sábado, 1 de setembro de 2012

PAULO COELHO, CLINT EASTWOOD, OUTROS E A REALIDADE

No Bom Dia Brasil apareceu o Paulo Coelho. Foi entrevistado em sua casa em Genebra. E então contou que teve um problema cardíaco; daí o assunto foi-se desenvolvendo, e ele acabou conversando com o repórter sobre a perspectiva da morte. No final, para relaxar, foram para o jardim praticar arco e flecha, aliás, um esporte muito próprio para um mago.
Mas, foi outro tópico - possivelmente menos atraente - que me pareceu ter sido mais revelador, mais extraordinário. Talvez para contrastar com o seu sucesso habitual, o Paulo Coelho tenha resolvido falar rapidamente de um fracasso dele: um livro que não vendeu bem, chamado “A Solidão dos Poderosos”. E me impressionou muito a explicação que ele deu: disse que fracassou porque pensou muito para escrever. Só foram bem aceitos os livros que ele havia escrito sem pensar.
Pronto! O Mago, assim de passagem, displicentemente, no meio de uma entrevista, desvendou essa lei cósmica que impede que textos como este aqui sejam populares. Ruminações, como o nome diz, são muito pensadas; dissecam a realidade. Nem o Paulo Coelho, talvez o escritor mais lido no mundo, nem mesmo ele, terá leitores se tiver a pretensão de explicar melhor alguma coisa, se tiver a ousadia de estar mais consciente quando escreve. Quase ninguém tolera isso.
Mas não foi só o Paulo Coelho quem disse que pensar não é bom. Pouco tempo depois dessa entrevista dele em Genebra, o Clint Eastwood, nos EUA, mais precisamente na convenção do Partido Republicano, foi fazer um discurso contra o Obama e acabou reclamando de quem pondera, reclamando de quem vê os dois lados da questão; vociferando contra quem pergunta sobre outros caminhos e banca o advogado do diabo. Pronto de novo! Agora, outra celebridade diz quase a mesma coisa: não agüenta mais quem pense.
E aí me lembrei do T.S. Eliot (em Burnt Norton):
Go, go, go, said the bird: human kind
Cannot bear very much reality
.................................
Allow but a little consciousness.
To be conscious is not to be in time
A espécie humana não agüenta muita realidade. E assim, o Paulo Coelho, o Clint Eastwood e o T. S. Eliot tentam nos convencer de que a razão é ilusória; insistem em dizer que quem está muito consciente da realidade, perde-se no tempo.
E, como se não bastassem esses três ataques contra ruminações em geral, depois, à noite, me veio assombrar o Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, Ficções do Interlúdio (285)):
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Finalmente, hoje pela manhã resolvi tomar tudo isso como simples advertências, avisos de que é importante ver caso a caso - ver - sem se perder em generalizações...