pérsia há uns 2500 anos... Não foram trucidados, como os e-mails frequentemente fazem supor.
Então, pelo que foi dito acima, pode parecer que o demônio somos nós, cristãos. Não se trata disso; apenas não se deu espaço aqui para listar atrocidades deles também. O propósito foi só o de ampliar o quadro que vem aparecendo na Internet, incluindo a visão do outro lado. Só para equilibrar um pouco.
Vai aqui então uma complementação, mostrando só um pouquinho mais sobre o islã; e sobre nós mesmos. Possivelmente, quem não sabe dos islamitas, também não sabe dos cristãos. Vamos então a alguns fatos ilustrativos; primeiro, um mais próximo de nós, na Espanha.
Por volta do ano 711, árabes e berberes islamitas invadiram a península ibérica. Derrotaram logo os visigodos, que haviam aderido ao cristianismo. A população acolheu os invasores, que os tratava bem melhor que os antigos governantes.
Durante os quinhentos anos que ficaram por lá, os árabes foram, em geral, excelentes administradores. Os impostos, mesmo para os não maometanos, acabaram sendo inferiores aos que os visigodos, aliados aos bispos, vinham cobrando. Preocupavam-se com o povo: um quarto dos impostos recolhidos ia para os pobres; construíram 70 bibliotecas... Vale lembrar que Córdoba acabou sendo a terceira cidade mais importante do mundo, atrás apenas de Bagdá e Constantinopla. Mostraram-se tolerantes; não tentaram converter ninguém. O clima era de liberdade. Por exemplo, o califa Hakam II tinha um judeu como primeiro ministro. Casamentos entre muçulmanos e cristãos eram permitidos. Um filósofo deles, Averróis (Ibn Rushd), apresentou uma nova visão da filosofia de Aristóteles, que impressionou até mais aos cristãos que aos próprios maometanos. Assim é que, na Espanha, em geral, os islamitas árabes deixaram uma boa impressão.
Longe da Espanha, em uma Jerusalém naquele tempo dominada por eles, conviviam em paz judeus e cristãos. Havia um templo cristão no Santo Sepulcro – construído sob mando maometano - com capacidade para 8 mil pessoas. E havia a sinagoga. No ano 1099 chegou por lá a Primeira Cruzada. Após 40 dias de cerco, 12 mil cristãos lutando contra 1000 islamitas acabaram por tomar a cidade. Durante 24 horas torturaram e mataram 70 mil pessoas. Os judeus, que se refugiaram na sinagoga, foram queimados vivos.
Mais recentemente, os cristãos Bush e Blair resolveram atacar o Iraque. Usaram munição com urânio empobrecido. Hoje, nas regiões onde houve combate, os hospitais estão lotados por pacientes com câncer. Estima-se que cerca da metade da população da região morrerá nos próximos anos, principalmente de neuroblastoma. E teve a bomba atômica em Hiroshima, lembra? E depois Nagasaki, porque que uma cidade só não bastou. Os cristãos, aparentemente, rezam radiação atômica para tratar os não cristãos. Entre nós mesmos - cristãos misericordiosos que somos - usamos armamento convencional, como o “carpet bombing” que arrasou Dresden na Segunda Guerra... Como se vê, o cristianismo não tem muita relação com Cristo.
Chegando aos dias de hoje, talvez a novidade seja que vivem atualmente cerca de 25.000 judeus no Iran. Aliás, os judeus andam lá pela Pérsia há uns 2500 anos... Não foram trucidados, como os e-mails frequentemente fazem supor.
Então, pelo que foi dito acima, pode parecer que o demônio somos nós, cristãos. Não se trata disso; apenas não se deu espaço aqui para listar atrocidades deles também. O propósito foi só o de ampliar o quadro que vem aparecendo na Internet, incluindo a visão do outro lado. Só para equilibrar um pouco.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
PALAVRA DE HONRA
Esta ruminação aproveita o avanço tecnológico de hoje para trilhar um caminho antigo. Explicando melhor, resgata, pela Internet, um texto original em latim e também uma tradução; e revê o que parece perdido no tempo: a palavra de honra.
Vamos a uma época em que os velhos não se dedicavam tanto a imitar os jovens. Em vez disso, procuravam contar o que sabiam aos mais moços, para que as experiências passadas servissem às novas gerações.
Vamos então de volta ao De Officiis, um ensaio que trata das obrigações, dos deveres. Foi escrito por Cícero, no ano 44 a.C. Na sua última parte, compara o “levar vantagem” com o comportamento honrado. Acaba afirmando que o esperto – o esperto de fato, aquele que leva vantagem maior mesmo - é, afinal, o honesto. Não há ganho real com a degradação, a vantagem que se obtém é fugaz.
Cícero escreveu o De Officiis para o filho. Preocupava-se, porque achava que vivia em um tempo acostumado à corrupção. Talvez por isso – por encontrar poucos exemplos honrosos em volta – tenha então escolhido contar o que havia acontecido duzentos e onze anos antes. Assim é que culmina analisando bem o comportamento de um exemplo ancestral de virtude cívica: Marcus Atilius Regulus.
Regulus, cônsul romano, havia sido capturado pelos cartagineses. Aconteceu que os inimigos respeitavam-se mutuamente, de tal forma, que as conversas evoluíram. E resultou que, sob juramento, o prisioneiro Regulus foi solto e enviado a Roma. Iria como mensageiro. Deveria negociar - em casa - a sua própria troca por nobres cartagineses cativos. Caso a proposta fosse aceita, ele ficaria livre e os cartagineses seriam libertados pelos romanos e escoltados de volta para sua terra. Caso contrário – se a troca fosse recusada – Regulus deveria manter seu juramento: voltar a Cartago e entregar-se.
Então, tendo chegado a Roma, ele se dirigiu ao senado. Primeiro, disse que, estando sob juramento feito ao inimigo, considerava-se impedido de votar. Depois, esclareceu que a troca não seria vantajosa. Seria um mau negócio para Roma aceitar a proposta: ele, um velho, seria trocado por jovens capazes (1). Em outras palavras, discursou aparentemente contra si mesmo, mostrando que sua libertação seria contrária aos interesses do estado.
Para encurtar a história, o senado se opôs mesmo à troca de prisioneiros. E Regulus honrou sua palavra, voltando para Cartago, onde foi morto.
E então Cícero pergunta: Regulus foi burro? Por qual razão cumpriu seu juramento, se sabia que perderia a vida por isso? Estaria obrigado a cumprir um juramento feito sob coação?
Cícero argumenta que a vantagem verdadeira sempre está em ser honesto. "O que é desvantajoso para o estado pode ser vantajoso para o cidadão?(2)”. O que seria dos romanos se aprendessem que os senadores não são confiáveis?
E acaba por concluir que "Quem viola um juramento viola a fé (3)”. Morrer é melhor do que perder a honra.
Morrer é melhor do que perder a honra! Será? Lembro da notícia do suicídio do Getúlio Vargas em 1954. Ouvi a notícia no rádio da sala. Que espécie de "esperteza" foi essa?
1 - adulescentes esse et bonos duces (Assim diz o texto em latim. A Internet nos torna capazes de descer a esses detalhes, se quisermos).
2 - Potest autem, quod inutile rei publicae sit, id cuiquam civi utile esse?
3 - Qui ius igitur iurandum violat, is fidem violat...
Vamos a uma época em que os velhos não se dedicavam tanto a imitar os jovens. Em vez disso, procuravam contar o que sabiam aos mais moços, para que as experiências passadas servissem às novas gerações.
Vamos então de volta ao De Officiis, um ensaio que trata das obrigações, dos deveres. Foi escrito por Cícero, no ano 44 a.C. Na sua última parte, compara o “levar vantagem” com o comportamento honrado. Acaba afirmando que o esperto – o esperto de fato, aquele que leva vantagem maior mesmo - é, afinal, o honesto. Não há ganho real com a degradação, a vantagem que se obtém é fugaz.
Cícero escreveu o De Officiis para o filho. Preocupava-se, porque achava que vivia em um tempo acostumado à corrupção. Talvez por isso – por encontrar poucos exemplos honrosos em volta – tenha então escolhido contar o que havia acontecido duzentos e onze anos antes. Assim é que culmina analisando bem o comportamento de um exemplo ancestral de virtude cívica: Marcus Atilius Regulus.
Regulus, cônsul romano, havia sido capturado pelos cartagineses. Aconteceu que os inimigos respeitavam-se mutuamente, de tal forma, que as conversas evoluíram. E resultou que, sob juramento, o prisioneiro Regulus foi solto e enviado a Roma. Iria como mensageiro. Deveria negociar - em casa - a sua própria troca por nobres cartagineses cativos. Caso a proposta fosse aceita, ele ficaria livre e os cartagineses seriam libertados pelos romanos e escoltados de volta para sua terra. Caso contrário – se a troca fosse recusada – Regulus deveria manter seu juramento: voltar a Cartago e entregar-se.
Então, tendo chegado a Roma, ele se dirigiu ao senado. Primeiro, disse que, estando sob juramento feito ao inimigo, considerava-se impedido de votar. Depois, esclareceu que a troca não seria vantajosa. Seria um mau negócio para Roma aceitar a proposta: ele, um velho, seria trocado por jovens capazes (1). Em outras palavras, discursou aparentemente contra si mesmo, mostrando que sua libertação seria contrária aos interesses do estado.
Para encurtar a história, o senado se opôs mesmo à troca de prisioneiros. E Regulus honrou sua palavra, voltando para Cartago, onde foi morto.
E então Cícero pergunta: Regulus foi burro? Por qual razão cumpriu seu juramento, se sabia que perderia a vida por isso? Estaria obrigado a cumprir um juramento feito sob coação?
Cícero argumenta que a vantagem verdadeira sempre está em ser honesto. "O que é desvantajoso para o estado pode ser vantajoso para o cidadão?(2)”. O que seria dos romanos se aprendessem que os senadores não são confiáveis?
E acaba por concluir que "Quem viola um juramento viola a fé (3)”. Morrer é melhor do que perder a honra.
Morrer é melhor do que perder a honra! Será? Lembro da notícia do suicídio do Getúlio Vargas em 1954. Ouvi a notícia no rádio da sala. Que espécie de "esperteza" foi essa?
1 - adulescentes esse et bonos duces (Assim diz o texto em latim. A Internet nos torna capazes de descer a esses detalhes, se quisermos).
2 - Potest autem, quod inutile rei publicae sit, id cuiquam civi utile esse?
3 - Qui ius igitur iurandum violat, is fidem violat...
quarta-feira, 10 de julho de 2013
EDUCANDO EM 1960 ATRAVÉS DE MÁXIMAS E PROVÉRBIOS
Em 1960, no Rio, mais precisamente, no Colégio Santo Inácio, cada aluno tinha uma agenda com espaços reservados, em cada página, para uma máxima e um provérbio.
E chegava uma hora do dia em que as quatro turmas da mesma série iam para uma sala muito grande: o “Estudo”. Era então que as frases eram copiadas. Iam para a agenda aqueles pedaços de sabedoria concentrada: uma máxima e um provérbio.
Isso foi há 53 anos. Naquela época o espírito crítico era incentivado. Supunha-se que os meninos iriam ler o que haviam escrito. Esperava-se que pensassem um pouco. Dessa forma, questões abstratas eram levadas a serem consideradas. Os alunos iam percebendo a necessidade de haver normas, orientações, diretrizes. Por outro lado, iam percebendo que essas generalizações são limitadas, não servem para aplicação automática: tudo depende das circunstâncias.
Mas vamos de volta para os dias atuais, e lá estou eu de novo a tropeçar em ditados, citações e coisas do gênero. Estão lá, em livros antigos, que me atraem mais. É que os livros com mais de cem anos parecem muito mais verdadeiros do que os lançamentos recentes. Aliás, lançamentos recentes... Lançamentos? De livros? Lançar flechas, ou mesmo lanças, como o verbo sugere, faz mais sentido. Lançar livros não parece um gesto sensato... O fato é que os clássicos estão aí, mesmo sem terem sido lançados, sem terem motivo comercial. E ainda hoje podem ser baixados de graça como e-books. Atravessam os séculos à margem do mercado; sobreviveram sem dar lucro esse tempo todo; hão de ter alguma coisa de especial, essas obras velhas.
Talvez esta ruminação devesse parar por aqui porque, afinal, atualmente se diz que, para o bom entendedor, meia palavra basta. No entanto, contradizendo isso, uns 20 anos antes de Cristo nascer já se cogitava de não tentar ser muito conciso. O empenho em dizer logo, em ser rápido, sacrifica a clareza: "Brevis esse laboro, obscurus fio.” (Tento ser breve, sou obscuro. Horácio, Ars Poetica 3).
Sendo assim, para ser melhor compreendido, prefiro seguir esse conselho mais velho e me alongar um pouquinho. Mas, afinal, para me assegurar mesmo, para ter certeza de que fui claro, melhor ainda seria seguir o conselho de Sto. Agostinho, conselho aliás dado por escrito no ano 391 d.C.: “Audi partem alteram”. (Ouve a outra parte. De Duabus Animabus, 14, ii). Quem sabe, afinal, a outra parte - no caso o leitor - deixa algum comentário...
E chegava uma hora do dia em que as quatro turmas da mesma série iam para uma sala muito grande: o “Estudo”. Era então que as frases eram copiadas. Iam para a agenda aqueles pedaços de sabedoria concentrada: uma máxima e um provérbio.
Isso foi há 53 anos. Naquela época o espírito crítico era incentivado. Supunha-se que os meninos iriam ler o que haviam escrito. Esperava-se que pensassem um pouco. Dessa forma, questões abstratas eram levadas a serem consideradas. Os alunos iam percebendo a necessidade de haver normas, orientações, diretrizes. Por outro lado, iam percebendo que essas generalizações são limitadas, não servem para aplicação automática: tudo depende das circunstâncias.
Mas vamos de volta para os dias atuais, e lá estou eu de novo a tropeçar em ditados, citações e coisas do gênero. Estão lá, em livros antigos, que me atraem mais. É que os livros com mais de cem anos parecem muito mais verdadeiros do que os lançamentos recentes. Aliás, lançamentos recentes... Lançamentos? De livros? Lançar flechas, ou mesmo lanças, como o verbo sugere, faz mais sentido. Lançar livros não parece um gesto sensato... O fato é que os clássicos estão aí, mesmo sem terem sido lançados, sem terem motivo comercial. E ainda hoje podem ser baixados de graça como e-books. Atravessam os séculos à margem do mercado; sobreviveram sem dar lucro esse tempo todo; hão de ter alguma coisa de especial, essas obras velhas.
Talvez esta ruminação devesse parar por aqui porque, afinal, atualmente se diz que, para o bom entendedor, meia palavra basta. No entanto, contradizendo isso, uns 20 anos antes de Cristo nascer já se cogitava de não tentar ser muito conciso. O empenho em dizer logo, em ser rápido, sacrifica a clareza: "Brevis esse laboro, obscurus fio.” (Tento ser breve, sou obscuro. Horácio, Ars Poetica 3).
Sendo assim, para ser melhor compreendido, prefiro seguir esse conselho mais velho e me alongar um pouquinho. Mas, afinal, para me assegurar mesmo, para ter certeza de que fui claro, melhor ainda seria seguir o conselho de Sto. Agostinho, conselho aliás dado por escrito no ano 391 d.C.: “Audi partem alteram”. (Ouve a outra parte. De Duabus Animabus, 14, ii). Quem sabe, afinal, a outra parte - no caso o leitor - deixa algum comentário...
sexta-feira, 28 de junho de 2013
A MULTIDÃO CERCA O SENADO HÁ 2.230 ANOS
Vendo as ruas tomadas por nossas mobilizações contra mazelas em geral e, de vez em quando, lendo os ensaios de Montaigne, acabei embaralhando as histórias. O que eu lia pareceu ter alguma relação com o que estava aparecendo na TV. Os escritos pareceram familiares. As imagens e declarações que a televisão mostrava neste junho de 2013 acabaram ligadas aos escritos do século 16 que, por sua vez, descrevem coisas acontecidas há mais de dois milênios. Vamos ver se, assim como eu, o leitor acha que histórias antigas, de repente, voltaram. Reaparecem agora com uma roupagem um pouco diferente, como reprise de novela.
Então, voltamos ao ano 217 a.C., quando Aníbal vinha avançando com o exército cartaginês sobre território romano. Em Cápua, o magistrado Pacuvius Calavius, apoiado pelos senadores, queria resistir. Ao contrário deles, o povo não queria guerra, queria paz. Queriam que fosse logo negociada uma rendição. A população estava furiosa com os senadores. Era o senado contra o povo. E o povo foi às ruas: cercou o senado. Não foi ontem em Brasilia, foi em Cápua, há 2.230 anos.
E eis que apareceu o Pacuvius Calavius. Com os senadores trancados dentro do senado, propôs ao povo que fossem então retirados um a um, para serem executados. Mas só se faria isso depois de um tipo de plebiscito: só se liquidaria um senador depois que o povo escolhesse outro como substituto; um político bom no lugar de um político mau.
Houve um longo silêncio. Ninguém na multidão sugeria um nome. Até que alguém fez isso: criou coragem e indicou seu candidato para primeiro novo senador! Mas o que se ouviu foi um clamor contra si: ainda maior do que a gritaria havida contra o senado. Outros nomes foram apresentados. Em vão. A multidão não se entendia. Dispersaram-se.
Muitos anos mais tarde, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.) Quem vai às ruas hoje no Brasil pretende o quê? Se as passeatas não querem apenas destruir, querem substituir qual coisa por qual coisa?
Tudo indica que o povo brasileiro deseja uma mudança muito ampla. Não queremos só novos políticos: queremos novos costumes, novos hábitos, novas crenças. Chegamos coletivamente à conclusão de que a “esperteza” dá errado, que a burrice não deve ser acatada. Não acreditamos mais que haja um “jeitinho” para cretinice grossa. Mas essa mudança ética, que intimamente todos acham necessária, ainda precisa ser vivida. Os costumes de um povo não são mudados assim da noite para o dia. Enquanto isso, haja plebiscito.
Então, voltamos ao ano 217 a.C., quando Aníbal vinha avançando com o exército cartaginês sobre território romano. Em Cápua, o magistrado Pacuvius Calavius, apoiado pelos senadores, queria resistir. Ao contrário deles, o povo não queria guerra, queria paz. Queriam que fosse logo negociada uma rendição. A população estava furiosa com os senadores. Era o senado contra o povo. E o povo foi às ruas: cercou o senado. Não foi ontem em Brasilia, foi em Cápua, há 2.230 anos.
E eis que apareceu o Pacuvius Calavius. Com os senadores trancados dentro do senado, propôs ao povo que fossem então retirados um a um, para serem executados. Mas só se faria isso depois de um tipo de plebiscito: só se liquidaria um senador depois que o povo escolhesse outro como substituto; um político bom no lugar de um político mau.
Houve um longo silêncio. Ninguém na multidão sugeria um nome. Até que alguém fez isso: criou coragem e indicou seu candidato para primeiro novo senador! Mas o que se ouviu foi um clamor contra si: ainda maior do que a gritaria havida contra o senado. Outros nomes foram apresentados. Em vão. A multidão não se entendia. Dispersaram-se.
Muitos anos mais tarde, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.) Quem vai às ruas hoje no Brasil pretende o quê? Se as passeatas não querem apenas destruir, querem substituir qual coisa por qual coisa?
Tudo indica que o povo brasileiro deseja uma mudança muito ampla. Não queremos só novos políticos: queremos novos costumes, novos hábitos, novas crenças. Chegamos coletivamente à conclusão de que a “esperteza” dá errado, que a burrice não deve ser acatada. Não acreditamos mais que haja um “jeitinho” para cretinice grossa. Mas essa mudança ética, que intimamente todos acham necessária, ainda precisa ser vivida. Os costumes de um povo não são mudados assim da noite para o dia. Enquanto isso, haja plebiscito.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
AS CONSEQÜÊNCIAS DA ÉTICA
A ética muda e com ela mudam a política e as leis. E a ética, a política e as leis mudaram muito. O Antigo Testamento determinava que o ladrão restituísse o que havia roubado. E caso não tivesse meios para isso, que fosse então vendido como escravo (Êxodo 22,3). Roubou, devolve! Ah, não tem como devolver? Vai ser vendido como escravo. Como se vê, a maneira de tratarmos os ladrões agora é outra, muitíssimo diferente.
Durante séculos admiramos a força, a majestade. Meu pai, aos 93, ainda acha que os feitos de Napoleão são admiráveis. Hoje, estranhamos os costumes de antigamente. Por exemplo – lá por volta do século XVII – os meninos cantores dos coros católicos eram castrados para manterem a voz fina. Isso era feito para maior glória do Papa. A ética consolidava um poder concentrado, absoluto, inquestionável.
Como se vê, o tema desta Ruminação é a evolução dos nossos hábitos, das nossas crenças. Vamos tratar basicamente da ética, que regula nossa relação com os outros. Ocorre que a ética, os valores, os atos admirados e os atos condenados, tudo isso conduz um grupo a resistir ou a sucumbir.
Mas não escrevo inspirado pela Bíblia, e sim por uma palestra feita por Thomas Huxley na Universidade de Oxford, em 1893, intitulada “Evolution and Ethics”. Nesse discurso ele conceitua o papel da ética do ponto de vista da biologia. Compara a humanidade a um sujeito que resolve fazer um jardim em um lugar distante, onde havia até então vegetação natural.
E o jardineiro, empreendedor, movido por sua própria vontade, resolveu selecionar determinadas espécies e extirpar outras. Inibiu a multiplicação ilimitada. Cuidou de evitar os danos que o tempo pudesse causar às plantas selecionadas; adubou quando preciso. Em outras palavras, o jardineiro trouxe o seu conceito próprio de bom e de mau. Nem tudo o que era bom para a Natureza considerou bom para ele. Impôs sua ética.
A ética é uma criação humana; pode-se dizer então, artificial. O jardineiro está sempre tendo que lutar contra a Natureza. A natureza dele não é igual à do cosmos.
Com o progresso científico, com as máquinas trabalhando para os homens e o melhor aproveitamento dos recursos, a vida foi ficando mais fácil. E a ética foi mudando, foi-se tornando mais suave. Hoje, parece que o jardineiro desistiu da ética que admira os mais fortes. Foi para o outro extremo. Passou a dar toda a atenção aos marginalizados. A gravidez na adolescência passou a ser acolhida. Os drogados são acolhidos. Os ladrões são acolhidos. Prega-se uma tolerância infinita. Reprimir é malvisto. O juiz ladrão recebe meritíssima aposentadoria como pena.
Ocorre que, estabelecendo comportamentos para o indivíduo, dirige-se o destino do grupo. Não basta olhar para cada um, é preciso ver o conjunto. O que parece bom para o indivíduo, pode vir a ser mau para todos. Permitindo-se tudo, nada é viável. Cabe a pergunta: praticando a ética atual, sobrevivemos?
Tenho um amigo que fabricava uma cachaça (Souza Leão). Vinha escrito no rótulo: “Cuidadosamente natural”. Isso resume a proposta desta ruminação: uma ética que cuide dos seus limites.
Durante séculos admiramos a força, a majestade. Meu pai, aos 93, ainda acha que os feitos de Napoleão são admiráveis. Hoje, estranhamos os costumes de antigamente. Por exemplo – lá por volta do século XVII – os meninos cantores dos coros católicos eram castrados para manterem a voz fina. Isso era feito para maior glória do Papa. A ética consolidava um poder concentrado, absoluto, inquestionável.
Como se vê, o tema desta Ruminação é a evolução dos nossos hábitos, das nossas crenças. Vamos tratar basicamente da ética, que regula nossa relação com os outros. Ocorre que a ética, os valores, os atos admirados e os atos condenados, tudo isso conduz um grupo a resistir ou a sucumbir.
Mas não escrevo inspirado pela Bíblia, e sim por uma palestra feita por Thomas Huxley na Universidade de Oxford, em 1893, intitulada “Evolution and Ethics”. Nesse discurso ele conceitua o papel da ética do ponto de vista da biologia. Compara a humanidade a um sujeito que resolve fazer um jardim em um lugar distante, onde havia até então vegetação natural.
E o jardineiro, empreendedor, movido por sua própria vontade, resolveu selecionar determinadas espécies e extirpar outras. Inibiu a multiplicação ilimitada. Cuidou de evitar os danos que o tempo pudesse causar às plantas selecionadas; adubou quando preciso. Em outras palavras, o jardineiro trouxe o seu conceito próprio de bom e de mau. Nem tudo o que era bom para a Natureza considerou bom para ele. Impôs sua ética.
A ética é uma criação humana; pode-se dizer então, artificial. O jardineiro está sempre tendo que lutar contra a Natureza. A natureza dele não é igual à do cosmos.
Com o progresso científico, com as máquinas trabalhando para os homens e o melhor aproveitamento dos recursos, a vida foi ficando mais fácil. E a ética foi mudando, foi-se tornando mais suave. Hoje, parece que o jardineiro desistiu da ética que admira os mais fortes. Foi para o outro extremo. Passou a dar toda a atenção aos marginalizados. A gravidez na adolescência passou a ser acolhida. Os drogados são acolhidos. Os ladrões são acolhidos. Prega-se uma tolerância infinita. Reprimir é malvisto. O juiz ladrão recebe meritíssima aposentadoria como pena.
Ocorre que, estabelecendo comportamentos para o indivíduo, dirige-se o destino do grupo. Não basta olhar para cada um, é preciso ver o conjunto. O que parece bom para o indivíduo, pode vir a ser mau para todos. Permitindo-se tudo, nada é viável. Cabe a pergunta: praticando a ética atual, sobrevivemos?
Tenho um amigo que fabricava uma cachaça (Souza Leão). Vinha escrito no rótulo: “Cuidadosamente natural”. Isso resume a proposta desta ruminação: uma ética que cuide dos seus limites.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
ATRASO E PROGRESSO
“Tu pareces um bugre, um índio louco!”. A minha avó, uma gaúcha nascida no começo do século XX, às vezes me classificava assim. Tinha boas razões. De vez em quando ela me equiparava aos índios, que eram tidos como ignorantes, grosseiros. Atrasados.
Hoje, não se deve mais dizer “povo atrasado”. São apenas diferentes. Afinal, “adiantamento” e “atraso” são – em última análise - questão de opinião. Ou não?
Vamos estabelecer então que nesta ruminação não haverá pretensão de provar coisa alguma; vamos só especular um pouco, testando a nossa concepção do que seja “progresso”. É que esse assunto, tão exaustivamente discutido nos últimos séculos passados, saiu da moda, e deixou um vazio na alma...
Mas, voltando aos nossos índios, sendo ou não “atrasados”, o fato é que havia canibalismo por aqui. Agora ninguém defende mais um costume como esse, mas houve um tempo em que era defendido. Há vários relatos na nossa história. Quando Mem de Sá sucedeu a D. Duarte, o primeiro cuidado que teve foi o de proibir que os índios aliados comessem carne humana. Decretou com toda a autoridade de pessoa nomeada.
Ocorreu que um cacique se opôs ao decreto – Cururupebe. Não pretendia abrir mão de um ritual tão significativo. A carne do inimigo morto vinha cheia de tradição, de simbolismo. E, assim sendo, anunciou que não iria se curvar às ordens do governador. Em seguida, duzentas tribos que viviam às margens do rio Paraguaçu juntaram-se a ele. Tribos e mais tribos unidas pela cultura comum.
Acabaram todos mortos: morreram defendendo o canibalismo... Matamos os canibais. Pronto. Matar pode. Comer a carne dos mortos é que é inadmissível.
Como se pode ver, estamos no terreno dos costumes, das opiniões. O que parece totalmente absurdo para uns, pode ser considerado normal por outros. Será então que a noção de progresso é absolutamente relativa? Não haveria argumentos objetivos para mostrar que um hábito é bom e o outro mau? Não haveria uma ligação entre o progresso científico e a ética, uma ligação entre progresso do conhecimento e progresso moral?
Sêneca (55aC-39dC) acreditava no valor do progresso científico; mas não que isso acarretasse garantia de melhora para o mundo. A vantagem estaria assegurada apenas ao cientista, ao filósofo, que se veria entre as estrelas, voltando para suas origens, em comunhão com o universo, levado por uma atividade intelectual ímpar, imensamente gratificante, mas dificilmente compartilhável. Então, se ele tinha razão, a população em geral não se beneficiaria necessariamente desses conhecimentos, restritos a tão poucos.
Já Rousseau (1712-1778) trouxe uma teoria desconcertante: o progresso só traz infelicidade! Achava que o homem havia sido feliz até desenvolver a agricultura e a metalurgia. Depois, havia trocado a felicidade pela civilização. A partir do momento em que o primeiro homem declarou que um lote de terra era sua propriedade privada; a partir daí, as desigualdades foram sendo ampliadas; e cada homem negociou a sua felicidade em um pacto social que trouxe desigualdades absurdas. O que foi bom para cada um individualmente, acabou sendo a desgraça de todos.
Depois do Rousseau, praticamente todos os que tratam desse assunto - até o Francis Fukuyama - concordam em que uma desigualdade grande é um mal a ser combatido. Em que pese esse consenso, no restante o assunto sempre se perdeu em um labirinto de idéias e opiniões. Houve um monte de franceses: Condorcet, Saint-Simon, Comte, revoluções, Marx... Mas vamos voltar aos gregos. Mal não há de fazer.
Há uns 2400 anos o filósofo Platão, concebendo o funcionamento de uma cidade ideal, chegou à conclusão que deveria haver igualdade entre homens e mulheres, em todas as tarefas possíveis. E ainda, para que houvesse harmonia, não deveria haver propriedade privada. Nem mulher exclusiva de um só homem; nem tampouco homem exclusivo de uma só mulher. Assim, os bens seriam bens de todos; e os filhos, filhos de todos, de modo que, tendo sido educados nesse ambiente, todos amariam e defenderiam o lugar onde morassem, não havendo distinção entre público e privado. Atingida essa situação ideal, aparentemente, não haveria mais progresso. O esforço seria todo para manter tudo assim, sem corromper esses costumes. E Platão atribuía à música uma influência enorme sobre os hábitos. Mudando-se a música, mudavam-se os costumes. E assim também com a ginástica, com os esportes. Então, e o futebol, por exemplo, caberia na cidade ideal? Vale arriscar que Platão aprovaria o futebol como fator de união. Mas o futebol como promotor de vendas e da discórdia, seria seguramente condenado. Nada de trocar de time por dinheiro. E vale notar que na cidade ideal o regime previsto NÃO seria o democrático.
Para encerrar, vai aqui uma conclusão pessoal, muito distante de qualquer comprovação: as teorias, as idealizações, a legislação, tudo isso se distancia muito dos costumes, da prática, das instituições; a tal ponto que se compreende a frase do Marx: “Je ne suis pas marxiste!” (Não sou marxista!). Assim é que pensar um pouco sobre o progresso alimenta a alma, rabisca um esboço, mas não produz resultado categórico. Graças a Deus.
Hoje, não se deve mais dizer “povo atrasado”. São apenas diferentes. Afinal, “adiantamento” e “atraso” são – em última análise - questão de opinião. Ou não?
Vamos estabelecer então que nesta ruminação não haverá pretensão de provar coisa alguma; vamos só especular um pouco, testando a nossa concepção do que seja “progresso”. É que esse assunto, tão exaustivamente discutido nos últimos séculos passados, saiu da moda, e deixou um vazio na alma...
Mas, voltando aos nossos índios, sendo ou não “atrasados”, o fato é que havia canibalismo por aqui. Agora ninguém defende mais um costume como esse, mas houve um tempo em que era defendido. Há vários relatos na nossa história. Quando Mem de Sá sucedeu a D. Duarte, o primeiro cuidado que teve foi o de proibir que os índios aliados comessem carne humana. Decretou com toda a autoridade de pessoa nomeada.
Ocorreu que um cacique se opôs ao decreto – Cururupebe. Não pretendia abrir mão de um ritual tão significativo. A carne do inimigo morto vinha cheia de tradição, de simbolismo. E, assim sendo, anunciou que não iria se curvar às ordens do governador. Em seguida, duzentas tribos que viviam às margens do rio Paraguaçu juntaram-se a ele. Tribos e mais tribos unidas pela cultura comum.
Acabaram todos mortos: morreram defendendo o canibalismo... Matamos os canibais. Pronto. Matar pode. Comer a carne dos mortos é que é inadmissível.
Como se pode ver, estamos no terreno dos costumes, das opiniões. O que parece totalmente absurdo para uns, pode ser considerado normal por outros. Será então que a noção de progresso é absolutamente relativa? Não haveria argumentos objetivos para mostrar que um hábito é bom e o outro mau? Não haveria uma ligação entre o progresso científico e a ética, uma ligação entre progresso do conhecimento e progresso moral?
Sêneca (55aC-39dC) acreditava no valor do progresso científico; mas não que isso acarretasse garantia de melhora para o mundo. A vantagem estaria assegurada apenas ao cientista, ao filósofo, que se veria entre as estrelas, voltando para suas origens, em comunhão com o universo, levado por uma atividade intelectual ímpar, imensamente gratificante, mas dificilmente compartilhável. Então, se ele tinha razão, a população em geral não se beneficiaria necessariamente desses conhecimentos, restritos a tão poucos.
Já Rousseau (1712-1778) trouxe uma teoria desconcertante: o progresso só traz infelicidade! Achava que o homem havia sido feliz até desenvolver a agricultura e a metalurgia. Depois, havia trocado a felicidade pela civilização. A partir do momento em que o primeiro homem declarou que um lote de terra era sua propriedade privada; a partir daí, as desigualdades foram sendo ampliadas; e cada homem negociou a sua felicidade em um pacto social que trouxe desigualdades absurdas. O que foi bom para cada um individualmente, acabou sendo a desgraça de todos.
Depois do Rousseau, praticamente todos os que tratam desse assunto - até o Francis Fukuyama - concordam em que uma desigualdade grande é um mal a ser combatido. Em que pese esse consenso, no restante o assunto sempre se perdeu em um labirinto de idéias e opiniões. Houve um monte de franceses: Condorcet, Saint-Simon, Comte, revoluções, Marx... Mas vamos voltar aos gregos. Mal não há de fazer.
Há uns 2400 anos o filósofo Platão, concebendo o funcionamento de uma cidade ideal, chegou à conclusão que deveria haver igualdade entre homens e mulheres, em todas as tarefas possíveis. E ainda, para que houvesse harmonia, não deveria haver propriedade privada. Nem mulher exclusiva de um só homem; nem tampouco homem exclusivo de uma só mulher. Assim, os bens seriam bens de todos; e os filhos, filhos de todos, de modo que, tendo sido educados nesse ambiente, todos amariam e defenderiam o lugar onde morassem, não havendo distinção entre público e privado. Atingida essa situação ideal, aparentemente, não haveria mais progresso. O esforço seria todo para manter tudo assim, sem corromper esses costumes. E Platão atribuía à música uma influência enorme sobre os hábitos. Mudando-se a música, mudavam-se os costumes. E assim também com a ginástica, com os esportes. Então, e o futebol, por exemplo, caberia na cidade ideal? Vale arriscar que Platão aprovaria o futebol como fator de união. Mas o futebol como promotor de vendas e da discórdia, seria seguramente condenado. Nada de trocar de time por dinheiro. E vale notar que na cidade ideal o regime previsto NÃO seria o democrático.
Para encerrar, vai aqui uma conclusão pessoal, muito distante de qualquer comprovação: as teorias, as idealizações, a legislação, tudo isso se distancia muito dos costumes, da prática, das instituições; a tal ponto que se compreende a frase do Marx: “Je ne suis pas marxiste!” (Não sou marxista!). Assim é que pensar um pouco sobre o progresso alimenta a alma, rabisca um esboço, mas não produz resultado categórico. Graças a Deus.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
A ÉTICA NO AUGE DO IMPÉRIO ROMANO
A ética que prevaleceu no auge do Império Romano merece uma comparação com a ética atual.
Há várias éticas. O que um povo acha bom, outro não acha. Culturas diferentes dão explicações diferentes para admirar ou condenar um ato. Hoje exaltamos agregar coisas a nós mesmos: apartamentos, carros, tablets. Consumir. Lá pelo ano 170 dC admirava-se o saber, a coragem, a justiça, a moderação. Prevalecia essa doutrina, estóica.
Vale a pena examinar os fundamentos disso - admirar coisas abstratas, em vez de coisas materiais. É claro que havia espaço para hipocrisia, para arrogância e para uma falsa pregação moralista; ainda assim, o estoicismo convenceu e perdurou por séculos.
A educação estóica ensinava aos jovens que tudo aquilo que o Destino nos dá, pode tirar de nós. A qualquer momento. Riqueza, saúde, e outras coisas desejadas, não fazem parte da gente. Assim como aparecem, se vão. Então – diziam os estóicos - que se busque um bom fluxo da vida, uma vida de acordo com a Natureza. Compreenda-se que muitos desejos são incompatíveis – um contradiz o outro. E assim, uma corrida irrefletida atrás das vontades e caprichos estabelece uma eterna insatisfação. Ou, finalmente, o tédio.
Não se trata de abandonar o mundo, de deixar o barco correr. Trata-se de saber que não se tem o controle de tudo, e que o que se deseja é apenas um desejo. Nossa alma não está em jogo: o que está em jogo está fora de nós.
Educado dessa forma, o jovem aprende a valorizar a si mesmo e não ao que a Fortuna lhe deu ou deixou de lhe dar. A obtenção de resultados – se tiverem que acontecer – não decorrerão só da sabedoria, da justiça, da coragem, da moderação. Os resultados podem vir ou não. Para o estóico, dá na mesma. Sua alma é indiferente aos resultados. Não sofre por ansiedade nem tampouco por decepção. Apenas empenha-se racionalmente, como deve, em harmonia com a Natureza. Ele sabe que riqueza e saúde não serão privilégio dos bons e entende isso como natural.
Antes de tudo, a ética estóica ensinava a respeitar a si mesmo e à sua ligação com o Todo. E nenhuma lei seria superior a isso. Esse pensamento era tão comum, tão geralmente aceito, que o Direito Romano reconhecia isso: a Lei Natural (jus naturali) como superior a todas as outras.
Algumas frases do livro “Meditações”, escrito pelo Imperador Marcus Aurelius, completam e ilustram o que foi dito acima sobre a ética estóica e encerram essas Ruminações:
"Isto tenhas sempre em mente: qual é a natureza do todo..." (II,9)
“Não considera como vantajoso o que te fizer quebrar a palavra ou perder o respeito próprio.”(III,7) ;
“Compreende, contudo, que um homem vale tanto quanto valem as coisas das quais se ocupa.” (VII, 3);
“Não sejas descuidado com as ações, nem confuso com as palavras, nem tortuoso com o pensamento.” (VIII, 51).
Há várias éticas. O que um povo acha bom, outro não acha. Culturas diferentes dão explicações diferentes para admirar ou condenar um ato. Hoje exaltamos agregar coisas a nós mesmos: apartamentos, carros, tablets. Consumir. Lá pelo ano 170 dC admirava-se o saber, a coragem, a justiça, a moderação. Prevalecia essa doutrina, estóica.
Vale a pena examinar os fundamentos disso - admirar coisas abstratas, em vez de coisas materiais. É claro que havia espaço para hipocrisia, para arrogância e para uma falsa pregação moralista; ainda assim, o estoicismo convenceu e perdurou por séculos.
A educação estóica ensinava aos jovens que tudo aquilo que o Destino nos dá, pode tirar de nós. A qualquer momento. Riqueza, saúde, e outras coisas desejadas, não fazem parte da gente. Assim como aparecem, se vão. Então – diziam os estóicos - que se busque um bom fluxo da vida, uma vida de acordo com a Natureza. Compreenda-se que muitos desejos são incompatíveis – um contradiz o outro. E assim, uma corrida irrefletida atrás das vontades e caprichos estabelece uma eterna insatisfação. Ou, finalmente, o tédio.
Não se trata de abandonar o mundo, de deixar o barco correr. Trata-se de saber que não se tem o controle de tudo, e que o que se deseja é apenas um desejo. Nossa alma não está em jogo: o que está em jogo está fora de nós.
Educado dessa forma, o jovem aprende a valorizar a si mesmo e não ao que a Fortuna lhe deu ou deixou de lhe dar. A obtenção de resultados – se tiverem que acontecer – não decorrerão só da sabedoria, da justiça, da coragem, da moderação. Os resultados podem vir ou não. Para o estóico, dá na mesma. Sua alma é indiferente aos resultados. Não sofre por ansiedade nem tampouco por decepção. Apenas empenha-se racionalmente, como deve, em harmonia com a Natureza. Ele sabe que riqueza e saúde não serão privilégio dos bons e entende isso como natural.
Antes de tudo, a ética estóica ensinava a respeitar a si mesmo e à sua ligação com o Todo. E nenhuma lei seria superior a isso. Esse pensamento era tão comum, tão geralmente aceito, que o Direito Romano reconhecia isso: a Lei Natural (jus naturali) como superior a todas as outras.
Algumas frases do livro “Meditações”, escrito pelo Imperador Marcus Aurelius, completam e ilustram o que foi dito acima sobre a ética estóica e encerram essas Ruminações:
"Isto tenhas sempre em mente: qual é a natureza do todo..." (II,9)
“Não considera como vantajoso o que te fizer quebrar a palavra ou perder o respeito próprio.”(III,7) ;
“Compreende, contudo, que um homem vale tanto quanto valem as coisas das quais se ocupa.” (VII, 3);
“Não sejas descuidado com as ações, nem confuso com as palavras, nem tortuoso com o pensamento.” (VIII, 51).
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