“Danem-se os seus princípios! Fique com o seu partido.” (Disraeli, estadista conservador inglês 1804 - 1881). Os outros são adversários. Aprendemos assim. O caminho conhecido é juntar um grupo e ir contra os outros. E funciona, parece: isso organiza a sociedade. As empresas funcionam assim, as igrejas também: é a minha empresa contra a sua, a minha igreja contra sua. Os países se dispõem dessa mesma forma: o meu contra o seu. Quase tudo se fundamenta na discórdia entre os grupos; funcionamos na base do desacordo automático. É quase instintivo. A noção que preside a tudo isso é a da escassez: o que existe não é suficiente para todo o mundo. Como conseqüência, talvez, times de futebol, partidos políticos, grupinhos no colégio ou no trabalho, consolidam uma ética de fidelidade ao grupo acima de tudo: “Danem-se os seus princípios! Fique com o seu partido”. E os chefes são escolhidos. Tudo funciona, mas só dentro do grupo. Como regra geral, uma questão que não afete o grupo não é considerada. Problema deles. A raça humana conhece um truque só: nós contra eles. A realidade fora dos grupos não interessava. Agora, no entanto, parece que o meio ambiente, por exemplo, vai além do grupo. As finanças também. Aliás, sempre soubemos disso. Mas fomos treinados para outra coisa. Embora a idéia de associação, de trabalhar junto, existisse, só nos associamos contra um inimigo. Sem um inimigo comum, brigamos uns contra os outros, não nos unimos. O problema é que a idéia de trabalhar em conjunto com outro grupo é, de fato, perigosa: eles podem simplesmente invadir, matar, como sempre aconteceu. Aprendemos isso. Sempre foi assim. Treinamos isso nos esportes. Só um vai ser vitorioso, o outro vai perder. Combinar um empate é muito mal visto... A novidade é que a idéia de constituir um grupo para vencer o outro agora não resolve mais. Se colaborar é perigoso, não colaborar também é. Há muitos grupos fortes o bastante para causarem um estrago enorme se não forem levados em conta. Não é só a minha igreja contra a sua, a minha empresa contra a sua, o meu time contra o seu: existem muito mais igrejas, empresas e times do que imaginávamos. E agora? Há escassez de quê? A fartura é solução ou problema? Precisamos vencer quem mesmo?
sábado, 28 de novembro de 2009
PARTIDARISMO, O INIMIGO HABITUAL E A FARTURA
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
AINDA EXISTE MUITA COISA NATURAL
Ainda há o que ser preservado: muitas plantas e bichos andam por aí e nós nem nos damos conta. Basta ver as duas fotos aí do lado.
Até gente natural, espontânea, ainda existe; mas isso é mais raro.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
SARKOZY, STIGLITZ, NELSON RODRIGUES E OS NÚMEROS
Quando o sucesso é medido por um número, esse número influi no comportamento das pessoas. Se o time que ganha é aquele que faz mais gols, todas as ações em campo acontecem pensando nos gols. Nada mais importa muito.
Hoje o PIB é o principal indicador do sucesso de um governo; o crescimento do PIB é o número que vai dizer ao mundo se um governo conduz bem ou conduz mal um país. Acontece que o presidente Sarkozy e o Nobel de Economia Stiglitz reconhecem o que muita gente já sentia: o PIB pode crescer com tudo piorando e pode cair, embora a vida das pessoas esteja melhorando. Resumindo: o PIB é um número que não traduz o que se passa, não representa adequadamente, não revela o mais importante.
Assim é que se entenderam os dois, Sarkozy e Stiglitz, e foi constituída, em fevereiro de 2008, uma comissão de 22 experts para melhorarem a maneira de medir o sucesso de um governo. Finalmente agora saíram recomendações para aperfeiçoar a contabilidade do PIB, contemplando a renda e o consumo, em vez da produção, isto é, olhando a partir dos domicílios, em vez de olhar a partir das empresas.
Stiglitz e a Comissão propõem ainda outros indicadores para medir o bem estar das pessoas, ou seja, propõem medir também o trabalho não remunerado, como o trabalho doméstico, a saúde, a segurança, o meio ambiente...
A aparente complicação das medições é necessária, sob pena de se obter o contrário daquilo que se deseja. Um caso ilustra bem isso: trabalhei muitos anos fazendo o controle das operações de campo de uma companhia telefônica. Naquela época uma boa parte do tráfego interurbano era conectado manualmente, por telefonistas. Resolvemos então premiar as telefonistas que completassem mais chamadas, contando os bilhetes que cada uma houvesse preenchido. Foi um desastre: as telefonistas não queriam mais receber chamadas, só expedir chamadas – que era o que contava. Derrubavam as ligações que chegavam, só se interessavam pelas que saiam... O incentivo foi um tiro que saiu pela culatra.
No futebol valem os gols. Normalmente, só os gols contam. Mas, para o Nelson Rodrigues, o que interessava era o “Placar Moral”. Mesmo o jogo tendo terminado em um aparente zero a zero, saia lá, no O Globo: “Placar Moral: Fluminense 1 x Flamengo 1”. O zero a zero não dizia absolutamente nada da batalha havida: as bolas na trave, a falta que o juiz não marcou... Eu me lembro de dar mais valor ao Placar Moral do que ao insignificante resultado oficial.
Concluindo: uniram-se agora Sarkozy, Stiglitz e o espírito do Nelson Rodrigues; os três contra os números equivocados. E a França promete batalhar por uma mudança nos métodos estatísticos junto aos outros países. Essa mudança haveria de influir muito, porque hoje agimos hipnotizados pelos números. Se não há como escapar deles, então é bom que retratem melhor a realidade.
domingo, 16 de agosto de 2009
INTERPRETANDO A GENTILEZA
O remédio deveria ser tomado para controlar a doença - sempre. O médico disse isso para esse meu amigo, enquanto escrevia e carimbava a receita, ao final da consulta. E completou depois, enquanto lhe entregava o papel: “Comprando em tal lugar e dando esse código, você compra mais barato.”
E era mais barato mesmo, lá na farmácia indicada pelo doutor. E, realmente, foi preciso dar o tal código. Assim é que o meu amigo tem tomado o seu remédio; mas, junto com o comprimido, tem engolido também uma certa dúvida. E essa dúvida se agravou com a chegada de uma carta do laboratório fabricante, cumprimentando o paciente e lhe dando parabéns por estar seguindo o tratamento prescrito. O médico e a indústria farmacêutica, unidos para que ele tomasse o remédio... E agora, isso é bom?
Não é à toa que muita gente tem achado mais simples a grosseria, que dificilmente é falsa. A cordialidade é suspeita, o desaforo, não. Isso explicaria a multidão que hoje parece mais confortável trocando insultos que amabilidades.
Interpretar uma gentileza não é tarefa fácil: pode-se errar por aceitar e pode-se também errar por recusar: rejeitar todo gesto atencioso não soa muito sensato.
Essa dificuldade - de julgar acertadamente uma gentileza - fica bem evidente em um episódio que ocorreu em 1780, no Forte de Camapuã, em Mato Grosso.
O sargento-mor, que chefiava o Forte, havia recebido instruções do governador para ser gentil com os índios Guaicurus. No entanto, parece que não vinha sendo tão cordial assim, tanto que um grupo de oficiais já estava escrevendo um memorial – de denúncia - criticando o sargento-mor por agir de maneira desconfiada com os índios; e estavam nisso quando apareceu um bando deles, a uns trezentos metros do Forte. Vinham com mulheres, ovelhas, perus, peles e artigos para troca. O Comandante ordenou então que continuassem lá fora, e enviou doze soldados para negociarem. E os soldados foram, chefiados por um ajudante.
Para encurtar a história, os índios acabaram sendo admitidos no Forte e, depois de terem comido e bebido, atacaram os soldados. Mataram 45 homens e fugiram com as armas e munições que conseguiram roubar.
E então os oficiais, que antes estavam escrevendo contra a desconfiança do Comandante, rasgaram o que já haviam rabiscado e começaram a redigir outro documento, agora contra a gentileza dele...
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
LIVRANDO-SE DO COLETIVO
Aparentemente, em todo o mundo, se passou a crer que os problemas coletivos são só uma questão de dinheiro. O dinheiro é então o meio pelo qual a Autoridade pode resolver tudo. Se não tem equipe, compra uma. Quando alguma coisa não funciona, ou não se realiza, é porque falta dinheiro. E, de repente, nos damos conta de que muita coisa simples agora custa muito caro.
Temos fé no dinheiro, mas temos ainda uma outra crença firme: acreditamos em designar alguém para resolver tudo. Assim, para dar conta das questões coletivas, normalmente elegemos uma espécie de deus – que vai receber dinheiro arrecadado. E é esse dinheiro – coletado – que lhe vai conferir poderes sobrenaturais. Assim, com essa lógica, nos julgamos todos livres de qualquer responsabilidade. Ninguém precisa mais cuidar disso; todos estão livres para cuidarem exclusivamente do que é seu. A coisa coletiva fica entregue a um deus recém-empossado...
Para o bem ou para o mal, a Autoridade se vê sozinha diante de um mundo; os imprevistos se sucedem, as circunstâncias mudam. E o desinteresse, a apatia geral, têm um efeito devastador.
É óbvio. No entanto, como neste caso o óbvio não dá lucro contábil, não é anunciado. Aparece só aqui no blog.
domingo, 26 de julho de 2009
O QUE ESPERAR DOS OUTROS – O OBAMA TEM RAZÃO
Há alguns anos, fazendo uma pesquisa para avaliar os costumes em uma empresa, distribuímos um questionário para mais de mil empregados. Escondidas entre as outras perguntas fizemos duas especiais; a primeira delas era: “Você ajuda os outros no trabalho?” Mais lá adiante, vinha essa outra: “Os outros ajudam você em seu trabalho?” Cerca de 90% disseram que davam ajuda aos outros; mas, por outro lado, cerca de 90% disseram que não recebiam ajuda. Então, diante de tanta gente se declarando disposta a ajudar, como seria possível que quase ninguém recebesse ajuda?
Talvez a explicação seja simples, natural até. Julgar a si mesmo com benevolência e aos outros com rigor; dar privilégios a si mesmo, escolher a fatia maior - isso seria um “direito natural”. E o Aristóteles até explicou, com um exemplo: habitualmente um mesmo recipiente era usado, tanto na compra como na venda do vinho; mas admitia-se como normal encher mais quando comprando, e menos quando vendendo... Essa margem seria natural, uma folga lícita no jogo. Pode soar esquisito, mas vale lembrar que, naquela época – uns 350 anos antes de Cristo – a escravidão também era considerada natural, normal: havia escravos de várias raças; e depois nem Cristo se manifestou contra ela.
Talvez o Sartre tenha esclarecido a questão mais um pouco em “O encontro com o outro”, fazendo considerações sobre a vergonha. Ocorre que, quando percebo o Outro, surge na situação um aspecto que eu não controlo, que me escapa; eu já não sou o senhor absoluto. Dou-me conta de mim mesmo e me vejo porque os Outros estão me vendo. E depois, mesmo absolutamente sozinho, por vergonha, deixo de seguir o meu impulso inicial e passo a agir contrariamente a minhas antecipações e desejos. Resumindo: ao mesmo tempo em que os Outros me tornam consciente de mim mesmo, me impõem restrições e limites.
Ruminando então um pouco mais, parece certo dizer que a minha reação diante dos Outros depende das expectativas que eu vier a ter sobre eles. Quando os Outros me tornam consciente de mim mesmo, posso ter vergonha de mim, mas posso também ter orgulho, dependendo da situação. Assim como o Sartre elegeu a vergonha como linha condutora do seu pensamento, se poderia escolher a sensação de orgulho, que também pode ser natural. O Homem é um animal gregário, há muito tempo vive em bandos. O seu modo de agir vai depender do ambiente, da cultura, do estágio de civilização. Hoje já não toleramos a escravidão; sentimos agora repulsa, naturalmente.
Tudo leva a concluir que tratamos o Outro de acordo com nossas sensações, ou seja, segundo nossas expectativas, de acordo com nossos preconceitos. E as expectativas, os preconceitos, por sua vez, dependem do ambiente. Em um ambiente em que prevaleça o costume de avançar e reduzir o Outro ao mínimo, isso acontecerá. Em um ambiente em que os Outros forem vistos como oportunidades de associação, isso acontecerá. Ou seja, a profecia que fizermos coletivamente será realizada.
Se isso é verdade, o mais importante a se disseminar, a educação mais básica, consiste em ensinar a ter esperança, a achar que é possível. O Obama tem razão...
terça-feira, 14 de julho de 2009
O livro do Obama e a carta do Papa
Em 2006 o Obama publicou um livro (The Audacity of Hope). E agora o Papa escreveu uma carta com bastante conteúdo político (Encíclica “Caritas in veritate"). Assim é que ambos, o Presidente e o Papa, falam sobre o que tomam em conta quando pensam nos destinos do mundo.
Aviso ao leitor que este artigo é mais propriamente um resumo do que um texto literário corrido: exige portanto uma atenção que seria mais própria de quem estuda do que de quem lê por prazer. Os trechos extraídos são muito condensados; meus comentários, brevíssimos. Procurei ilustrar partes do pensamento de um e de outro, sem desfigurar o todo, apenas admitindo uma exposição um tanto entrecortada.
Começamos por este trecho, em que o Obama permite ver, em um relance, o estilo do governo Bush. Quando ainda era senador, Obama visitou, a convite, o então presidente Bush, na Casa Branca. “Obama!", o presidente (Bush) disse, apertando a minha mão. “Venha aqui conhecer a Laura”.... O Presidente se virou para um auxiliar próximo, que borrifou um monte de desinfetante para mãos nas mãos do Presidente. “Quer um pouco?”, o Presidente perguntou. “Coisa boa. Evita resfriados”. Depois Bush diz “Espero que você não se aborreça se eu lhe der um conselho... Todo o mundo vai ficar esperando que você escorregue, entende o que digo? Então, tome cuidado!”Pg 57.
Sobre os valores e o individualismo americano: “Nosso individualismo sempre foi ligado por um conjunto de valores comunitários, essa cola da qual depende toda sociedade sadia. ... E valorizamos uma constelação de comportamentos que expressam a consideração de um pelo outro: honestidade, justiça, humildade, bondade, cortesia e compaixão”. Pg 66 e 67.
Volta e meia em seu livro, Obama atribui importância capital ao diálogo. “O que o arcabouço da nossa Constituição pode fazer é organizar a maneira como debatemos sobre o nosso futuro. Todo o mecanismo elaborado ... para nos forçar a conversar”. Pg110. Mostra, como exemplo disso, (pg114) que o único ponto que não foi conversado pelos Fundadores da Pátria, a escravidão – justamente por não ter sido objeto de discussão -acabou resultando em guerra civil.
Sobre a relação com os outros países, conta sobre a sua vida em 1967, aos seis anos, na Indonésia: “Vivíamos na periferia em uma casa modesta, sem ar-condicionado, refrigeração ou vasos sanitários com descarga. Não tínhamos carro, meu padrasto andava de motocicleta”. Pg322. Naquela época a CIA havia apoiado um golpe para derrubar o presidente Sukarno, que foi substituído por Suharto, favorável aos EUA. Os comunistas ligados ao antigo presidente foram mortos, ao longo do tempo. Estima-se ter havido um massacre de 500 mil a um milhão de pessoas. Hoje isso é um fato reconhecido mas, segundo Obama, nada transpirava. Vale repetir que ele tinha então seis anos, a mãe 24, e chegaram a Jakarta porque ela havia se casado com um estudante indonésio no Havaí.
Seguem trechos da carta do Papa, escrita em linguagem bem menos popular que a do Obama, e bem mais distendida - litúrgica – talvez. No entanto trata bastante de assuntos deste mundo.
O Papa valoriza os diálogos, assim como Obama faz; vê a verdade como criadora da compreensão mútua. “Com efeito, a verdade é « lógos » que cria « diá-logos » e, conseqüentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas.(4)”
Neste outro tópico, quando se trata de separar totalmente o estado da igreja, possivelmente divergem Obama e o Papa, que diz “...se o fanatismo religioso impede em alguns contextos o exercício do direito de liberdade de religião, também a promoção programada da indiferença religiosa ou do ateísmo prático por parte de muitos países contrasta com as necessidades do desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos espirituais e humanos. Deus é o responsável pelo verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de « ser mais »”29. Nessa questão, Obama argumenta que, em uma democracia, não se pode cercear o direito de ser ateu.
O Papa valoriza a verdade e a benevolência; mais do que isso, vê a verdade e a benevolência como coisas interdependentes: “Não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor.” 30.
O Papa faz ver que o mercado precisa da confiança recíproca para funcionar: “O mercado está sujeito aos princípios da chamada justiça comutativa, que regula precisamente as relações do dar e receber entre sujeitos iguais. ...De fato, deixado unicamente ao princípio da equivalência de valor dos bens trocados, o mercado não consegue gerar a coesão social de que necessita para bem funcionar. Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica. E, hoje, foi precisamente esta confiança que veio a faltar; e a perda da confiança é uma perda grave” 35.
E reforça a percepção de que o mercado não é um mecanismo autônomo: “Não se deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe; mas toma forma a partir das configurações culturais que o especificam e orientam......A área econômica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à atividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.” 36.
Conclusão: tanto as palavras do Obama como as do Papa fundamentalmente retomam a noção simples, que no entanto parecia perdida, de que a benevolência, a verdade, e o diálogo caminham juntos. Sendo assim, trazem a esperança de volta...
sexta-feira, 3 de julho de 2009
O Espírito Esportivo e o Dinheiro
É difícil imaginar uma atividade puramente esportiva; totalmente livre da influência do dinheiro.
Mas o dinheiro não é tudo quando o Almir Klink navega solitário: transmite coragem, inteligência, serenidade - sente-se espiritualidade no esporte que pratica. E quando o Diego Hipólito – com as articulações todas remendadas – consegue ser campeão mundial, não há como negar aí um heroísmo, que tem muito a ver com o esporte.
O que eu quero dizer é que o “espírito esportivo” tem a ver com a “luta justa”; tem a ver com o reconhecimento de que a vida é uma batalha, mas que nem tudo vale nessa luta.
De todos os espíritos, o esportivo é o que parece mais amplo, mais generoso; precede a tudo, vem antes do próprio sentimento de justiça: é mais natural. Sem o “espírito esportivo”, resta um relativismo sem alma: tudo vale igualmente, tudo é a mesma coisa, só os preços variam.
Todo o mundo deveria rir das equipes que compram os melhores jogadores, assim como ri de quem compra um troféu em uma loja – manda gravar em baixo que é campeão disso ou daquilo – e ostenta na sala, na prateleira atrás do bar. Caramba... será que já não se ri mais disso?
sexta-feira, 29 de maio de 2009
A IDÉIA DE FABRICAR UM INIMIGO
Fabricando um inimigo, fica mais fácil liderar. As pessoas unem-se contra a ameaça externa e consolidam a posição de quem lidera. Isso não é novidade. Havendo um inimigo, quem fizer oposição ao líder é traidor.
O que proponho considerar, antes de mais nada, é que essa situação – de haver um inimigo fabricado - tem uma conseqüência que pode passar despercebida: o Poder passa a ser o valor maior. Explico melhor: controlar o outro, triunfar, ser obedecido, passa a ser uma obsessão. A única coisa importante é ter poder. A mentalidade geral assimila isso. Não sobra muito espaço para compaixão, para racionalidade: as decisões são tomadas sem considerar muita coisa além do inimigo. O espectro dele preside tudo - afoba, apavora, cega.
Assim é que, mesmo dentro de um ambiente pacífico, a idéia de supremacia, de hegemonia, de mando sobre os outros, pode prevalecer. A política tem então como único objetivo obter o poder sobre o estado.
O meu partido é que deve vencer. O importante é dominar os outros. Os outros estão errados, não merecem atenção, porque são os outros. Os inimigos serão os ricos; ou serão os pobres; ou os estrangeiros, ou quem quer que seja, de quem se possa ter raiva. Não pense, ataque o inimigo! Assim a população é conduzida. Aliás, conduzida então em círculos, porque a política apenas possibilita, mas não faz. Fazer depende da ação dos interessados. Se os interessados não se mexem, os políticos só fazem política. Tratam de si.
E em todos os aspectos da vida passa-se a recorrer a essa fórmula – fabricar um inimigo para unir os amigos, para simplificar as decisões, para não ter que considerar outros aspectos. O que há para fazer reduz-se a isso: derrotar o inimigo.
Acontece que, ultimamente, com a Internet, muitas pessoas começaram a conversar com gente do mundo todo. Dominar através do controle da informação ficou mais difícil. As nossas barbaridades aparecem junto com o que fazemos de bom. As razões do inimigo também se mostram; ficou mais difícil fabricar um inimigo diabólico. A vida real começou a aparecer. O mundo está sendo visto - com toda a sua complexidade - por mais gente. Há mais o que levar em conta, antes de opinar.
Socialista, neoliberal, ruralista, ambientalista; rótulos assim não definem soluções para problemas concretos, apenas separam os times: o que um diz o outro contesta. E há cada vez menos platéia para essas lutas combinadas. Em vez disso as pessoas comuns se mobilizam para tratar dos problemas comuns. Temos uma boa oportunidade de melhorar. Sai de cena o inimigo fabricado, entra a Realidade. Queira Deus.
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