quinta-feira, 24 de junho de 2010
CRISTÃOS, MUÇULMANOS, JUDEUS, FUTEBOL E O TEMPO
O tempo muda a compreensão. Muda a maneira de ver, talvez porque toda compreensão seja forçosamente preconceituosa, e assim, mesmo que não se perceba novidade alguma na narrativa, se os conceitos mudaram, fica-se então com uma impressão diferente.
Algumas vezes, contando de novo a mesma história, os nomes usados mudam, ainda que designem a mesma coisa. O que hoje chamamos “islâmicos”, chamávamos de muçulmanos, maometanos, islamitas ou, antes disso, de mouros, de sarracenos. Quando invadiram a Península Ibérica eram mouros. Nas Cruzadas, eram sarracenos.
Convido então o leitor a rever rapidamente a sua compreensão do que tenha sido a Primeira Cruzada. Como esses fatos aconteceram pouco antes do ano 1100, vai aqui um auxílio à memória: um resuminho de acontecimentos que estão registrados tanto em documentos do mundo cristão como do mundo maometano, de modo que se presume representarem a verdade.
Os cristãos e os judeus viviam em Jerusalém sob o domínio benevolente dos muçulmanos; aliás, notavelmente benevolentes. Tanto assim que haviam reconstruído para os cristãos um templo no Santo Sepulcro, com capacidade para oito mil pessoas. E havia a sinagoga. Judeus e cristãos conviviam em paz sob o domínio fatimida (islamitas descendentes de Fátima, filha de Maomé).
No entanto os turcos tomaram Jerusalém e, sob o governo turco, os cristãos passaram a ser perseguidos. Reagindo a isso, o Papa Urbano II insuflou os fiéis a tomarem o Santo Sepulcro. Fez, em francês, um discurso de influência relevante na história medieval - em conseqüência dele diversos interesses foram ajustados e a Primeira Cruzada foi tomando corpo.
Ocorreu que, nesse intervalo, em que se arregimentavam soldados, os fatimidas reconquistaram Jerusalém. Judeus e cristãos voltaram a ser bem tratados. Não havia mais o motivo inicial, mas uma máquina da guerra não se detém facilmente e assim a marcha da Primeira Cruzada prosseguiu, para libertar o Santo Sepulcro já liberto.
Em junho de 1099 cerca de doze mil combatentes cristãos chegaram diante dos muros de Jerusalém, então defendida por uma guarnição de mil fatimidas. Fracassadas as negociações, seguiu-se a batalha, que durou 40 dias. Os cruzados venceram. Segundo um relato eclesiástico posterior “coisas admiráveis se verificaram. Numerosos muçulmanos foram decapitados... outros torturados por vários dias e depois queimados... Nas ruas viam-se pilhas de cabeças, mãos e pés. Andava-se por toda parte por entre cadáveres de homens e cavalos”. Outras fontes contam sobre mulheres mortas a punhaladas. Crianças arrancadas do colo das mães e jogadas muralha abaixo. A matança de cerca de 70 mil sarracenos a fio de espada estendeu-se por 24 horas. Os judeus sobreviventes foram refugiar-se na sinagoga, onde terminaram queimados vivos.
No jogo entre Inglaterra e Argélia, havia torcedores ingleses fantasiados de cruzados.
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