sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A CLASSE MÉDIA, MARX E AS ABELHAS.

A classe média vem sendo dizimada praticamente em todo o Ocidente. Uma teoria para explicar a razão disso é que a burguesia está desaparecendo porque o avanço da tecnologia e a globalização têm roubado os empregos que antes cabiam a ela. Com o progresso, as máquinas fazem o trabalho e os homens ficam ociosos. Será mesmo?

Um artigo publicado no jornal inglês The Guardian (Suzanne Moore, 28/08/2013) aponta o Brasil e a Turquia como raros lugares em que a classe média protesta nas ruas: no resto do mundo vai morrendo sem espernear. O artigo afirma mais: a ideologia que sustenta a classe média está desaparecendo com ela. Sobriedade, autocontrole, trabalho árduo, honestidade, patriotismo, são valores que, então, vão sendo derrotados, desacreditados. Os novos valores passam a ser ganância, ostentação, arrogância, desonestidade. É o que funciona, é o que se vê, é o que dá resultado imediato.

O diabo é que, em um cenário assim, Marx se ergue do túmulo cheio de razão. Ele previa uma “ditadura do proletariado”, último passo antes de se chegar a uma sociedade sem classes, sem o Estado. E assim, sem a burguesia, meia dúzia de milionários ficam diante da massa esfomeada. Isso não é novidade na história. Sem a classe média, o Estado se desagrega, fica difícil existir paz social.

Então, Marx previu bem? Ele sempre afirmou que o Estado tem o único propósito de servir como instrumento de poder(1). Entendia que a classe média não quer o poder, quer apenas proteção para a família, para a propriedade. Assim, o Estado serve ao capital e, em troca, garante a vida tranquila da classe média. Por isso, Marx acreditava que a melhor forma de governo seria aquela que precipitasse o fim do Estado, porque nunca acreditou que o Estado pudesse proporcionar justiça ou o bem comum, como propunham os filósofos gregos.

Vale lembrar que Aristóteles, ao contrário do Marx, valorizava o papel da classe média: dizia que a virtude está no meio-termo, longe dos extremos. Achava que a classe média promove o bem comum na medida em que valoriza a razão; enquanto os muito ricos e os muito pobres, por via-de-regra, apenas seguem seus desejos e instintos.

Enfim, o fantasma do Marx tem opositores mais velhos quando vem assombrar a classe média. De qualquer forma, esta ruminação é para os burgueses. Proletariado, em geral, não lê coisa que leve a refletir. E quem está no poder, normalmente, também não.

A única saída para a classe média continuar a existir parece ser a volta da honestidade, da justiça, da coragem, da moderação. A força que a classe média tem seria moral, aliás, só pode ser moral. Essa é a ideia que se defende aqui: que a força viria da ética.

Por outro lado, não há saída para a burguesia se não houver um Estado que garanta uma ordem, que recompense os valores praticados. Afinal, quem é honrado só obtém resultados em um ambiente honrado. A moralidade tem que ser, antes de tudo, um sentimento ligado à prática.

Fica então a pergunta: como a força moral acabaria construindo e consolidando um Estado decente? O argumento é clássico(2): as abelhas não se unem para fazer o mel; fazem o mel porque estão unidas. Primeiro os valores, a ética, depois os resultados. Como se vê, a saída para a classe média tem poucas garantias - mas existiria outra?

(1) A Teoria das Formas de Governo - Norberto Bobbio Ed Univ. de Brasília pg 164
(2) De Officiis - Cicero Liber Primus [157]