terça-feira, 25 de outubro de 2016
A FALTA DE ÉTICA DO “NÃO JULGUEIS”
“Não julgueis e não sereis julgados” (Mateus 7:1). Não julguem e vocês não serão julgados. A idéia é escapar do julgamento.
Aliás, a palavra julgar (krino) em grego também quer dizer condenar. “Não julgueis” quer dizer “Não condeneis”. Ou seja, a Bíblia recomenda um acordo: não condene e assim você não será condenado. E essa recomendação vem encontrando grande receptividade no Brasil.
O Estado e o povo brasileiros seguem juntos esse trecho da pregação cristã. Não se julga ninguém, ou seja, não se condena ninguém. Não parecem seguir o restante dos ensinamentos bíblicos, mas esse, em particular, de não condenar ninguém, seguem com devoção.
Por todos os meios o povo brasileiro evita condenar: reconduz pelo voto os que roubaram.
Pouquíssimas pessoas são condenadas por seus pares dentro do Executivo ou do Legislativo. E mesmo nos nossos tribunais de justiça os julgamentos vão sendo adiados: protelados ad nauseam.
Resta a pergunta: não julgar é bom mesmo? Bom para quem?
Não é preciso ter juízo? O juízo serve para julgar. Temos juízo para distinguir, para constatar que há diferenças. E julgar um ato, julgar alguma coisa, muitas vezes envolve - indiretamente ou diretamente - julgar uma pessoa. Normalmente, ao emitir qualquer opinião corremos o risco de agradar ou desagradar. Isso é ruim?
Sem admiração e sem condenação não há Ética. A Ética justamente procura distiguir o ato admirável do ato condenável. Se não há admiração, se não há condenação, não há Ética.
Aliás, sem juízo não há Estética também, que a Estética resulta de julgar feio ou bonito. Se tudo é igualmente feio ou igualmente bonito, para que juízo estético?
Conclusão: o ambiente civilizado – notadamente o ambiente democrático – é reconhecido pela existência de valores éticos (e estéticos também). Quem tem ética sabe quando deve julgar; quando deve condenar, quando deve elogiar. Não julgar, não ser julgado, pode ser bom, mas para uma minoria.
NOTA: Apesar da boa vontade e do máximo empenho, a condição humana nos impede de termos certeza absoluta de nossos juízos. Como reconhecem os anglo-saxões, apenas podemos dizer que não há dúvidas razoáveis quanto ao que estivermos afirmando (o que estaria então "Beyond a reasonable doubt").
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