Em 1930 Miguel de Unamuno escreveu uma novela de umas 45 páginas - “San Manuel Bueno, mártir”. A Igreja Católica baniu o livrinho; listou no “Index librorum prohibitorum”. A história é sobre um padre que vivia em uma aldeia, na Espanha. Era um sujeito boníssimo. Ajudava, dava atenção aos necessitados. Não podia ver alguém sujo, esfarrapado: providenciava logo ajuda. Não acusava ninguém. Pregava que ninguém falasse mal dos outros. Perdoava tudo. Não queria ninguém desocupado, pensando. Providenciava sempre atividade, constante. E era amado por todo o mundo. Quando falava, todos pareciam hipnotizados.
Acontece que um rapaz - que havia saído da Aldeia para morar nos Estados Unidos - volta. E começa a contestar a posição da Igreja, a achar que a fé não fazia sentido, que a população vivia pobre e iludida. E conversava sempre com o padre sobre isso. Enfim, o padre lhe confessa que não acreditava também, mas que só com a fé a população viveria feliz. Iludia os outros para que vivessem tranquilos. O rapaz então se comove e passa a agir como o padre. Passa a crer também que deve dedicar a vida a fazer com que os outros acreditassem em Deus e assim vivessem felizes.
Há no entanto alguma falsidade nessa novela. Faz o leitor deduzir que a falta de fé é natural. Faz o leitor acreditar que, evidentemente, Deus não existe. Induz o leitor pensar que – de alguma maneira - o padre sabia que Deus não existe.
Como se fosse óbvio que Deus não existe. Como se fosse fácil entender que – em vez de Deus - a matéria sempre existiu, não foi criada. Mas como assim, “a matéria sempre existiu”?
Para explicar melhor essa questão, vai aqui primeiro uma rápida notícia sobre nossa precária noção do que seja o tempo. Ou seja, vai aqui uma evidência de que não compreendemos bem o que seja o tempo. A noção de “sempre” é portanto absolutamente fora de nossa compreensão.
Os relógios nos satélites do GPS devem andar 38 microssegundos mais rápido por dia que os nossos aqui na Terra. Se não for assim, darão um erro que cresceria 10 km por dia no geoposicionamento. Acontece que o tempo lá em cima passa mais depressa porque está mais longe do centro da massa terrestre (embora isso seja atenuado pela velocidade do satélite em relação a nós). Ou seja, a Teoria da Relatividade tem essa aplicação prática: nos permite calcular o que os nossos sentidos não têm como perceber. A percepção do passar do tempo que os nossos sentidos têm é desastrosamente precária.
Vivemos então uma época em que só tomamos como verdade o que for cientificamente comprovado. O que não for cientificamente comprovado tem sido jogado em uma vala comum, como se todas as opiniões tivessem o mesmo peso, merecessem a mesma credibilidade. E essa credibilidade beira o zero. Para agravar o descrédito, as “verdades” científicas podem ser compradas. Só os bobos acreditam. Os espertos, os inteligentes, não confiam para não serem enganados.
Será isso mesmo? Diante da dúvida, não acreditar é mais inteligente? Quanto desperdiçamos por não confiar no que afinal era verdade? Quanto perdemos por desconfiar?
Não se trata aqui de uma apologia à fé cega, mas da importância de uma aposta inicial, um crédito, seguido de atenção, em uma procura por entender bem em que se está acreditando.
Enfim, é mesmo possível viver sem confiar em ninguém, sem acreditar em nada, muito menos em Deus? A sensatez nos levou a isso?
quarta-feira, 5 de julho de 2017
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