O Rio Beberibe nasce aqui pertinho do sítio. Mas as nascentes estão secando. O riacho principal já desapareceu em alguns trechos. Passou de “rio perene” a leito seco nos últimos cinco anos. Há uma devastação feroz.
As leis federais, estaduais e municipais são claríssimas: exigem preservação ou, se for o caso, reflorestamento, recuperação ambiental. Nascentes e rios têm que ser preservados. Água é vital. Todo o mundo sabe disso. E a lei consolida essa noção: obriga os governos a cuidarem das águas. A lei obriga, mas os governos ouvem a outros interesses, e não à lei.*
Os governos se omitem totalmente: nem o federal, nem o estadual nem o municipal fazem cumprir a lei. A população completa o cenário jogando lixo por toda parte. Esse é o quadro: de um lado, políticos inescrupulosos, do outro, uma multidão alucinada, interessada talvez em consumir logo alguma coisa, em festejar não se sabe o quê. O esgoto, quando não corre pela rua, passa por uma fossa coletiva e é jogado no riacho.
Fui falar a uns adolescentes; mostrar umas fotos; tentar fazer ver como tinham perdido a possibilidade de tomar banhos no rio. Fui falar sobre a água mineral que brotava ali e que agora tem que ser comprada. A presença não era obrigatória. No entanto, hoje, em muitos momentos, a escola lembra um hospício. Não há a disciplina mínima necessária para construir alguma coisa coletiva. A esperança fica em uns poucos.
Daqui por diante transcrevo trechos da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, divulgada pelo Vaticano no último dia 26 de novembro. São palavras do Papa, que servem ao caso melhor que as minhas:
“O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada.”
“Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria».”
“Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras.”
“Para a ética, olha-se habitualmente com certo desprezo sarcástico; é considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e degradação da pessoa.”
“Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência.”
Enfim, a Exortação do Papa Francisco conforta o meu coração e me traz esperança. E a você, que sentimento traz?
*Código Florestal (Art. 4 e 7). Leis estaduais de Pernambuco, que protegem especificamente essa área (Lei Estadual 9860/86 Arts. 3, 7, 13, 18 e 31; Lei Estadual 11 206/95 Art.9). Na esfera municipal a questão é tratada especificamente. O Plano Diretor de Camaragibe (Lei 341/2007, Art. 8 e 68) estabelece ali uma Zona de Proteção de Manancial, prevendo recuperação ambiental e até mesmo o monitoramento da qualidade da água do Rio das Pacas, nominalmente citado. Para coroar, foi criada a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe pelo Decreto Estadual 34.692/10.
sábado, 30 de novembro de 2013
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