quinta-feira, 1 de julho de 2021

O CIDADÃO E A CIÊNCIA

Vale a pena pensar na opinião que Einstein tinha sobre a ciência aplicada a problemas humanos, conforme escreveu e publicou em maio de 1949:

“Por estas razões devemos nos precaver para não sobrestimarmos a ciência e os métodos científicos quando se trata de problemas humanos; e não devemos presumir que os peritos são os únicos que têm o direito de se expressarem sobre questões que afetam a organização da sociedade.” (“For these reasons, we should be on our guard not to overestimate science and scientific methods when it is a question of human problems; and we should not assume that experts are the only ones who have a right to express themselves on questions affecting the organization of society”. * “Why Socialism?” - originally published in the first issue of Monthly Review - May 1949)

Um caso, que ilustra bem isso, aconteceu comigo (em 29/6/2021) aqui no sítio: a meteorologia previa chuva. Por sorte, acabamos confiando mais no céu claro que víamos do que na probabilidade científica: nossas roupas acabaram secando ao sol.

Houve inclusive um aviso de “Estado de Atenção”, alertando para possibilidade de chuvas fortes a partir da próxima madrugada. Entende-se a razão do aviso: “é melhor prevenir do que remediar.” Havia possibilidade, mas não certeza dessa chuva. Tomamos nossas precauções. Afinal, choveu muito pouco, por sorte.

Concluindo, quando a ciência não tem certeza, parece insensato que se obrigue o cidadão a não questionar, não investigar, não analisar e, enfim, que se proiba o cidadão de opinar ou decidir sobre sua própria vida.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

QUEM SE FINGE DE OVELHA, O LOBO DEVORA

Os políticos bonzinhos enfrentam uma nova realidade. Viviam declarando amor ao povo e iam ficando ricos com isso. 

Mas um velho ditado latino já dizia: “Quisquis ovem simulat, hunc lupus ore vorat (Quem se finge de ovelha o lobo devora)”. As eleições do Trump e do Bolsonaro mostram que atualmente a realidade se sobrepõe às juras de amor. 

Trump assumiu em janeiro de 2017 e no mesmo mês estava no Forum Econômico Mundial, em Davos. A linha dele agora seria que também entre os países não haveria mais confiança mútua garantida: cada qual que zele constantemente por seus interesses, interpelando, propondo acordos. 

O presidente da Turquia, Erdogan, então se comportava como amigo de Putin. Pouco antes tinham sido inimigos. Em Davos a novidade foi então que, com Trump, os EUA não iriam mais influir nesse relacionamento – não queriam mais ser a polícia do mundo. Não se trata de desinteresse, de isolacionismo, apenas agora não se metem em questões entre os outros países. Apenas se movem por interesse imediato próprio, não para impor crenças e valores. Aliás, recentemente a Turquia vem tentando controlar as mídias sociais. Problema deles, até agora.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

DEVERES MORAIS, FILHOS, GOVERNANTES E NÓS


No ano 44 AC a República Romana agonizava. Pouco depois, Cícero foi assassinado por defendê-la. Por enquanto, escrevia livros para seu filho - sob o título De Officiis - tratando das obrigações morais em geral.

O Livro III trata do aparente conflito que existe entre o que é moralmente correto e o que é vantajoso para a pessoa. Em outras palavras, muitas vezes há um aparente conflito entre a ação que “resolve”, que traz benefícios, e a ação correta. Cícero argumenta que, se a solução é imoral, então não é solução. O resultado, o lucro, que se obtém sendo imoral, acaba sendo prejuízo.

Aqui são mostrados dois casos, extraídos do Livro III. O primeiro trata de um político que se tornou mais poderoso passando por cima dos colegas. O segundo caso é sobre um pai que resolve roubar tesouros dos templos e o filho descobre.

Vamos ao primeiro caso: no ano 85 AC, Marius Gratidianus participou de um conselho de pretores que procurava editar uma resolução sobre a flutuação do valor da moeda, o Denarius. Chegaram à conclusão de que o valor das dívidas deveria ser reduzido. E resolveram que anunciariam mais tarde – todos juntos, na tribuna - um decreto dando aos endividados o direito de pagar só ¼ do valor devido. Aliás, como curiosidade, vale adicionar que decidiram não abordar a incômoda questão da falsificação da moeda...

Acontece que Marius saiu direto para a tribuna e divulgou sozinho a resolução ao público. Não esperou pelos parceiros.

O povo adorou. O partido do Marius, o Populares, ganhou mais força. Os endividados vibraram com a redução drástica das dívidas. Ele foi aplaudido entusiaticamente com esse expediente. Tornou-se imensamente popular. Em várias ruas acabaram erguendo estatuas dele. Queimavam incenso e cantavam em homenagem a ele. Obteve uma popularidade imprecendente com as massas. Mas entre seus pares perdeu a reputação.

E Cícero conclui que a aparente vantagem que Marius obteve dando um golpe nos parceiros, não foi uma vantagem real... Perdeu entre os que conviviam com ele.

No outro caso - em que o pai está roubando os templos - Cícero concorda que nessa situação o filho não deve denunciar, porque é do interesse do Estado que os cidadãos sejam leais a seus pais. Mas – em outras circunstâncias - por exemplo, se o pai pretende trair o país, se a segurança do país está em jogo, aí então o filho deve de todo jeito tentar impedir que a Pátria seja lesada, nem que tenha que “sacrificar” o pai!

Concluindo, Cícero era um estóico, como eu. Acreditamos que não há bem maior do que estar em paz consigo mesmo, porque o que acontece no mundo pode ser alterado por nossas ações – sejam elas boas ou más – mas o único resultado durável, que só depende de nós e pode durar para sempre é o de estarmos em paz com nossas consciências.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

DIREITA E ESQUERDA – BREVÍSSIMA ATUALIZAÇÃO CONCEITUAL


A Direita preocupa-se mais com a produção; presume que bens e serviços são difíceis de obter, por isso a Direita preocupa-se em tirar as amarras dos mais fortes: para que possam produzir. Intimamente o direitista acha que a vida é difícil por natureza e que cada um precisa estar apto a entender o que acontece e trabalhar as soluções. Em outras palavras, a Direita acredita que, quando cada um cuida de si com inteligência, honestidade e empenho, as exigências coletivas acabam sendo atendidas.

Já a Esquerda preocupa-se mais com a distribuição; entende que a coletividade está sendo impedida pelos mais poderosos de ter acesso a bens e serviços, por isso a Esquerda preocupa-se em socorrer os mais fracos. Intimamente o esquerdista acha que a vida seria fácil se todos obedecessem a um plano comum concebido pelos dirigentes. Em outras palavras, a esquerda acredita que quando o governo cuida do coletivo com inteligência, honestidade e empenho, as exigências individuais acabam sendo atendidas.

O pensamento da Direita faz mais sentido nos tempos de escassez, quando tudo começa a faltar; o pensamento de Esquerda faz mais sentido nos tempos de fartura, quando há produção de sobra.*

Tanto a Direita quanto a Esquerda observam as desigualdades: os Direitistas porque desigualdade grande significa mercado pequeno e convulsão social; os Esquerdistas são contra a desigualdade por ideologia, porque acham errado uns terem mais que outros.

Há ladrões de Direita e ladrões de Esquerda. Agem da mesma maneira, roubando o que é público ou roubando de quem não pode se defender. Por exemplo, o meio ambiente é usado por ladrões de ambas as correntes políticas: os ladrões esquerdistas saqueiam em nome dos pobres e da preservação, enquanto os direitistas saqueiam em nome da produção.

Os ladrões de Direita ou de Esquerda são difíceis de serem pegos quando estão por muito tempo no governo porque, enquanto exercem o Poder, se vão associando ao Legislativo, ao Executivo e ao Judiciário. Com o tempo, o Poder corrompe tanto a Direita quanto a Esquerda.

Um último ponto a observar é que ambas as correntes políticas – Direita e Esquerda – estavam habituadas a usar a imprensa como meio para controlar o pensamento da população, por exemplo, desviando a atenção de erros e crimes, ou tirando o foco da oposição. Essa é a grande novidade: a mídia de massa deixa de ser o principal meio de apoio aos governos. Os governos estão dando-se conta disso. E a população também. Em todo o Mundo, a grande imprensa cai no descrédito na medida em que as redes sociais revelam as omissões e distorções das notícias divulgadas por jornais e revistas.

* Está implícito que, para a Esquerda funcionar para sempre, deveria haver uma evolução ética: a Humanidade deixaria de ser egoísta, passando a comportar-se naturalmente de uma maneira social, gregária. Já a perpetuação da Direita exigiria que perdurasse a crença em que o Estado precisa ser sempre limitado, porque somos naturalmente egoístas e as autoridades tendem a buscar privilégios.


P.S.: O objetivo deste ensaio é o de evitar desentendimentos desnecessários. Conceitos básicos claros evitam insanidade de parte a parte.

terça-feira, 5 de março de 2019

IGUALDADE, COMO ASSIM?


Em breve faço 72 anos. Tenho direito a “cartão de estacionamento para idoso”. Isso me faz igual ao jovem? Igual? Como, de que jeito?

Se a Natureza tem uma característica marcante, essa característica é a diversidade. Mas o ser humano fica confuso diante da multiplicidade. Escolhe então algumas plantas e animais e faz um jardim no meio da floresta. Em busca da igualdade é capaz mesmo de derrubar a mata e arrasar os morros, buscando a planície. A diversidade dá medo.

O ideal é a igualdade. Será? Essas plantas todas, animais, minerais de todos os tipos e tamanhos: queremos mesmo que tudo seja igual? Não! Não é bem isso! Queremos outro tipo de igualdade. Como assim? Como é essa igualdade que queremos? Não interessa como é. Já dizia o velho provérbio romano: “Os homens poẽm mais fé naquilo que não entendem”* .

Alguns, um pouco mais lúcidos, mas ainda desesperados diante das diferenças naturais, propõem então apenas direitos iguais. Reconhecem as diferenças mas exigem que haja uma tentativa de nivelamento. Existem «cadeirantes», por exemplo, então, vamos fazer com que possam se locomover como os outros. Vamos fazer rampas. Depois a gente trata de cegos, de órfãos, de índios, das árvores menores que não conseguem chegar à luz do sol, das formigas que são inimigas e das abelhas que são amigas… Queremos igualdade de direitos.

Mas já se percebe que mesmo essa igualdade de direitos é confusa também. Por exemplo, os idiotas têm direito a serem médicos? Os cegos têm direito a serem pilotos? Os criminosos têm direito a serem juízes? Os ratos têm os mesmos direitos que os cachorros?

Igualdade, liberdade, fraternidade… Conceitos fluidos, amorfos, que se prestam a todo tipo de distorção. A Revolução Francesa não deu certo. Talvez o que todos queiram mesmo é compaixão. Mas essa palavra é ultrapassada. Empatia talvez seja mais aceitável.

*Majore fidem homines adhibent iis quae non intelligunt

domingo, 2 de setembro de 2018

NOSSAS ESCOLHAS, A INCAPACIDADE E A INSENSATEZ


Este ensaio trata das escolhas, do livre arbítrio *. Presume-se que temos sempre alguma liberdade. Ou seja, este ensaio presume que temos opções: nosso futuro não está pré-determinado. Mesmo presos, dentro de uma cela, ainda assim podemos decidir se vamos ou não tentar o suicídio. Independente de onde viemos, independente de nossa genética, independente das restrições do momento, sempre temos escolhas a fazer.

Mais precisamente, o foco aqui é o processo de escolha, especialmente a explicação para as escolhas erradas, as escolhas que conduzem ao que é pior em vez de conduzirem ao que é melhor. Errar então significa escolher o ruim preterindo o que é bom. Vamos especular sobre como acontece o erro; como acabamos deixando o melhor de lado e ficando com o pior. Inicialmente é interessante distinguir “incapacidade” de “insensatez”. As palavras tem significados sutis.

Possivelmente nossas escolhas partem de alguma intuição, de alguma crença inicial. Achamos logo que tal decisão será boa, ou que será ruim; achamos que vai funcionar de tal jeito. Alguém nos disse, vimos de relance e assim temos essa impressão. E então, essa crença inicial, essa intuição, é bastante para tomarmos uma decisão?

A esta altura é bom definir o significado de "incapacidade" (ad hoc); vamos considerar que “incapacidade” seja uma restrição natural, assim como um animal é incapaz de ler um folheto com instruções. Um outro exemplo de incapacidade seria a nossa de fazer determinadas previsões; ou de saber de tudo o que acontece no Universo. Assim é que podemos errar por incapacidade, por uma limitação natural. Quanto mais incapazes diante da escolha a fazer, mais dependemos da sorte. Na verdade sempre há uma certa incapacidade, ou seja, por natureza não somos capazes de acertar com total segurança.

Mas a boa escolha começa com a boa vontade, com o desejo de honestidade, o desejo de buscar a verdade, de entender. Empenhar-se. A boa escolha então presumiria explorar ao máximo a capacidade de saber, de conhecer. Quanto mais conhecimento, menos dependência do acaso.

Cabe agora definir o que seja insensatez. Chegamos ao ponto crucial. Talvez a maior causa das escolhas erradas seja a insensatez. Ocorre que, mesmo sabendo, mesmo tendo capacidade de entender o que se passa, muito frequentemente prevace a insensatez, consistindo essa insensatez em perceber a verdade e, ainda assim, comportar-se como se não a tivesse percebido. A insensatez equivale à má-fé.

O orgulho, a soberba seria a causa da insensatez. O sujeito escolhe impor a sua vontade, os seus caprichos, ainda que perceba o mal que isso causa. Não é que não saiba das prováveis conseqüências: simplesmente não se importa. Na verdade a insensatez - e não a incapacidade - parece ser a causa dos grandes males que a humanidade pratica. Finalmente, é justo reconhecer que as idéias postas aqui foram roubadas de Santo Agostinho.




* Este ensaio se fundamenta no livro De Libero Arbitrio, escrito a partir do ano 388 por Santo Agostinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SOBRE OS SOFRIMENTOS POR NÃO SERMOS NATURAIS

Este assunto surgiu pela coincidência de eu estar lendo um ensaio escrito em 1576* e, ao mesmo tempo, estar penando por causa de exames médicos que trouxeram um grande sofrimento inútil.

Escrito na França 76 anos após o Brasil ter sido descoberto, há portanto 442 anos, o ensaio trata longamente do desprezo que temos pela inteligência dos animais. Julgamos que vivemos muito melhor do que eles, acreditamos que quanto mais sofisticado, melhor. Vamos então a um trecho extraído desse livro velho que, parece mentira, mas fala de nós:

“Os animais nos mostram muito bem o quanto a agitação do nosso espírito nos traz doenças.

Isso que nos dizem do Brasil, que não morrem a não ser de velhice - atribuem à serenidade e tranquilidade dos ares em que vivem; eu atribuo sobretudo à tranquilidade de suas almas, descarregadas de toda paixão, pensamento e ocupação prolongados ou desagradáveis: como gente que passa sua vida em admirável simplicidade e ignorância, sem letras, sem lei, sem rei, sem qualquer religião.”


Mas por que essa menção ao jeito de os brasileiros levarem a vida? É que o "atraso" teria tornado os brasileiros, em certos aspectos, mais felizes do que os europeus. Já em um trecho anterior Montaigne ilustrava bem o que queria dizer, insistindo em que muitas vezes sofremos inutilmente por sermos “inteligentes”. Vamos a esse outro trecho desse escrito tão antigo:

“O filósofo Pyrrho**, correndo no mar o risco de uma grande tormenta, não apresentou para os que estavam com ele imitarem mais do que a segurança de um porco, que viajava com eles, olhando a tempestade sem medo.”

Está visto portanto que o assunto é antigo, mas vamos então a exemplos atuais desse mal que o progresso nos pode fazer; vamos examinar essa “ciência” que conduz à burrice. E assim vão aqui dois casos simultâneos de "burrice científica", acontecidos comigo e com minha filha agora…

Enquanto um exame por “ultrassom” revelava nela, erradamente, problemas na gestação (outro “ultrassom” mostrou que estava tudo bem) – ao mesmo tempo constatava-se que remédios que me haviam sido prescritos para tomar diariamente eram absolutamente desnecessários.

Pode-se mostrar aqui, também, um terceiro caso, desta vez não particular, mas um caso de sofrimento inútil generalizado, imposto pelo "progresso". Trata-se do conhecimento de uma possibilidade remota de evolução de um cancêr. Revela-se à pessoa que tal doença pode vir a ocorrer. E a pessoa é submetida a uma angústia e - muito provavelmente - a cirurgias e tratamentos, para um mal que provavelmente nunca aconteceria. Vale saber que, há algum tempo, pesquisas acreditadas, realizadas com imenso número de pessoas, evidenciam que pequenos nódulos nos seios das mulheres são em imensa maioria benignos ou, mesmo sendo câncer, jamais se desenvolveriam.

Enfim o propósito desta Ruminação foi mostrar que o raciocínio - em seus excessos - nos faz mal e que a naturalidade frequentemente pode nos mostrar caminhos para uma vida melhor.


* Apologie de Raimond Sebond – Montaigne
**Pyrrho (360 - 270 AC) é citado nos clássicos referentes à Grécia.