sexta-feira, 18 de maio de 2018

SOBRE OS SOFRIMENTOS POR NÃO SERMOS NATURAIS

Este assunto surgiu pela coincidência de eu estar lendo um ensaio escrito em 1576* e, ao mesmo tempo, estar penando por causa de exames médicos que trouxeram um grande sofrimento inútil.

Escrito na França 76 anos após o Brasil ter sido descoberto, há portanto 442 anos, o ensaio trata longamente do desprezo que temos pela inteligência dos animais. Julgamos que vivemos muito melhor do que eles, acreditamos que quanto mais sofisticado, melhor. Vamos então a um trecho extraído desse livro velho que, parece mentira, mas fala de nós:

“Os animais nos mostram muito bem o quanto a agitação do nosso espírito nos traz doenças.

Isso que nos dizem do Brasil, que não morrem a não ser de velhice - atribuem à serenidade e tranquilidade dos ares em que vivem; eu atribuo sobretudo à tranquilidade de suas almas, descarregadas de toda paixão, pensamento e ocupação prolongados ou desagradáveis: como gente que passa sua vida em admirável simplicidade e ignorância, sem letras, sem lei, sem rei, sem qualquer religião.”


Mas por que essa menção ao jeito de os brasileiros levarem a vida? É que o "atraso" teria tornado os brasileiros, em certos aspectos, mais felizes do que os europeus. Já em um trecho anterior Montaigne ilustrava bem o que queria dizer, insistindo em que muitas vezes sofremos inutilmente por sermos “inteligentes”. Vamos a esse outro trecho desse escrito tão antigo:

“O filósofo Pyrrho**, correndo no mar o risco de uma grande tormenta, não apresentou para os que estavam com ele imitarem mais do que a segurança de um porco, que viajava com eles, olhando a tempestade sem medo.”

Está visto portanto que o assunto é antigo, mas vamos então a exemplos atuais desse mal que o progresso nos pode fazer; vamos examinar essa “ciência” que conduz à burrice. E assim vão aqui dois casos simultâneos de "burrice científica", acontecidos comigo e com minha filha agora…

Enquanto um exame por “ultrassom” revelava nela, erradamente, problemas na gestação (outro “ultrassom” mostrou que estava tudo bem) – ao mesmo tempo constatava-se que remédios que me haviam sido prescritos para tomar diariamente eram absolutamente desnecessários.

Pode-se mostrar aqui, também, um terceiro caso, desta vez não particular, mas um caso de sofrimento inútil generalizado, imposto pelo "progresso". Trata-se do conhecimento de uma possibilidade remota de evolução de um cancêr. Revela-se à pessoa que tal doença pode vir a ocorrer. E a pessoa é submetida a uma angústia e - muito provavelmente - a cirurgias e tratamentos, para um mal que provavelmente nunca aconteceria. Vale saber que, há algum tempo, pesquisas acreditadas, realizadas com imenso número de pessoas, evidenciam que pequenos nódulos nos seios das mulheres são em imensa maioria benignos ou, mesmo sendo câncer, jamais se desenvolveriam.

Enfim o propósito desta Ruminação foi mostrar que o raciocínio - em seus excessos - nos faz mal e que a naturalidade frequentemente pode nos mostrar caminhos para uma vida melhor.


* Apologie de Raimond Sebond – Montaigne
**Pyrrho (360 - 270 AC) é citado nos clássicos referentes à Grécia.