segunda-feira, 14 de setembro de 2009
SARKOZY, STIGLITZ, NELSON RODRIGUES E OS NÚMEROS
Quando o sucesso é medido por um número, esse número influi no comportamento das pessoas. Se o time que ganha é aquele que faz mais gols, todas as ações em campo acontecem pensando nos gols. Nada mais importa muito.
Hoje o PIB é o principal indicador do sucesso de um governo; o crescimento do PIB é o número que vai dizer ao mundo se um governo conduz bem ou conduz mal um país. Acontece que o presidente Sarkozy e o Nobel de Economia Stiglitz reconhecem o que muita gente já sentia: o PIB pode crescer com tudo piorando e pode cair, embora a vida das pessoas esteja melhorando. Resumindo: o PIB é um número que não traduz o que se passa, não representa adequadamente, não revela o mais importante.
Assim é que se entenderam os dois, Sarkozy e Stiglitz, e foi constituída, em fevereiro de 2008, uma comissão de 22 experts para melhorarem a maneira de medir o sucesso de um governo. Finalmente agora saíram recomendações para aperfeiçoar a contabilidade do PIB, contemplando a renda e o consumo, em vez da produção, isto é, olhando a partir dos domicílios, em vez de olhar a partir das empresas.
Stiglitz e a Comissão propõem ainda outros indicadores para medir o bem estar das pessoas, ou seja, propõem medir também o trabalho não remunerado, como o trabalho doméstico, a saúde, a segurança, o meio ambiente...
A aparente complicação das medições é necessária, sob pena de se obter o contrário daquilo que se deseja. Um caso ilustra bem isso: trabalhei muitos anos fazendo o controle das operações de campo de uma companhia telefônica. Naquela época uma boa parte do tráfego interurbano era conectado manualmente, por telefonistas. Resolvemos então premiar as telefonistas que completassem mais chamadas, contando os bilhetes que cada uma houvesse preenchido. Foi um desastre: as telefonistas não queriam mais receber chamadas, só expedir chamadas – que era o que contava. Derrubavam as ligações que chegavam, só se interessavam pelas que saiam... O incentivo foi um tiro que saiu pela culatra.
No futebol valem os gols. Normalmente, só os gols contam. Mas, para o Nelson Rodrigues, o que interessava era o “Placar Moral”. Mesmo o jogo tendo terminado em um aparente zero a zero, saia lá, no O Globo: “Placar Moral: Fluminense 1 x Flamengo 1”. O zero a zero não dizia absolutamente nada da batalha havida: as bolas na trave, a falta que o juiz não marcou... Eu me lembro de dar mais valor ao Placar Moral do que ao insignificante resultado oficial.
Concluindo: uniram-se agora Sarkozy, Stiglitz e o espírito do Nelson Rodrigues; os três contra os números equivocados. E a França promete batalhar por uma mudança nos métodos estatísticos junto aos outros países. Essa mudança haveria de influir muito, porque hoje agimos hipnotizados pelos números. Se não há como escapar deles, então é bom que retratem melhor a realidade.
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