Vendo as ruas tomadas por nossas mobilizações contra mazelas em geral e, de vez em quando, lendo os ensaios de Montaigne, acabei embaralhando as histórias. O que eu lia pareceu ter alguma relação com o que estava aparecendo na TV. Os escritos pareceram familiares. As imagens e declarações que a televisão mostrava neste junho de 2013 acabaram ligadas aos escritos do século 16 que, por sua vez, descrevem coisas acontecidas há mais de dois milênios. Vamos ver se, assim como eu, o leitor acha que histórias antigas, de repente, voltaram. Reaparecem agora com uma roupagem um pouco diferente, como reprise de novela.
Então, voltamos ao ano 217 a.C., quando Aníbal vinha avançando com o exército cartaginês sobre território romano. Em Cápua, o magistrado Pacuvius Calavius, apoiado pelos senadores, queria resistir. Ao contrário deles, o povo não queria guerra, queria paz. Queriam que fosse logo negociada uma rendição. A população estava furiosa com os senadores. Era o senado contra o povo. E o povo foi às ruas: cercou o senado. Não foi ontem em Brasilia, foi em Cápua, há 2.230 anos.
E eis que apareceu o Pacuvius Calavius. Com os senadores trancados dentro do senado, propôs ao povo que fossem então retirados um a um, para serem executados. Mas só se faria isso depois de um tipo de plebiscito: só se liquidaria um senador depois que o povo escolhesse outro como substituto; um político bom no lugar de um político mau.
Houve um longo silêncio. Ninguém na multidão sugeria um nome. Até que alguém fez isso: criou coragem e indicou seu candidato para primeiro novo senador! Mas o que se ouviu foi um clamor contra si: ainda maior do que a gritaria havida contra o senado. Outros nomes foram apresentados. Em vão. A multidão não se entendia. Dispersaram-se.
Muitos anos mais tarde, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.) Quem vai às ruas hoje no Brasil pretende o quê? Se as passeatas não querem apenas destruir, querem substituir qual coisa por qual coisa?
Tudo indica que o povo brasileiro deseja uma mudança muito ampla. Não queremos só novos políticos: queremos novos costumes, novos hábitos, novas crenças. Chegamos coletivamente à conclusão de que a “esperteza” dá errado, que a burrice não deve ser acatada. Não acreditamos mais que haja um “jeitinho” para cretinice grossa. Mas essa mudança ética, que intimamente todos acham necessária, ainda precisa ser vivida. Os costumes de um povo não são mudados assim da noite para o dia. Enquanto isso, haja plebiscito.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
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