sexta-feira, 29 de maio de 2009

A IDÉIA DE FABRICAR UM INIMIGO

Fabricando um inimigo, fica mais fácil liderar. As pessoas unem-se contra a ameaça externa e consolidam a posição de quem lidera. Isso não é novidade. Havendo um inimigo, quem fizer oposição ao líder é traidor.
O que proponho considerar, antes de mais nada, é que essa situação – de haver um inimigo fabricado - tem uma conseqüência que pode passar despercebida: o Poder passa a ser o valor maior. Explico melhor: controlar o outro, triunfar, ser obedecido, passa a ser uma obsessão. A única coisa importante é ter poder. A mentalidade geral assimila isso. Não sobra muito espaço para compaixão, para racionalidade: as decisões são tomadas sem considerar muita coisa além do inimigo. O espectro dele preside tudo - afoba, apavora, cega.
Assim é que, mesmo dentro de um ambiente pacífico, a idéia de supremacia, de hegemonia, de mando sobre os outros, pode prevalecer. A política tem então como único objetivo obter o poder sobre o estado.
O meu partido é que deve vencer. O importante é dominar os outros. Os outros estão errados, não merecem atenção, porque são os outros. Os inimigos serão os ricos; ou serão os pobres; ou os estrangeiros, ou quem quer que seja, de quem se possa ter raiva. Não pense, ataque o inimigo! Assim a população é conduzida. Aliás, conduzida então em círculos, porque a política apenas possibilita, mas não faz. Fazer depende da ação dos interessados. Se os interessados não se mexem, os políticos só fazem política. Tratam de si.
E em todos os aspectos da vida passa-se a recorrer a essa fórmula – fabricar um inimigo para unir os amigos, para simplificar as decisões, para não ter que considerar outros aspectos. O que há para fazer reduz-se a isso: derrotar o inimigo.
Acontece que, ultimamente, com a Internet, muitas pessoas começaram a conversar com gente do mundo todo. Dominar através do controle da informação ficou mais difícil. As nossas barbaridades aparecem junto com o que fazemos de bom. As razões do inimigo também se mostram; ficou mais difícil fabricar um inimigo diabólico. A vida real começou a aparecer. O mundo está sendo visto - com toda a sua complexidade - por mais gente. Há mais o que levar em conta, antes de opinar.
Socialista, neoliberal, ruralista, ambientalista; rótulos assim não definem soluções para problemas concretos, apenas separam os times: o que um diz o outro contesta. E há cada vez menos platéia para essas lutas combinadas. Em vez disso as pessoas comuns se mobilizam para tratar dos problemas comuns. Temos uma boa oportunidade de melhorar. Sai de cena o inimigo fabricado, entra a Realidade. Queira Deus.

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso acontece em várias camadas. É como toda a cidade pequena que tem um louco. O louco é necessário porque é mais louco do que qualquer outro habitante, que assim é considerado "normal" em relação à loucura do louco.
Outra versão é o ódio aos EUA. No Brasil a "direita" é o inimigo, então só há partidos de esquerda. Nesse caso, a meu ver, o problema é a perda do poder (uma mistura de rebeldia contra a figura paterna e inveja do poder de fato). A pseudodireita, exemplarmente representada pelos EUA, é o inimigo porque espelha todas as falhas que temos, toda a democracia que não temos e o fato de que sermos assim incapazes não afeta essa direita de nenhum modo - ela não sabe da nossa existência!
Na religião é mesma coisa: o que não pertence é o inimigo, o diabo é o inimigo, o que não crê é o inimigo. Fica difícil manipular tanta gente sem a presença de um inimigo comum que fortaleça o fato de se pertencer a um grupo exclusivo de privilegiados - seja a recompensa o paraíso ou as 70 virgens (o que é que uma mulher faz com setenta virgens!!! :))
O inimigo é crucial para que joguemos nele todas as nossas falhas, as nossas responsabilidades, e assim mudemos o foco - o problema não somos nós (seja lá em que instância fõr)- é o inimigo!
Adriana Svacina