quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
A MORALIDADE DOS FRACOS – EXAMINANDO NOSSOS VALORES
Vai aqui um assunto que parece distante. E passa por Nietzsche, que pode parecer mais distante ainda. No entanto, hoje, muitos agem como se tivessem lido e acatado Nietzsche.
Parecem acreditar que temos a moralidade dos fracos; uma moralidade que diz que são amados por Deus os pobres, os impotentes, os sofredores, os necessitados, os doentes e os horríveis; e invertemos a noção de que “bom” está relacionado a nobre, forte, belo, feliz. Nossa moralidade seria então própria de escravos, baseada na valorização de ações altruístas; úteis, portanto, aos outros e não a nós mesmos.
E os nietzsches de hoje vêem essa nossa moralidade doentia tolhendo a naturalidade dos fortes. Acham que o homem forte está além do bem e do mal, indiferente ao perigo e ao conforto, alegre com a destruição e a volúpia, como um animal selvagem, diferente dos domesticados...
Vêem a “sabedoria” como recurso dos fracos: recurso artificial para sujeitar as pessoas a pesarem cada um de seus atos, contabilizando como “bom” ou “mau” tudo o que fazem, como se houvesse um balanço financeiro ao final, forjando desse modo um sistema que premia a mediocridade em vez de premiar a uns poucos realmente superiores.
Nietzsche via o ressentimento como inerente aos fracos. Achava que o homem forte, sadio, age; ao contrário do fraco, que apenas reage. Em conseqüência, Nietzsche não via distinção entre ressentimento e a indignação que se sente ao ver uma injustiça – para ele, ressentimento e clamor por justiça eram a mesma coisa.
Tudo indica que – se quisermos explicar nossos valores – precisamos distinguir bem o que seja realmente injusto, para que não se confunda com ressentimento, frustração, inveja...
A nossa moralidade entende que todos, inclusive os fortes, querem justiça. A menos que os fortes pretendam viver totalmente isolados, inclusive uns dos outros. É a justiça que permite a coerência, é a justiça que agrega. Sem justiça nenhum grupo persiste, porque não consegue agir de acordo consigo mesmo. Não é o ressentimento que agrega, é outra coisa, diferente: a justiça.
Enfim, me lembro de um filme – acho que foi do Groucho Marx – em que aparecia sobre um fundo negro em letras brancas: “Deus está morto! – Nietzsche.” Na cena seguinte aparecia: “Nietzsche está morto! – Deus”.
Concluindo: parece que Nietzsche nos obriga a ver bem o limite de nossos valores. Esse limite seria a linha que separa justiça de ressentimento.
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P.S. Muita gente no Brasil deve mesmo ter lido Nietzsche. A Alemanha teve interesse nisso. Entre 1886 e 1893 a irmã de Nietzsche (Elisabeth Förster-Nietzsche) e seu marido estiveram no Paraguai, onde fundaram uma colônia ariana anti-semítica (Nueva Germânia). Depois, durante a Primeira Guerra Mundial, o governo alemão imprimiu 150 mil cópias do “Assim falou Zaratustra” e distribuiu entre os soldados.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Pretendia votar no Serra
Parecia natural votar no Serra. Seria um voto pela alternância do poder, sem alterar substancialmente o curso do país. E o Serra era conhecido: “It´s better a devil you know than a devil you don’t know”. Além disso, sendo mineira e vivendo como gaúcha, nada garantia que a Dilma fosse olhar especialmente para o Nordeste.
Então o Serra começou a desqualificar a adversária e, mais do que isso, procurou obviamente assustar o eleitor, enchê-lo de medo, bem nos moldes das campanhas que a extrema-direita conduz nos Estados Unidos. Copiou exatamente, sem tirar nem pôr. Afinal, uma pessoa muito assustada é capaz de votar contra seus próprios interesses. Importou a figura do “terrorista”. Dentro desse quadro, resolveu logo hostilizar os países vizinhos. Nada mais americano.
Pesquisei a biografia do Serra. Em 1973 ele vivia como refugiado no Chile, quando houve o golpe do Pinochet contra o Allende, coordenado pelos Estados Unidos através da CIA. Serra, por ser esquerdista, “Foi preso no aeroporto quando tentava deixar o país com a família, sendo levado ao Estádio Nacional, onde muitos foram torturados e mortos. Um major que o libertou foi posteriormente fuzilado. Serra refugiou-se na embaixada da Itália, ficando como exilado político por oito meses aguardando um salvo-conduto. Partiu depois para os Estados Unidos onde concluiu um segundo mestrado em 1976 na Universidade de Cornell, e ainda o doutorado em Economia na mesma instituição em 1977. (Ver Wikipedia)”
Ocorre que, em 1973, nos EUA, então sob o governo Nixon, os esquerdistas não eram bem-vindos. Afinal, o esquerdista tinha ido logo para os Estados Unidos, exatamente o país que simbolizava a direita. Vale lembrar que, naquela época, o John Lennon, ativista político, cantava “Power to the People” e estava sendo investigado pelo FBI. Procedimentos para sua deportação haviam sido iniciados em 1972. Em 80 foi assassinado.
Enfim, Serra foi recebido e conseguiu ganhar dinheiro justo no território de onde vinha o suposto inimigo dele. Não recebi explicação sobre isso.
E assim a biografia do Serra foi ganhando para mim contornos extravagantes. Apresentava-se como a solução contra a corrupção, embora os partidos com mais deputados cassados fossem, pela ordem, DEM, PMDB e PSDB! DEM e PSDB eram coligados. E veio outra estranheza ainda por cima: a tentativa dele de novamente vincular o estado à Igreja.
Em contrapartida, havia criado o “genérico”, o que seguramente deve ter causado efeitos colaterais na indústria farmacêutica. Coisa de esquerdista mesmo. Enfim, diante desses fatos tão contraditórios, resolvi que anularia o meu voto.
Mantive essa decisão enquanto o Serra foi-se mostrando como uma construção artificial; aparecia sempre com um discurso visivelmente postiço, fazendo pouco da inteligência do espectador. Uma bolinha de papel que recebeu na cabeça, sem sequer lesar a pele, evoluiu para uma tomografia. Mantive a intenção de anular o voto, mas comecei a considerar o PT.
Até que recebi vários e-mails insultando os eleitores da Dilma. Esses e-mails furiosos, surpreendentemente, vinham de pessoas que, até então, durante toda a vida, se haviam mostrado equilibradas e cordiais. Gente doce passou a aparecer com olhar rútilo e uma baba elástica e bovina escorrendo pelo canto da boca. Achei então que o Serra não podia ser do “Bem”: transformava gente normal em possesso, como descrito pelo Nelson Rodrigues. E então, votei na Dilma.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Construindo certezas e dúvidas
Vai aqui uma ruminação sobre nossas certezas. Vista por outro ângulo, trata das nossas dúvidas. Sendo assim, parece razoável começar perguntando, então, se existiria mesmo alguma certeza absoluta. Existem as certezas matemáticas. Mas as certezas matemáticas apenas provam que B = B. A matemática apenas reconhece, faz cair em si, dar-se conta; não traz imagens novas do mundo, apenas arruma o que se sabe.
Do mundo real temos apenas impressões, imagens, fragmentos. Mas então pelo menos temos isso: essa certeza absoluta de estarmos tendo alguma impressão ou sensação. Por exemplo, enquanto aumenta sua febre - mesmo que não esteja frio de fato – o doente sente frio; dessa sensação ele não tem dúvida: sente frio com certeza. Há um outro exemplo, mais ilustrativo talvez: um árabe vê uma miragem, um oásis. Mesmo que não haja oásis algum, aconteceu uma imagem mental, ele tem certeza disso. Com segurança absoluta pode dizer que teve a impressão. Embora não saiba se o oásis existe na realidade.
Nesse caso não se tem certeza absoluta do que está objetivamente ocorrendo. Há uma única certeza absoluta possível: a certeza de que estamos tendo uma impressão. Essa certeza no entanto é insuficiente, resolve pouquíssima coisa. Então, diante da vida, precisamos ter fé, mesmo sem certeza absoluta. E assim, para todos os fins práticos, temos certeza também de partes da realidade, sabemos com certeza de algumas coisas. Podemos apontar para um cachorro e dizer: “Olha o cachorro!”. Se outras pessoas confirmam, ficamos com a certeza de que tanto o cachorro quanto essas pessoas são reais. É uma questão de bom senso. Mas não é tão simples assim, essa certeza vinda do bom senso. Digamos que aquilo que todo o mundo chamou de cachorro fosse um lobo. Um zoólogo esclareceu depois. Parecia cachorro, mas era lobo. Nesse caso o bom senso errou, mas errou por pouco, como acontece frequentemente. Não se consegue escapar dessa imprecisão: tudo o que podemos dizer aos outros é intermediado pela linguagem. O uso, a prática, é que vai dando significado às palavras, assim é que podemos falar apenas daquela parte da realidade sujeita ao uso e, portanto, sujeita à linguagem. E a linguagem introduz confusão. A realidade é explicada sempre através de interpretação, de conceitos, que têm um grau de incerteza. Afinal, por mais uniforme que haja sido o aprendizado dessa linguagem - mesmo havendo todo o mundo estudado na mesma escola - a palavra “corda”, em casa de enforcado, tem outro significado. Nossa comunicação com os outros tem sempre esse grau de ambiguidade, há sempre uma interpretação diferente possível, não só pela conotação, mas até pelo que as palavras denotam. O que é um banquinho para uns pode ser chamado de cadeira por outros, dependendo do tamanho do encosto... E a certeza fica menor um pouco ainda nas previsões. Mesmo que nossa previsão seja baseada em alguma experiência que não tem falhado, é mais incerta que uma constatação presente, por exemplo: “Vem olhar o cachorro amanhã porque ele está sempre aqui”. Provavelmente estará, mas é uma certeza menor do que quando digo: “Olha o cachorro agora!”. O futuro sempre adiciona alguma dúvida. A realidade muda constantemente. Concluindo, antes de tudo, a matemática e a linguagem merecem uma atenção especial, para evitar mal-entendidos. Talvez a maior parte dos nossos erros se deva a mal-entendidos. E, mesmo sem mal-entendidos, podemos ter falsas certezas: acreditar no que não é verdade. Mas há outro erro, possivelmente mais comum: errar por duvidar. Errar por não acreditar no que é verdade. Duvidar é mais fácil que provar. Sempre é possível duvidar de novo, pedir mais provas. Sendo assim, provavelmente erramos mais por não acreditar na verdade do que por acreditar na mentira. Talvez devêssemos rever nossas crenças mas, sobretudo, deveríamos rever nossas descrenças.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O progresso moral e o Arnaldo Jabor
Não conheci o Arnaldo Jabor. Estudou no mesmo colégio, mas é mais velho. Mesmo assim, garanto que cantou o hino nas missas e em outras oportunidades:
Levantai-vos, soldados de Cristo,
Sus! Correi! Sus! Voai à vitória,
Desfraldando a bandeira da glória
O imortal Coração de Jesus.
Cantávamos assim. Naquela época era bom triunfar sobre os outros: sobre as outras religiões, sobre os outros times de futebol, sobre os outros países... Admirávamos os romanos e Napoleão, porque haviam tomado os territórios vizinhos. Assim como admirávamos os americanos, que haviam dizimado os índios e também haviam ocupado com brio e distinção o Texas. Felizmente o Texas havia deixado de ser dos mexicanos trapalhões. Quanto a nós, havíamos vencido os paraguaios. Éramos bons por isso.
Aprendia-se que era bom caçar, que havia glória em matar animais por puro prazer. Atirei em uma coruja uma vez, para nada. Depois olhei bem para ela, morta no chão, despedaçada; e fiquei perguntando a mim mesmo por que havia feito aquilo.
Aprendemos muito na Bíblia, no Antigo Testamento, que serve tanto a cristãos como aos judeus. Por exemplo, Javé (Deus) diz a Moisés (Números 31;1): “Execute a vingança dos filhos de Israel contra os madianitas”. Realmente, foi uma vingança e tanto. Esses madianitas sumiram do mapa – ninguém mais ouviu falar deles. O genocídio, a pedofilia, tudo era normal. Depois de haver derrotado o inimigo, Moisés diz (Números 31;17): “Agora portanto matem todas as crianças do sexo masculino e todas as mulheres que tiveram relações sexuais com homens. Deixem vivas apenas as meninas que não tiveram relações sexuais e elas pertencerão a vocês”.
Vim para Pernambuco aos 26 anos e ouvi o hino daqui, que diz: “Nova Roma, de bravos guerreiros”. Guerreiros. Tudo remetia o pensamento para a guerra. Contra os holandeses, contra o cangaço.
Mas, todos esses ensinamentos foram recentemente questionados na América. De uns cinqüenta anos para cá - não mais que isso - resolvemos mudar um pouco o discurso e talvez, quem sabe, até a prática. A idéia agora é ajudar o outro a viver, em vez de matar, como era recomendado. A vitória, o triunfo, acontecem agora em campos mais abstratos.
Intimamente, no entanto, muita gente não acredita que essa história de amor ao próximo seja viável. O homem é o mesmo. A ética, os costumes, a política, tudo isso vem do homem, que é o mesmo. O socialismo falhou por essa razão. O Arnaldo Jabor, então, pretende voltar às boas e velhas crenças. Pau no inimigo!
Contra o Jabor fica talvez o Sartre – já meio esquecido – dizendo que o homem é o único ser que existe antes de saber a que veio, o que veio fazer. Somos obrigatoriamente livres. E temos de escolher quem vamos ser; não podemos escapar dessa escolha. E assim, o progresso moral é possível – o homem pode mudar. É livre para ser o que bem quiser.
Podemos apenas fingir que não somos livres, e isso seria má fé. O progresso moral é possível. E já parecemos melhores do que éramos no Antigo Testamento. Ou não?
quinta-feira, 1 de julho de 2010
QUE LIBERDADE SE DESEJA?
É meio arriscado tentar definir o que seja liberdade, no campo da ciência política. Talvez até não caiba mesmo uma definição exata, e seja melhor configurar apenas uma noção. E essa noção de liberdade viria então de admitir que:
1. A diferença entre um tirano e um homem de boa vontade é que o tirano tem sempre a certeza de seus objetivos, enquanto o homem de boa vontade, a cada passo, pergunta a si mesmo: "isso que estou fazendo, realmente contribui para aumentar a liberdade das pessoas"?
2. O amor à liberdade é um amor ao outro; o amor ao poder é um amor a si mesmo. Se alguém diz que quer liberdade para si e não se importa com os outros, então não quer liberdade, quer poder;
3. A única liberdade de que eu falo é uma liberdade ligada à ordem, que não apenas perdura em um ambiente de ordem e virtude; mas não existe de forma alguma sem isso. Em outras palavras, para que se tenha liberdade, é preciso restringí-la.
Essas três referências à liberdade devem-se respectivamente a Simone de Beauvoir, Hazlitt e Burke. Acredito que, juntas, sejam suficientes.
Tem sido comum definir liberdade (“liberdade negativa”) apenas como sendo ausência de barreiras, ausência de impedimentos, de coerção; uma vez definida assim, no entanto, acaba dando abrigo a tudo. Essa “liberdade”, com essa amplidão toda, serve a qualquer propósito, inclusive à coação. Não permite mais distinguir o razoável do absurdo.
E uma questão crucial em ciência política é justamente distinguir em que casos a intervenção do estado protege a liberdade do indivíduo, e em que casos prejudica essa liberdade. As situações retratadas abaixo ilustram bem isso:
1. Se um guarda bloqueia uma estrada porque uma ponte caiu, está prejudicando a liberdade de ir e vir do cidadão? Provavelmente, não;
2. Mas, e se a polícia tira de casa, pelo uso da força, uma família que teima em ficar em uma encosta com risco de desabamento? Há, no caso, interferência abusiva do estado na vida do cidadão? Talvez.
3. Nas disputas entre cidadãos, por exemplo, entre produtores e consumidores, em que casos o estado deve intervir? O produtor deve ser livre, por exemplo, para vender comida contaminada sem que o consumidor comum se dê conta? O estado não teria nada a ver com isso?
Enfim, não há como generalizar: às vezes o Estado deve intervir em maior grau, ou em menor, em nome da liberdade. Às vezes não deve intervir. A liberdade exige, antes de tudo, consideração. E amor ao próximo. E respeito à ordem.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
CRISTÃOS, MUÇULMANOS, JUDEUS, FUTEBOL E O TEMPO
O tempo muda a compreensão. Muda a maneira de ver, talvez porque toda compreensão seja forçosamente preconceituosa, e assim, mesmo que não se perceba novidade alguma na narrativa, se os conceitos mudaram, fica-se então com uma impressão diferente.
Algumas vezes, contando de novo a mesma história, os nomes usados mudam, ainda que designem a mesma coisa. O que hoje chamamos “islâmicos”, chamávamos de muçulmanos, maometanos, islamitas ou, antes disso, de mouros, de sarracenos. Quando invadiram a Península Ibérica eram mouros. Nas Cruzadas, eram sarracenos.
Convido então o leitor a rever rapidamente a sua compreensão do que tenha sido a Primeira Cruzada. Como esses fatos aconteceram pouco antes do ano 1100, vai aqui um auxílio à memória: um resuminho de acontecimentos que estão registrados tanto em documentos do mundo cristão como do mundo maometano, de modo que se presume representarem a verdade.
Os cristãos e os judeus viviam em Jerusalém sob o domínio benevolente dos muçulmanos; aliás, notavelmente benevolentes. Tanto assim que haviam reconstruído para os cristãos um templo no Santo Sepulcro, com capacidade para oito mil pessoas. E havia a sinagoga. Judeus e cristãos conviviam em paz sob o domínio fatimida (islamitas descendentes de Fátima, filha de Maomé).
No entanto os turcos tomaram Jerusalém e, sob o governo turco, os cristãos passaram a ser perseguidos. Reagindo a isso, o Papa Urbano II insuflou os fiéis a tomarem o Santo Sepulcro. Fez, em francês, um discurso de influência relevante na história medieval - em conseqüência dele diversos interesses foram ajustados e a Primeira Cruzada foi tomando corpo.
Ocorreu que, nesse intervalo, em que se arregimentavam soldados, os fatimidas reconquistaram Jerusalém. Judeus e cristãos voltaram a ser bem tratados. Não havia mais o motivo inicial, mas uma máquina da guerra não se detém facilmente e assim a marcha da Primeira Cruzada prosseguiu, para libertar o Santo Sepulcro já liberto.
Em junho de 1099 cerca de doze mil combatentes cristãos chegaram diante dos muros de Jerusalém, então defendida por uma guarnição de mil fatimidas. Fracassadas as negociações, seguiu-se a batalha, que durou 40 dias. Os cruzados venceram. Segundo um relato eclesiástico posterior “coisas admiráveis se verificaram. Numerosos muçulmanos foram decapitados... outros torturados por vários dias e depois queimados... Nas ruas viam-se pilhas de cabeças, mãos e pés. Andava-se por toda parte por entre cadáveres de homens e cavalos”. Outras fontes contam sobre mulheres mortas a punhaladas. Crianças arrancadas do colo das mães e jogadas muralha abaixo. A matança de cerca de 70 mil sarracenos a fio de espada estendeu-se por 24 horas. Os judeus sobreviventes foram refugiar-se na sinagoga, onde terminaram queimados vivos.
No jogo entre Inglaterra e Argélia, havia torcedores ingleses fantasiados de cruzados.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Contradições obrigatórias
O vídeo por si só bastaria. Mostrava o Lula – que se contradizia em trechos recortados, ora apoiando, ora denunciando o Sarney.
O título do vídeo era “Canalha”. E o texto do e-mail vinha xingando mais. Eram aditivos ao “Canalha”, porque os títulos dos vídeos são curtos e, tudo indica, o caso exigiu um xingamento complementar.
Contudo, analisando melhor, o vídeo mostra mais do que se vê à primeira vista. Para ver mais coisas nas contradições do Lula vamos, temporariamente, examinar outra contradição, que aconteceu em um programa de auditório, do Ratinho.
Primeiro, um pastor falou contra a nova legislação, que protege o relacionamento homossexual. Se dois gays - o pastor disse - começassem a se beijar na igreja, ele não poderia interromper: seria processado por danos morais, por discriminação... Se, no entanto, advertisse um casal heterossexual, não seria nem mesmo criticado. Assim ficava evidente, com esse exemplo, que haviam conferido aos gays mais direitos que aos heterossexuais. Gesticulando furioso, o pastor praticamente mandou para o inferno essa lei, que dava privilégios ao pecado. O auditório aplaudiu entusiasticamente.
Depois, veio a autora da lei. Disse o contrário. Desancou o pastor, fez pouco de sua mentalidade, disse que era retrógrada; e também foi aplaudida entusiasticamente...
Em resumo, esse auditório – e os eleitores não são muito diferentes - aplaude deus e o diabo com igual empenho. Um povo assim, incoerente, exige incoerência. Está no espírito da democracia representativa. O absurdo é obrigatório; é exigido pela lei.
A política não faz, apenas permite que se faça. Em uma democracia representativa, o político não pode obrigar a população a ser o que não é. O vídeo mostra isso também. Estamos em uma democracia paradoxal.
Um outro fato, que foi muito contado na família, ilustra por contraste. Deu-se em outro ambiente, não-democrático. O meu avô era militar e comandava um destacamento na fronteira do Paraguai. E havia lá um sargento que batia na mulher. E ela gritava muito durante a noite, de modo que não se conseguia dormir. Farto disso, o meu avô mandou prender o sargento. Uma semana encarcerado. Acontece que, não demorou muito, e apareceu a mulher: queria falar com o comandante. Queria que soltasse o seu marido. “Mas ele bate na senhora”, o meu avô argumentou. E ela reagiu: “Eu sou mulher dele e ele bate quanto quiser”. Foi presa também. Em outra cela. Democracia zero!
quarta-feira, 12 de maio de 2010
ESQUERDA, DIREITA E CENTRO
Vai aqui um resumo: uma tentativa meio escolar de resgatar o significado do que seja esquerda, direita e centro. Os nomes não dizem muito. Que desejo, que tipo de pensamento prevaleceria em cada uma dessas facções?
Tudo indica que reconhecemos três tipos de mentalidade partidária: os da esquerda, que pregam a igualdade; os da direita, que glorificam a liberdade e, finalmente, outros, de centro, que querem harmonia.
Há um conflito latente entre essas três coisas: igualdade, liberdade e harmonia; aumentando-se uma, a outra diminui. Quem quer muita liberdade não está muito preocupado com harmonia. Quem quer harmonia, não quer extinguir as diferenças.
Possivelmente a maior divergência está entre querer igualdade e querer liberdade.
Havendo liberdade, é natural que não haja igualdade. Com liberdade, os mais interessados, ou talvez mais fortes, ou talvez os mais habilitados, comandam. Em seqüência, tendo conquistado alguma vantagem, o mais forte, absolutamente livre, aproveita-se dessa vantagem para, através dela, obter mais outras. Assim, a desigualdade tende a crescer sempre. Com liberdade absoluta, ainda que todos progridam, o poder dos mais fortes sobre os mais fracos tende a aumentar persistentemente.
Se o ideal for apenas esse – liberdade - caso não haja alguma restrição à liberdade individual, aumenta-se a desigualdade mais e mais, até que haja alguma ruptura.
Retomando então, haveria três tipos de impulso político: o que prega a igualdade, o que prega a liberdade e o que prega harmonia.
E o que mais se poderia dizer sobre cada personalidade: a que prega igualdade, a que prega liberdade, e a que prega harmonia?
Interpretando positivamente, admitindo que todos têm boa vontade, então, quem prega a igualdade estaria movido por qual sentimento? Pela compaixão, talvez. E quem prega a liberdade? Quem sabe, estaria movido pelo desejo de progresso. E quem prega a harmonia, faria isso porque deseja concórdia.
Por outro lado, interpretando negativamente, isto é, suspeitando de que os desejos políticos são perversos, então, quem diz querer igualdade na verdade estaria só com inveja. E quem diz querer liberdade, estaria sendo movido pela truculência. E quem diz querer harmonia pode ser acusado de querer mediocridade. Mas não sejamos pessimistas.
Acreditando na boa vontade, apostando em que o ser humano é capaz de bons propósitos, do que precisamos mais agora, nesse momento, nessas circunstâncias: compaixão, progresso ou concórdia?
domingo, 25 de abril de 2010
VIVAM COMO DESESPERADOS!
“Viva o presente; a vida é hoje!”. Circulam pela Internet um monte de mensagens nessa linha.
E no entanto não é isso o que se recomendava há uns cinqüenta anos. A civilização Ocidental ensinava que havia um futuro, que cada um fazia parte de instituições maiores, como a pátria; que cada um prolongaria sua existência através das gerações futuras, herdeiras de um mundo legado por nós: “Roma não foi feita em um dia. Devagar se vai ao longe. Calma, que o Brasil é nosso.”
Pouco depois da queda do Muro de Berlim conversei com uma canadense que havia estado no lado oriental; foi no início da década de 90. Ela me disse que ficou impressionada com o fato de eles viverem para a festa do dia. No máximo pensavam em uma roupa para o dia seguinte. Ninguém estava construindo uma casa ou tinha um projeto para mais adiante. “Vivem como desesperados” ela disse. “Um povo assim não pode ter futuro, vivem como desesperados”.
Não é de admirar que as drogas tenham um apelo forte, se a juventude é ensinada a viver como se não existissem conseqüências. Ensinada a viver desconsiderando a ressaca; desconhecendo a História; sem esperar, ou seja, em desespero...
Nem as civilizações mais desapegadas ao mundo material vivem assim. Substituem o plano material por outro, espiritual; mas acreditam haver um sentido para o que se faz, não acham que tudo se reduza ao presente.
Existem guerras, vulcões, terremotos, a morte... Tudo isso sempre ameaçou o futuro, mas ensinava-se a ser corajoso, a ter fé.
O “Seja forte!” foi substituído por “Somos uns coitadinhos”. Parece que estamos indo de um extremo ao outro, de uma vida sempre adiada para uma vida desesperada.
terça-feira, 20 de abril de 2010
A IMPORTÂNCIA RELATIVA DOS VULCÕES
São comuns esses casos, em que a realidade não tem importância. O vulcão Chaitén, por exemplo, depois de estar inativo por 9.500 anos, despertou em maio de 2008. Jogou um monte de gases e partículas a 15 km de altura; encheu cidades chilenas e argentinas de cinza vulcânica. Afetou os vôos também. Poucos souberam. Ninguém ligou.E parecia ter o mesmo destino esse outro vulcão, na Islândia, já ativo há um mês, sem que ninguém visse nem ouvisse nada sobre ele. Talvez só o Paulo Coelho seja capaz de explicar encantamentos assim, que tornam invisíveis coisas desse tamanho.Mas, quando a Europa se enche de fumaça, então esse encanto se quebra, o vulcão se torna visível e pessoas normais dizem o seu nome, embora com algum esforço.Mais mágico ainda foi que, estando os vôos cancelados por conta da fumaça, anunciou-se que tudo voltaria ao normal no domingo passado. Algum mago inferior deve ter previsto isso. Falhou. O vulcão insistiu em mandar fumaça no domingo e na segunda. Quer mágica mais difícil do que abafar um vulcão em erupção?Daqui do sítio fica a impressão de que o vulcão não faz parte do sistema. Não aceita acordos. Nem a Míriam Leitão sabe o que ele vai fazer. Fica então a pergunta: que diabo de sistema é esse que não leva em conta realidades do tamanho de vulcões?
domingo, 14 de março de 2010
SOCIALISMO E EQUÍVOCOS
A palavra “socialismo” significa coisas bem diferentes para cada um. Então, para evitar equívocos, vamos acatar aqui a definição comum de “socialismo”: uma teoria de organização da sociedade em que os meios de produção, distribuição e troca são possuídos ou regulamentados pela comunidade como um todo. O dicionário de Oxford define socialismo assim.
Ou seja: “socialismo” não implica em abolir a propriedade privada nem tampouco em distribuir a renda para atender às necessidades dos cidadãos. Isso seria comunismo, uma teoria derivada do Marxismo.
Aceitando, portanto, a definição do dicionário de Oxford, todos os países desenvolvidos são, hoje, em algum grau, socialistas. Em outras palavras, nos países como EUA, França ou Japão, uma parcela das funções de produção, distribuição e troca é regulamentada ou é assumida diretamente pelo estado.
Hoje, dificilmente um país funciona sem regulamentação, por exemplo, dos serviços públicos. Nos EUA agências do governo regulam as comunicações, a fabricação e venda de alimentos e remédios e a aviação (respectivamente a FCC, FDA e FAA).
Dificilmente se admitiria atualmente que a iniciativa privada comprasse aviões e voasse para onde bem quisesse sem dar satisfação a ninguém. E que país permite que uma pessoa construa uma estação de TV e passe a transmitir sem cumprir norma alguma?
Quando o governo é sócio controlador de uma empresa, temos então um caso mais forte de socialismo - como acontece com a GM nos EUA e a Petrobrás no Brasil - exemplos de socialismo dentro do capitalismo.
Então se, por um lado, desejamos limites para a iniciativa privada, por outro lado, pouquíssimos querem o socialismo absoluto, isto é, pouquíssimos querem que o governo seja dono de todos os meios de produção, distribuição e troca. Quantos hão de querer que o governo seja o dono de todas as padarias e supermercados, de todas as estações de TV, de todas as fabricas de remédios e alimentos?
Acredito que a maioria advogue a existência de empresas privadas competindo com regras sadias; cabendo ao estado regulamentar e até mesmo empreender em alguns casos especiais. Capitalismo com um pouco de socialismo. Aliás, isso é o que existe no mundo real, nos EUA, na Europa...
Pela falta de um vocabulário comum as discussões sobre “socialismo” acabam criando desentendimentos vazios; discussões em que se produz muito calor e pouca iluminação.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Pontos fracos do capitalismo
Recapitulando, quem haveria de dizer que o Greenspan – por muitos anos chairman do Federal Reserve, uma espécie de arcanjo do sistema financeiro mundial - viria a ser favorável à nacionalização dos bancos? Ou que o falecido Milton Friedman, papa do monetarismo, prêmio Nobel em economia em 76, iria ser lembrado por haver recomendado que, em crises como a de 2008, se distribuísse dinheiro "de helicóptero" para a população?
Assim é que, depois de ler o Finacial Times, o WSJ, Bloomberg etc. por um tempão, sem qualquer propósito prático em vista, vai aqui um resumo dos pontos fracos do capitalismo, percebidos daqui do sítio:
1. É falsa a presunção de que os interesses das empresas coincidem sempre com os interesses das pessoas. Por exemplo, tome-se a indústria farmacêutica: o interesse dela é, obviamente, que haja mais doentes e não que a população seja toda saudável. Ou tome-se o caso da indústria de defensivos agrícolas, que não vive sem as pragas. Ou ainda a indústria bélica, que não vive sem as guerras. Não se espera que as pessoas desejem as doenças, pragas ou guerras, assim como querem essas empresas. Em algum ponto, portanto, os interesses das pessoas divergem dos interesses das empresas. O capitalismo dificulta a ação política nesses casos, porque há dinheiro para corrupção.
2. O Estado não pode ser visto como incompetente. Ao mesmo tempo em que o capitalismo desqualifica o Estado e o tacha de incompetente para produzir, designa, a esse mesmo Estado - trapalhão - as tarefas de vencer as guerras, legislar, julgar, controlar a moeda e conter o crime. Ou seja, o Estado - incapaz de produzir para o mercado - é capaz no entanto de dar conta de tarefas muito mais difíceis, como vencer as guerras, manter a moeda, conter o crime... Isso pareceu muito esquisito, visto daqui.
3. A distinção entre público e privado fica impossível no caso específico de algumas grandes empresas. Então, o roubo torna-se semelhante à ação legítima; não há lei que possa distinguir claramente um do outro.
Primeiro, existem os monopólios naturais como, por exemplo, o caso do fornecimento d’água. Dificilmente haverá vários canos d’água, de várias empresas, chegando a cada casa. Nesses casos, todas as vantagens que a competição traz são perdidas. O monopólio natural explorado por particulares terá tanto envolvimento com o Estado, que pouco se diferenciará do próprio Estado.
Segundo, existem as grandes empresas, que naturalmente se associam aos governos de seus países para vencerem concorrentes estrangeiros. São casos como o da indústria do petróleo, em que o ganho de escala de produção determina de quem é o mercado. Por exemplo, a Halliburton, empresa ligada ao então vice-presidente Cheney, foi chamada pelo governo dos Estados Unidos para reconstruir o Iraque, como se fosse uma estatal.
Finalmente há também o caso de "empresas grandes demais para falirem", que estão imunes ao risco, porque o governo não tem alternativa senão socorrê-las se estiverem mal. O exemplo pior foi o que se teve com o dinheiro injetado no sistema financeiro dos países desenvolvidos. Mas a GM é também um exemplo disso; foi nacionalizada: o governo dos Estados Unidos tem 60% das ações da empresa, o governo canadense, 12,5%; 17,5% pertencem ao plano de saúde do sindicato dos trabalhadores.
4. O capitalismo não sabe conviver com a fartura, porque o lucro tende a zero quando o mercado está plenamente abastecido. Sendo assim, as empresas naturalmente criam “necessidades”, que não são necessidades das pessoas, são do mercado. Essas “necessidades” inventadas pelo mercado têm malefício duplo: enlouquecem as pessoas e esgotam o meio ambiente. Por exemplo: que necessidade há de trocar de celular freqüentemente?
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
EDUCANDO SEM PUNIR: AMOR EM VEZ DE JUSTIÇA
Bater nos filhos vai se tornar ilegal no Brasil.
Mas como não recorrer à força física se o menino não obedece em momentos críticos? Se, por exemplo, um menino bate no irmão menor e continua batendo, mesmo diante do protesto dos pais?
O uso de castigos corporais, como a palmatória, ainda é permitido nas escolas de 20 estados americanos e também ainda é permitido na França. Foi proibido nas escolas públicas do Reino Unido só em 1987 e nas escolas privadas em 2003. Foi proibido no Canadá em 2004.
Enfim, tudo indica que o mundo ocidental caminha para um ideal – talvez desastroso - de educar sem punições de qualquer tipo, muito menos punições físicas. Acredito que isso é ruim: a punição faz parte de todos os jogos da vida. O índio que anda distraído pela mata é punido naturalmente quando pisa em um formigueiro. A educação sem punição educa para uma vida que não existe; e nem pode existir. A vida pune naturalmente e a educação deve ter a realidade em conta. Desconsiderar o que existe não parece sensato.
Ainda que não usar a força física seja indicado para a grande maioria das crianças durante quase todo o tempo, ninguém desconhece que há meninos e meninas capazes de atacar fisicamente os pais, ou os professores; e há ainda um número maior capaz de debochar, insultar, enfim, fazer da casa onde mora ou da sala de aula lugares insuportáveis. Esses, não se sujeitam a palavras, só a ações. E para eles o castigo imediato não só é justo como absolutamente necessário. A força tem que ser usada para deter a violência, do contrário a violência reina.
O Jim Rawls, em sua teoria tão elogiada, diz que a justiça está para as instituições sociais assim como a verdade está para o pensamento. O pensamento busca a verdade e, da mesma forma, as sociedades buscam a justiça. Ultimamente, em vez de buscarmos a justiça, temos dito preferir o amor. Parece que esse amor assim gorduroso, acaba ocupando o espaço da justiça...
Li o comentário de um islâmico atribuindo ao cristianismo uma aversão fundamental à justiça entre os homens, decorrente da idéia de que não se deve julgar, que se deve sempre perdoar. E ele argumenta que o fato de Jesus – um inocente – ter sido sacrificado para livrar os pecadores, já isso em si não é justo. Acusa o amor Cristão de ser incompatível com a justiça... Talvez em alguns casos seja mesmo.
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