terça-feira, 26 de dezembro de 2017
INSISTINDO EM SALVAR A REPÚBLICA: VIVA CÍCERO DE NOVO!
Cícero viveu seus últimos dias enquanto a República Romana – que ele tanto defendia – agonizava. Isso talvez tenha algum paralelo com a situação atual do Brasil, que procura um rumo moral enquanto a nossa República atravessa um período de corrupção desenfreada.
Cícero percebia que uma república só se sustenta quando predomina entre a população uma moralidade compatível com um governo descentralizado; uma república só se sustenta enquanto a população tiver convicção de que deve agir propondo ações e fiscalizando o que afeta o interesse público.
Na verdade, Cícero defendia a Republica atacando. E atacou, entre outros, Marco Antônio, membro do triunvirato que governava. Por isso foi executado no ano 43 aC. Dezesseis anos depois, Roma deixou formalmente de ser uma República, passando a ter um governo imperial.
Mas o que interessa aqui é que nos seus últimos 3 anos de vida, Cícero escreveu Paradoxa Stoicorum (46 aC), Tusculanae Quaestiones (45 aC), De Amicitia (44 aC) e De Officiis (44 aC), textos que procuravam trazer os valores morais do estoicismo grego para o povo romano.
Vale lembrar que durante a Idade Média os textos de Cícero eram parte do currículo escolar na Europa. O latim era ensinado através do que ele escreveu e, como consequência, disseminavam-se as idéias estóicas. Atribui-se a isso o movimento Renascentista, que transformou o mundo.
Para resumir, como um exemplo vale por mil palavras, vai aqui uma frase de Cícero em latim. É que o português ainda tem muito do latim. Vale a pena ver que - assim como a república deles tem muito a ver com a nossa - também a nossa língua não difere tanto assim da deles. Segue portanto esse trecho de De Amicitia, que mostra bem a moralidade proposta; e logo depois vão um vocabulário e a tradução integral:
“Haec igitur prima lex amicitiae sanciator, ut ab amicis honesta petamus, amicorum causa honesta faciamus, ne exspectemus quidem, dum rogemur; studium semper adsit, cunctatio absit: consilium vero dare audeamus libere.”
igitur – portanto / sanciator - sancionada / petamus – peçamos / quidem – certamente / dum - até que / rogemur – tenha rogado / studium – entusiasmo /adsit – apareça / cunctatio – hesitação / absit – falte / consilium – conselho / vero – na verdade / audeamus – ousemos / libere – livremente.
Que seja esta pois, a primeira lei da amizade, de não pedir nem fazer pelos nossos amigos senão coisas honestas, mas não esperemos que nos roguem; demonstremos sempre zelo, jamais desleixo; ousemos também dar-lhes livremente nossos conselhos. (Cap. XIII Diálogo sobre a Amizade, Marcus Tullius Cícero – Livro de Direito Público traduzido por um grupo de voluntários).
E assim termina o exercício intelectual de hoje, que tentou nos aproximar das nossas origens e, ao mesmo tempo, compreender melhor o que se passa com a República.
sábado, 16 de dezembro de 2017
CÍCERO DE NOVO: PRATICAR AS VIRTUDES PARECE INSENSATEZ
Marcus Tullius Cícero (106AC-43AC) também achava isso: praticar as 4 virtudes clássicas parece que vai contra a opinião da maioria. No entanto ele admitia, como muitos depois dele, que a multidão não vê verdades paradoxais. As pessoas se questionam: isso leva a quê? Ser sábio, justo, corajoso e comedido, ou seja, buscar o conhecimento, ser honesto, não ter medo, ser moderado; o que se ganha com isso?
Para esclarecer essa questão Cícero escreveu “Paradoxa Stoicorum” - décadas antes de Cristo pregar o evangelho. São sete ensaios curtos. Ali ele mostra razões para que se busquem essas virtudes.
Esta Ruminação procura então resumir esses argumentos, tão contrários à crença comum. Para tornar a leitura mais natural não foram feitas transcrições ao pé da letra. Seguem, portanto, extratos do "Paradoxa Stoicorum":
(1) Estes tópicos são chamados de paradoxos porque são notáveis e contrários à opinião dos homens. Mas são de longe os mais verdadeiros.
(2) Esses que acham que as coisas boas e desejáveis são tesouros, mansões magníficas, poder, prazeres, nunca estão satisfeitos. São atormentados não só por buscar sempre mais, como têm medo de perder o que possuem.
A razão certa sempre terá mais peso para mim que a opinião da multidão.
Vocês acham, então, que os nossos antepassados, que nos legaram esse império fundado em um sistema tão nobre (República Romana), estavam pensando em gratificação em dinheiro, iguarias deliciosas, luxúria, pompa e prazeres nas festas?
(3) O homem virtuoso não é destituído de uma vida feliz. Marcus Regulus, embora tenha sido capturado e torturado pelos cartagineses, não perdeu sua magnanimidade, nem a força da sua autoridade, nem a honra, nem a coragem. Um homem que é totalmente consistente em si mesmo só pode ser feliz.
Mas aqueles cujos esquemas e esperanças dependem da fortuna, esses nunca têm certeza de coisa alguma. Homens assim podem ser aterrorizados por quem os capture. A morte é terrível para quem acha que tudo se extingue com a vida; mas a morte não é terrível para aqueles cuja glória é imortal.
Nenhum homem pode ser feliz se é corrupto, bobo ou indolente; e nenhum homem pode ser desgraçado se é virtuoso, corajoso, honesto.
(4) Que você seja rico então; mas se, na sua fome por dinheiro, você acha que nenhuma origem de lucro é má, se você todo o dia trapaceia, engana, se sente sequioso, saqueia, rouba dos aliados, saqueia o tesouro, se está sempre esperando benesses dos amigos ou até forjando isso: essas práticas são de alguém rico ou necessitado?
(1) Paradoxos endereçados a Marcus Brutus
(2) Paradoxo I – Que a Virtude é o Único Bem
(3) Paradoxo II – O Homem Virtuoso Não é Destituído dos Requisitos de uma Vida Feliz
(4) Paradoxo VI – Só o Homem Sábio é Rico
Para esclarecer essa questão Cícero escreveu “Paradoxa Stoicorum” - décadas antes de Cristo pregar o evangelho. São sete ensaios curtos. Ali ele mostra razões para que se busquem essas virtudes.
Esta Ruminação procura então resumir esses argumentos, tão contrários à crença comum. Para tornar a leitura mais natural não foram feitas transcrições ao pé da letra. Seguem, portanto, extratos do "Paradoxa Stoicorum":
(1) Estes tópicos são chamados de paradoxos porque são notáveis e contrários à opinião dos homens. Mas são de longe os mais verdadeiros.
(2) Esses que acham que as coisas boas e desejáveis são tesouros, mansões magníficas, poder, prazeres, nunca estão satisfeitos. São atormentados não só por buscar sempre mais, como têm medo de perder o que possuem.
A razão certa sempre terá mais peso para mim que a opinião da multidão.
Vocês acham, então, que os nossos antepassados, que nos legaram esse império fundado em um sistema tão nobre (República Romana), estavam pensando em gratificação em dinheiro, iguarias deliciosas, luxúria, pompa e prazeres nas festas?
(3) O homem virtuoso não é destituído de uma vida feliz. Marcus Regulus, embora tenha sido capturado e torturado pelos cartagineses, não perdeu sua magnanimidade, nem a força da sua autoridade, nem a honra, nem a coragem. Um homem que é totalmente consistente em si mesmo só pode ser feliz.
Mas aqueles cujos esquemas e esperanças dependem da fortuna, esses nunca têm certeza de coisa alguma. Homens assim podem ser aterrorizados por quem os capture. A morte é terrível para quem acha que tudo se extingue com a vida; mas a morte não é terrível para aqueles cuja glória é imortal.
Nenhum homem pode ser feliz se é corrupto, bobo ou indolente; e nenhum homem pode ser desgraçado se é virtuoso, corajoso, honesto.
(4) Que você seja rico então; mas se, na sua fome por dinheiro, você acha que nenhuma origem de lucro é má, se você todo o dia trapaceia, engana, se sente sequioso, saqueia, rouba dos aliados, saqueia o tesouro, se está sempre esperando benesses dos amigos ou até forjando isso: essas práticas são de alguém rico ou necessitado?
(1) Paradoxos endereçados a Marcus Brutus
(2) Paradoxo I – Que a Virtude é o Único Bem
(3) Paradoxo II – O Homem Virtuoso Não é Destituído dos Requisitos de uma Vida Feliz
(4) Paradoxo VI – Só o Homem Sábio é Rico
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
A CORRUPÇÃO, A AMIZADE E O TEMPO
A busca por um padrão moral não é novidade; por isso talvez seja interessante voltar no tempo para examinar a questão em outras circunstâncias. Talvez valha a pena recapitular, dar uma olhada nas propostas morais de quando não havia Cristo e muito menos Brasil. Por isso, este ensaio faz um resumo bem sintético de dois escritos de Cícero(1), ambos feitos no ano 44 AC, quando a República Romana agonizava.
A República Romana, em tempos anteriores, normais, era conduzida por dois cônsules – eleitos para governarem por um ano. O poder alternava entre um e outro mensalmente. Mas por volta do ano 44 AC a política atravessava tempos turbulentos e frequentemente os direitos constitucionais eram suspensos por lei marcial. Naquele ano, nos idos de março, César foi assassinado.
Cícero, que além de escritor era político (já havia até sido eleito cônsul e exercido o cargo uns 19 anos atrás), escrevia então ao mesmo tempo em que procurava escapar ileso(2).
Essas eram as circunstâncias; mas vamos à proposta moral que Cicero faz nesses dois escritos, “De Officiis” e “De Amicitia”, respectivamente sobre as obrigações morais e sobre a amizade.
Ao propor uma ética, um rumo moral, Cícero assume a linha estoica, isto é, põe o dever acima de tudo. Os estoicos entendem que a vida é imprevisível, nela acontece de tudo, mas o que importa é que você procure sempre conhecer, ser justo, ser corajoso e ser equilibrado. Exercer essas quatro virtudes é o bem supremo: sabedoria, justiça, coragem e temperança. Os interesses pessoais importam pouco; no entanto, frequentemente, a vida premia quem é virtuoso. Essa é a ética proposta por Cícero, bem resumida no trecho abaixo (De Officiis I,5):
“Porque aquele que concebe o bem supremo assim, sem que tenha conexão com a virtude, mas apenas ligado a seus interesses, sem avaliar a honestidade, esse, sem dar vez à bondade natural, não pode colher amizades, nem justiça, nem generosidade; e não pode ser de modo algum forte quem julga que a dor é o mal supremo, nem equilibrado quem acha que o prazer é o supremo bem.”(3)
Já sobre a amizade - correndo-se o risco de ser obscuro por resumir demais - pode-se dizer que a amizade verdadeira deve decorrer de afinidade e não de interesse. Muito menos de interesses vergonhosos. Na amizade não se procura um cúmplice para o vício, mas um auxiliar para a virtude. Por isso, é preciso conhecer bem a pessoa antes de se tornar amigo dela, até porque não se pode desconfiar dos amigos. Assim sendo, seguem alguns trechos do “De Amicitia”:
"...como primeira lei da amizade, não pedir nem conceder nada de vergonhoso." (Cap XII)
"Não renunciaremos à amizade unicamente pelos aborrecimentos que possam advir de nossos amigos, assim como não renunciaremos à virtude pelas inquietações e angústias que a acompanham." (Cap XIII)
"Nossa amizade não nasceu pois da utilidade, mas a utilidade a seguiu." (Cap XIV)
"Se encontrarmos quem prefira amizade ao dinheiro, onde achar aquele que não prefira as honras, as magistraturas, os comandos, o poder, a autoridade?" (Cap XVII)
"Assim, não será demais insistir, é preciso conhecer antes de amar e não amar antes de conhecer." (Cap XXII)
"A dissimulação é funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em nós o sentimento da verdade) mas é, sobretudo, contrária à amizade." (Cap XXV)
Para concluir então, alguma razão Cícero há de ter quando propõe um rumo moral a ser seguido pelos amigos. Basta ver a quantidade de “amigos” denunciando outros nos tempos que correm.
(1) De Amicitia e De Officiis – Marcus Tullius Cicero
(2) Acabou sendo assassinado no ano seguinte, aos 63 anos de idade, por ter criticado Marco Antônio.
(3) Nam qui summum bonum sic instituit, ut nihil habeat cum virtute coniunctum, idque suis commodis, non honestate metitur, hic, si sibi ipse consentiat et non interdum naturae bonitate vincatur, neque amicitiam colere possit nec iustitiam nec liberalitatem; fortis vero dolorem summum malum iudicans aut temperans voluptatem summum bonum statuens esse certe nullo modo potest. De Officiis I,5.
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
O SENTIDO DA VIDA, DEMOCRACIA E PATRIOTISMO
No Brasil as últimas gerações não têm muito contato com o conceito de nação: os principais símbolos nacionais – a bandeira e o hino – pouco aparecem.
Fica a impressão de que a nossa democracia dá a todos cada vez mais liberdade. Propõe sempre menos respeito ou obediência ao que quer que seja. Ensina a exigir do país, sem oferecer amor em troca. Em outras palavras, o patriotismo deixou de existir.
Este ensaio especula sobre o que teria a ver o governo de uma nação democrática com o sentido da vida de cada cidadão; em outras palavras, este ensaio trata da ligação entre o que cada um espera da vida e o que espera do país.
Primeiro, vale lembrar que ninguém escapa de atribuir um sentido para a própria vida. Mas tudo indica que não se faz isso conscientemente, cada um avança baseado em uma noção subjetiva. Vai decidindo sem questionar sua crença básica sobre sua razão de viver. É importante reforçar isso aqui: a escolha de um sentido para a própria vida normalmente não é consciente.
Posto isto sobre o sentido da vida, vale então recapitular algumas noções sobre democracia. Primeiro, liberdade e democracia se confundem. A democracia vem junto com uma busca incessante por mais liberdade*. No entanto, democracia não é sinônimo de liberdade.
Ocorre que, sendo regida por esse desejo insaciável de liberdade, a democracia tende naturalmente ao caos. E não há liberdade verdadeira no caos.
Além disso, é importante perceber que a democracia direta é inviável para grandes populações. Não é sensato esperar que 200 milhões de brasileiros opinem sobre cada decisão de governo. Resta a “Democracia Representativa”, que entrega o Estado a um número menor de pessoas. Em outras palavras, a Democracia Representativa seria a maneira de se ter uma “elite governante” conciliada com a população. Um estudo profundo sobre isso está no livro “Considerações sobre o Governo Representativo”, de John Stuart Mill, escrito em 1862. Com muita objetividade, ele investiga, por exemplo, as condições que o povo deve preencher para que qualquer democracia faça sentido. Aliás, conclui que um requisito essencial é o povo esteja interessado em governar, ou seja, o povo deve querer governar a si mesmo. Isso parece óbvio: não se deve entregar o governo para alguém que não queira governar. Mas o óbvio frequentemente é desconsiderado e assim populações despreparadas entregam o governo a demagogos corruptos.
Retomando então o rumo deste ensaio, resta estabelecer a conexão entre o sentido da vida e a democracia. Concluindo, este ensaio propõe então, embora admitindo riscos, considerar o patriotismo como forma de conciliar a realização pessoal com uma ordem maior. Sempre lembrando que, sem essa ordem maior, haveria o caos. E a história mostra que – havendo o caos – a tirania sucede.
Mas como o patriotismo estabiliza a democracia? Ocorre que o patriotismo dá personalidade à nação: “entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada”. E o amor à pátria liga o sentido da vida de cada um a uma ordem geral; o patriotismo mostra um caminho possível, traz uma proposta de entendimento; torna mais concreta a ideia de bem comum. E assim percebe-se que a liberdade não pode ser desenfreada, compreende-se que há limites a respeitar.
Valem duas notas finais importantes:
primeiro, o patriotismo não é insensato. Não se trata portanto de hostilizar os outros países, achando que o nosso país é melhor só porque nascemos nele. Trata-se de um amor semelhante ao que se pode sentir pela família: um amor que pode ser natural e benéfico.
segundo, como tudo na vida, o patriotismo traz o risco de ser falso, demagógico. Mas esse risco – a democracia corre de qualquer forma.
*Platão, “A República” 562.
Fica a impressão de que a nossa democracia dá a todos cada vez mais liberdade. Propõe sempre menos respeito ou obediência ao que quer que seja. Ensina a exigir do país, sem oferecer amor em troca. Em outras palavras, o patriotismo deixou de existir.
Este ensaio especula sobre o que teria a ver o governo de uma nação democrática com o sentido da vida de cada cidadão; em outras palavras, este ensaio trata da ligação entre o que cada um espera da vida e o que espera do país.
Primeiro, vale lembrar que ninguém escapa de atribuir um sentido para a própria vida. Mas tudo indica que não se faz isso conscientemente, cada um avança baseado em uma noção subjetiva. Vai decidindo sem questionar sua crença básica sobre sua razão de viver. É importante reforçar isso aqui: a escolha de um sentido para a própria vida normalmente não é consciente.
Posto isto sobre o sentido da vida, vale então recapitular algumas noções sobre democracia. Primeiro, liberdade e democracia se confundem. A democracia vem junto com uma busca incessante por mais liberdade*. No entanto, democracia não é sinônimo de liberdade.
Ocorre que, sendo regida por esse desejo insaciável de liberdade, a democracia tende naturalmente ao caos. E não há liberdade verdadeira no caos.
Além disso, é importante perceber que a democracia direta é inviável para grandes populações. Não é sensato esperar que 200 milhões de brasileiros opinem sobre cada decisão de governo. Resta a “Democracia Representativa”, que entrega o Estado a um número menor de pessoas. Em outras palavras, a Democracia Representativa seria a maneira de se ter uma “elite governante” conciliada com a população. Um estudo profundo sobre isso está no livro “Considerações sobre o Governo Representativo”, de John Stuart Mill, escrito em 1862. Com muita objetividade, ele investiga, por exemplo, as condições que o povo deve preencher para que qualquer democracia faça sentido. Aliás, conclui que um requisito essencial é o povo esteja interessado em governar, ou seja, o povo deve querer governar a si mesmo. Isso parece óbvio: não se deve entregar o governo para alguém que não queira governar. Mas o óbvio frequentemente é desconsiderado e assim populações despreparadas entregam o governo a demagogos corruptos.
Retomando então o rumo deste ensaio, resta estabelecer a conexão entre o sentido da vida e a democracia. Concluindo, este ensaio propõe então, embora admitindo riscos, considerar o patriotismo como forma de conciliar a realização pessoal com uma ordem maior. Sempre lembrando que, sem essa ordem maior, haveria o caos. E a história mostra que – havendo o caos – a tirania sucede.
Mas como o patriotismo estabiliza a democracia? Ocorre que o patriotismo dá personalidade à nação: “entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada”. E o amor à pátria liga o sentido da vida de cada um a uma ordem geral; o patriotismo mostra um caminho possível, traz uma proposta de entendimento; torna mais concreta a ideia de bem comum. E assim percebe-se que a liberdade não pode ser desenfreada, compreende-se que há limites a respeitar.
Valem duas notas finais importantes:
primeiro, o patriotismo não é insensato. Não se trata portanto de hostilizar os outros países, achando que o nosso país é melhor só porque nascemos nele. Trata-se de um amor semelhante ao que se pode sentir pela família: um amor que pode ser natural e benéfico.
segundo, como tudo na vida, o patriotismo traz o risco de ser falso, demagógico. Mas esse risco – a democracia corre de qualquer forma.
*Platão, “A República” 562.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
NÃO SOMOS MAIS HIPÓCRITAS: NOS TORNAMOS CÍNICOS
Enquanto filmavam um homem morrendo afogado em um lago da Florida, adolescentes riam e zombavam. Foi agora, em 9 de julho de 2017. Postaram no YouTube (1) .
Sempre houve jovens malvados - tocavam fogo em mendigos - mas não anunciavam. Roubavam carros – como o Chico Buarque fazia – mas não divulgavam isso. Hoje não há mais absurdo: tudo é normal. O Chico Buarque diz, rindo, que roubava carros na juventude.
Mas, por muito tempo, a sociedade admirou certos atos enquanto condenava outros. Schopenhauer, por exemplo, entre muitos outros, acreditava no seguinte: “As três inclinações éticas fundamentais - egoísmo, malícia e compaixão - estão presentes em cada um em proporções diferentes e inacreditavelmente desiguais.” (2). Na época, era geral a crença de que existia o bom caráter e o mau caráter. Vale esclarecer isso melhor aqui: acreditava-se que o egoísmo prevalecia. A maioria era basicamente egoísta. Mas acreditava-se que existia gente que, mesmo tendo sua parte egoísta, mostrava muita compaixão; enquanto outros praticamente tinham sempre a intenção de prejudicar, de ver o outro sofrer. Quem mostrava compaixão tinha bom caráter; quem mostrava malvadeza tinha mau caráter.
Passamos da hipocrisia ao cinismo. Mas, o que quer dizer isso: “passamos da hipocrisia ao cinismo?”. Vai aqui a explicação: o hipócrita prega uma coisa, mas pratica outra. O hipócrita faz elogios ao bem, mas secretamente pratica o mal. Já o cínico é diferente do hipócrita: o cínico não acredita no bem, zomba dos bonzinhos, diz que o mal é normal. Então, passamos da hipocrisia ao cinismo. Não tentamos mais disfarçar os atos maus: agora dizemos que nada é mau, não existe ato reprovável.
Vale ressaltar que o cínico é diferente do sujeito que pratica um ato mau por falta de conhecimento, diferente do sujeito que erra porque porque se enganou. Errar é humano, ninguém pode garantir coisa alguma com 100% de certeza: mas há uma grande diferença entre tentar acertar e não se incomodar em errar. O cínico não se incomoda em errar, não tem escrúpulos.
Somos hoje, todos nós, cínicos? Afinal, ainda existe alguma coisa que a sociedade considere condenável? O conceito de bom caráter e mau caráter existe ainda, ou todo o mundo é igual? Antes não era assim: acreditava-se no bom e no mau caráter.
Parece que passamos a nos tornar cínicos há algumas décadas. Já se procurava mostrar que não existe caráter: as pessoas se comportam segundo as situações – um assassino pode ser um ótimo pai de família. A prática da psicologia provaria isso.(3) Argumenta-se que a psicologia não confirma, por exemplo, que as pessoas tenham sempre compaixão, ou sejam sempre honestas. É comum ser, por exemplo, honesto em determinadas situações e desonesto em outras. E nem todo honesto é também solidário; há muita gente honesta mas impiedosa. Enfim, há algumas décadas começamos a questionar a existência de “bom caráter” ou de “mau caráter”. E daí, parece que partimos para concluir que todos são iguais! Serão mesmo?
Um caso ilustra bem as consequências de não admirarmos nem condenarmos as pessoas. Hoje parece que há uma crença absoluta na recuperação dos criminosos. Aliás, não existem criminosos, existem suspeitos. Não há bons e maus: todos são iguais. Isso faz lembrar de um filme de 1971 (4). Um sujeito perverso tinha prazer em espancar e estuprar. Pegou 14 anos de prisão. Mas aceitou fazer um tratamento para ser solto logo. Injetaram drogas nele e fizeram com que visse cenas de espancamento e sexo sem parar por vários dias. O sujeito virou um zumbi. Foi depois entrevistado por um capelão que confirmou que ele não ameaçava mais ninguém; por outro lado, havia perdido a personalidade, a capacidade de decidir. Esse era o jeito para evitar a superlotação das prisões. Vamos chegar lá? Todos são iguais e a solução está na farmácia?
NOTAS
1. https://www.youtube.com/watch?v=ctN99VRsttM Florida Teens Mock And Laugh While Filming Disabled Man Drowning.
2. Schopenhauer Sobre a base da moralidade, 1841.
3. Lack of Character: Personality and Moral Behavior, Doris, John M., Cambridge University Press, 2002.
4. Clockwork Orange - Stanley Kubrick.
Sempre houve jovens malvados - tocavam fogo em mendigos - mas não anunciavam. Roubavam carros – como o Chico Buarque fazia – mas não divulgavam isso. Hoje não há mais absurdo: tudo é normal. O Chico Buarque diz, rindo, que roubava carros na juventude.
Mas, por muito tempo, a sociedade admirou certos atos enquanto condenava outros. Schopenhauer, por exemplo, entre muitos outros, acreditava no seguinte: “As três inclinações éticas fundamentais - egoísmo, malícia e compaixão - estão presentes em cada um em proporções diferentes e inacreditavelmente desiguais.” (2). Na época, era geral a crença de que existia o bom caráter e o mau caráter. Vale esclarecer isso melhor aqui: acreditava-se que o egoísmo prevalecia. A maioria era basicamente egoísta. Mas acreditava-se que existia gente que, mesmo tendo sua parte egoísta, mostrava muita compaixão; enquanto outros praticamente tinham sempre a intenção de prejudicar, de ver o outro sofrer. Quem mostrava compaixão tinha bom caráter; quem mostrava malvadeza tinha mau caráter.
Passamos da hipocrisia ao cinismo. Mas, o que quer dizer isso: “passamos da hipocrisia ao cinismo?”. Vai aqui a explicação: o hipócrita prega uma coisa, mas pratica outra. O hipócrita faz elogios ao bem, mas secretamente pratica o mal. Já o cínico é diferente do hipócrita: o cínico não acredita no bem, zomba dos bonzinhos, diz que o mal é normal. Então, passamos da hipocrisia ao cinismo. Não tentamos mais disfarçar os atos maus: agora dizemos que nada é mau, não existe ato reprovável.
Vale ressaltar que o cínico é diferente do sujeito que pratica um ato mau por falta de conhecimento, diferente do sujeito que erra porque porque se enganou. Errar é humano, ninguém pode garantir coisa alguma com 100% de certeza: mas há uma grande diferença entre tentar acertar e não se incomodar em errar. O cínico não se incomoda em errar, não tem escrúpulos.
Somos hoje, todos nós, cínicos? Afinal, ainda existe alguma coisa que a sociedade considere condenável? O conceito de bom caráter e mau caráter existe ainda, ou todo o mundo é igual? Antes não era assim: acreditava-se no bom e no mau caráter.
Parece que passamos a nos tornar cínicos há algumas décadas. Já se procurava mostrar que não existe caráter: as pessoas se comportam segundo as situações – um assassino pode ser um ótimo pai de família. A prática da psicologia provaria isso.(3) Argumenta-se que a psicologia não confirma, por exemplo, que as pessoas tenham sempre compaixão, ou sejam sempre honestas. É comum ser, por exemplo, honesto em determinadas situações e desonesto em outras. E nem todo honesto é também solidário; há muita gente honesta mas impiedosa. Enfim, há algumas décadas começamos a questionar a existência de “bom caráter” ou de “mau caráter”. E daí, parece que partimos para concluir que todos são iguais! Serão mesmo?
Um caso ilustra bem as consequências de não admirarmos nem condenarmos as pessoas. Hoje parece que há uma crença absoluta na recuperação dos criminosos. Aliás, não existem criminosos, existem suspeitos. Não há bons e maus: todos são iguais. Isso faz lembrar de um filme de 1971 (4). Um sujeito perverso tinha prazer em espancar e estuprar. Pegou 14 anos de prisão. Mas aceitou fazer um tratamento para ser solto logo. Injetaram drogas nele e fizeram com que visse cenas de espancamento e sexo sem parar por vários dias. O sujeito virou um zumbi. Foi depois entrevistado por um capelão que confirmou que ele não ameaçava mais ninguém; por outro lado, havia perdido a personalidade, a capacidade de decidir. Esse era o jeito para evitar a superlotação das prisões. Vamos chegar lá? Todos são iguais e a solução está na farmácia?
NOTAS
1. https://www.youtube.com/watch?v=ctN99VRsttM Florida Teens Mock And Laugh While Filming Disabled Man Drowning.
2. Schopenhauer Sobre a base da moralidade, 1841.
3. Lack of Character: Personality and Moral Behavior, Doris, John M., Cambridge University Press, 2002.
4. Clockwork Orange - Stanley Kubrick.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
A ARTE, A CIÊNCIA E A CONFIANÇA EM DEUS
Em 1930 Miguel de Unamuno escreveu uma novela de umas 45 páginas - “San Manuel Bueno, mártir”. A Igreja Católica baniu o livrinho; listou no “Index librorum prohibitorum”. A história é sobre um padre que vivia em uma aldeia, na Espanha. Era um sujeito boníssimo. Ajudava, dava atenção aos necessitados. Não podia ver alguém sujo, esfarrapado: providenciava logo ajuda. Não acusava ninguém. Pregava que ninguém falasse mal dos outros. Perdoava tudo. Não queria ninguém desocupado, pensando. Providenciava sempre atividade, constante. E era amado por todo o mundo. Quando falava, todos pareciam hipnotizados.
Acontece que um rapaz - que havia saído da Aldeia para morar nos Estados Unidos - volta. E começa a contestar a posição da Igreja, a achar que a fé não fazia sentido, que a população vivia pobre e iludida. E conversava sempre com o padre sobre isso. Enfim, o padre lhe confessa que não acreditava também, mas que só com a fé a população viveria feliz. Iludia os outros para que vivessem tranquilos. O rapaz então se comove e passa a agir como o padre. Passa a crer também que deve dedicar a vida a fazer com que os outros acreditassem em Deus e assim vivessem felizes.
Há no entanto alguma falsidade nessa novela. Faz o leitor deduzir que a falta de fé é natural. Faz o leitor acreditar que, evidentemente, Deus não existe. Induz o leitor pensar que – de alguma maneira - o padre sabia que Deus não existe.
Como se fosse óbvio que Deus não existe. Como se fosse fácil entender que – em vez de Deus - a matéria sempre existiu, não foi criada. Mas como assim, “a matéria sempre existiu”?
Para explicar melhor essa questão, vai aqui primeiro uma rápida notícia sobre nossa precária noção do que seja o tempo. Ou seja, vai aqui uma evidência de que não compreendemos bem o que seja o tempo. A noção de “sempre” é portanto absolutamente fora de nossa compreensão.
Os relógios nos satélites do GPS devem andar 38 microssegundos mais rápido por dia que os nossos aqui na Terra. Se não for assim, darão um erro que cresceria 10 km por dia no geoposicionamento. Acontece que o tempo lá em cima passa mais depressa porque está mais longe do centro da massa terrestre (embora isso seja atenuado pela velocidade do satélite em relação a nós). Ou seja, a Teoria da Relatividade tem essa aplicação prática: nos permite calcular o que os nossos sentidos não têm como perceber. A percepção do passar do tempo que os nossos sentidos têm é desastrosamente precária.
Vivemos então uma época em que só tomamos como verdade o que for cientificamente comprovado. O que não for cientificamente comprovado tem sido jogado em uma vala comum, como se todas as opiniões tivessem o mesmo peso, merecessem a mesma credibilidade. E essa credibilidade beira o zero. Para agravar o descrédito, as “verdades” científicas podem ser compradas. Só os bobos acreditam. Os espertos, os inteligentes, não confiam para não serem enganados.
Será isso mesmo? Diante da dúvida, não acreditar é mais inteligente? Quanto desperdiçamos por não confiar no que afinal era verdade? Quanto perdemos por desconfiar?
Não se trata aqui de uma apologia à fé cega, mas da importância de uma aposta inicial, um crédito, seguido de atenção, em uma procura por entender bem em que se está acreditando.
Enfim, é mesmo possível viver sem confiar em ninguém, sem acreditar em nada, muito menos em Deus? A sensatez nos levou a isso?
Acontece que um rapaz - que havia saído da Aldeia para morar nos Estados Unidos - volta. E começa a contestar a posição da Igreja, a achar que a fé não fazia sentido, que a população vivia pobre e iludida. E conversava sempre com o padre sobre isso. Enfim, o padre lhe confessa que não acreditava também, mas que só com a fé a população viveria feliz. Iludia os outros para que vivessem tranquilos. O rapaz então se comove e passa a agir como o padre. Passa a crer também que deve dedicar a vida a fazer com que os outros acreditassem em Deus e assim vivessem felizes.
Há no entanto alguma falsidade nessa novela. Faz o leitor deduzir que a falta de fé é natural. Faz o leitor acreditar que, evidentemente, Deus não existe. Induz o leitor pensar que – de alguma maneira - o padre sabia que Deus não existe.
Como se fosse óbvio que Deus não existe. Como se fosse fácil entender que – em vez de Deus - a matéria sempre existiu, não foi criada. Mas como assim, “a matéria sempre existiu”?
Para explicar melhor essa questão, vai aqui primeiro uma rápida notícia sobre nossa precária noção do que seja o tempo. Ou seja, vai aqui uma evidência de que não compreendemos bem o que seja o tempo. A noção de “sempre” é portanto absolutamente fora de nossa compreensão.
Os relógios nos satélites do GPS devem andar 38 microssegundos mais rápido por dia que os nossos aqui na Terra. Se não for assim, darão um erro que cresceria 10 km por dia no geoposicionamento. Acontece que o tempo lá em cima passa mais depressa porque está mais longe do centro da massa terrestre (embora isso seja atenuado pela velocidade do satélite em relação a nós). Ou seja, a Teoria da Relatividade tem essa aplicação prática: nos permite calcular o que os nossos sentidos não têm como perceber. A percepção do passar do tempo que os nossos sentidos têm é desastrosamente precária.
Vivemos então uma época em que só tomamos como verdade o que for cientificamente comprovado. O que não for cientificamente comprovado tem sido jogado em uma vala comum, como se todas as opiniões tivessem o mesmo peso, merecessem a mesma credibilidade. E essa credibilidade beira o zero. Para agravar o descrédito, as “verdades” científicas podem ser compradas. Só os bobos acreditam. Os espertos, os inteligentes, não confiam para não serem enganados.
Será isso mesmo? Diante da dúvida, não acreditar é mais inteligente? Quanto desperdiçamos por não confiar no que afinal era verdade? Quanto perdemos por desconfiar?
Não se trata aqui de uma apologia à fé cega, mas da importância de uma aposta inicial, um crédito, seguido de atenção, em uma procura por entender bem em que se está acreditando.
Enfim, é mesmo possível viver sem confiar em ninguém, sem acreditar em nada, muito menos em Deus? A sensatez nos levou a isso?
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