sexta-feira, 15 de agosto de 2014

EDUARDO CAMPOS, OUTROS E A MÁ-FÉ

Na morte, a dor da família deve ser respeitada. Não obstante, outros sentimentos merecem respeito. Portanto, vai aqui um pequeno ensaio, examinando atitudes relacionadas à morte do Eduardo Campos, candidato à presidência. Ao final, volta-se ao conceito de “má-fé”, tão exaustivamente explicado pelo velho Sartre.

E assim este ensaio começa notando que, mesmo com apenas 9% dos votos, um candidato recebe homenagens póstumas infinitamente maiores do que receberia um ótimo cientista, ou médico, ou policial, ou professor... Noticia-se uma desolação nacional formidável, aparentemente superior a qualquer tragédia que aflija os outros.

Na véspera de sua morte, em entrevista ao Jornal Nacional, foi perguntado ao Eduardo Campos se ele não se constrangia por usar a máquina pública, através da política, para tornar a sua mãe – Ana Arraes – Ministra do Tribunal de Contas da União. Ora, o TCU é um tribunal incumbido de fiscalizar o Estado. Ou seja, seria correto usar a política para dar à própria mãe um cargo vitalício no Tribunal incumbido de vigiar o filho? Aliás, o entrevistador mencionou que Campos havia conseguido também colocar dois parentes no Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco. Ser fiscalizado por parentes não lhe parecia inconveniente? Campos disse que não; que os nomes haviam sido aprovados pelo voto dos deputados.

Um outro fato consolida essa noção de que não vemos mal quando a pessoa é “boa”. Após a queda do avião ter sido noticiada, publicou-se que a Presidente da República havia oferecido um avião (da FAB) à mãe do candidato morto para levá-la a Recife. E então, a mãe desolada viajou ao lado de outro Ministro do TCU, José Múcio. Explicando melhor: a mais alta autoridade do Poder Executivo ofereceu um avião, para que a Ministra que deveria fiscalizá-la fosse ao encontro da família. De quebra, fez favor a outro Ministro, com dinheiro público. Os ministros, comovidos, aceitaram o gesto magnânimo de quem deveriam estar investigando.

Tudo muito diferente do que ocorre na Alemanha, por exemplo: no ano passado, nas férias da Presidente Angela Merkel, o marido, Joachim Sauer, foi de carro encontrá-la na ilha de Ischia, na Itália, porque, para ir no avião presidencial, teria que pagar muito.

Mas vamos voltar aos desastres nacionais. Recentemente uma conhecida capotou com sua caminhonete quando estava transportando queijo da fazenda para a cidade. Em seguida ao acidente, vários carros pararam. Ela havia ficado presa – pedia socorro para sair da cabine. Mas paravam para roubar os queijos. Demorou até que alguém enfrentasse os saqueadores e fosse ajudá-la. Demorou a aparecer esse que – achando a situação absurda – interveio para parar com a roubalheira e auxiliar a vítima.

Situações assim são comuns. Há um tempo a Globo entrevistou saqueadores da carga de um caminhão tombado. Entrevistados no ato de pilhagem, diziam que “todo o mundo estava fazendo isso”; que “a carga estava se estragando e melhor seria se alguém aproveitasse”...

Sartre vem à lembrança quando – guardadas as proporções – faz-se a comparação da maneira de agir dos políticos com esses outros, que se apossam do que parece ser de ninguém. O conceito de má-fé que o Sartre instituiu é muito interessante: a má-fé começa com o sujeito enganando a si mesmo. Começa justificando o injustificável. Parte de uma desculpa esfarrapada. Muita gente "boa" age da má-fé. E, normalmente, não nos damos conta disso. Daí este ensaio.