quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

“ORDEM E PROGRESSO” E O SOCIALISMO


Em 1889 os fundadores da nossa República escreveram em nossa bandeira: “Ordem e Progresso”. Mas o que isso significava exatamente, o que queriam dizer essas palavras?

Naquela época, a idéia de progresso era bastante discutida. Que país se desejava? E assim este ensaio procura recapitular, rever as razões dos fundadores da nossa República. A pergunta que a Globo faz hoje aos brasileiros – que país você deseja – qual resposta teria tido da nossa elite em 1889?

Como aprendemos no colégio, as lideranças da época acreditavam no positivismo. Nossa bandeira, no entanto, revela alguma restrição a essa crença. O lema “Ordem e Progresso” exclui uma parte do pensamento positivista completo, sintetizado em uma frase de Auguste Comte(1): “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso como meta.” Como se vê, nossa bandeira deixou o amor de lado. Abreviamos: ficamos só com “Ordem e Progresso”.

Independente dessa nossa abreviação, o positivismo era uma doutrina otimista; acreditava que o conhecimento científico iria permitir que o ser humano vivesse em uma crescente harmonia. Harmonia com a Natureza e harmonia social. Haveria progresso material, fartura, recursos e comodidade cada vez mais ao gosto da humanidade. As ciências sociais iriam progredir; o funcionamento da sociedade seria previsível com maior exatidão. A ciência seria capaz de estabelecer uma ética ideal, capaz de tornar a vida de todos o melhor possível.

Voltamos então à questão inicial, objetivo deste ensaio. Que progresso é esse que vem atrelado a uma ordem. Que Brasil exatamente se via no futuro?

Comte achava difícil medir a felicidade de um povo; seria difícil então estabelecer a felicidade como meta. Esse “Progresso” previsto na bandeira não poderia prometer felicidade. Então, se não era felicidade o alvo, seria talvez mais liberdade e igualdade para o povo?

Sendo a felicidade uma meta obscura, quem sabe o objetivo do país poderia ser dar cada vez mais liberdade à população. Todos livres e iguais. Mas isso conduziria à anarquia. Platão já avisava sobre esses excessos havia mais de 22 séculos(2): a democracia ilimitada leva à desordem. É que a liberdade de todos aniquila a liberdade de cada um. A liberdade de um colide com a do outro. Basta pensar: se uma pessoa tem quantos filhos quantos queira, haverá cada vez mais gente, cada vez menos espaço, menos liberdade para todo o mundo… Além disso, naquela época, havia o exemplo concreto, recente, da Revolução Francesa, que acabou perdendo o rumo em sua busca por liberdade, igualdade e fraternidade. Assim, com os franceses perdidos diante da confusão geral, surgiu Napoleão como alternativa ditatorial ao caos. Napoleão: um retrocesso moral e intelectual segundo a ótica positivista.

Quem sabe então o objetivo do Brasil seria - em vez de liberdade e igualdade - harmonia e bem-estar material? Enfim, a ciência poderia apontar o melhor caminho: dizer o quê, como e quanto produzir, para então distribuir essa produção para uma população ideal de tantas pessoas. Uma população sábia, vivendo sem dificuldades materiais. Assim, o sonho positivista se parece muito com o sonho socialista de uma sociedade planejada. A questão é que um sonho equivocado pode virar pesadelo.

Talvez o pensamento dos fundadores da nossa República, por sorte, esteja resumido em um artigo publicado por Albert Einstein sessenta anos depois, em 1949 (Why Socialism). Einstein começa apontando os desperdícios e sofrimentos inerentes à ética capitalista(3). São óbvios. No entanto, uma ética superior dependeria de avanços científicos, especialmente no campo social. E Einstein alerta para os riscos de confiar na ciência e nos métodos científicos quando a questão são problemas humanos(4). Dizia ele: … “a conquista do socialismo requer a solução de problemas sociopolíticos extremamente difíceis… Como prevenir que a burocracia se torne toda poderosa e arrogante?” ...

Concluindo então, talvez por honestidade e plena consciência de suas limitações, nossos antepassados tenham preferido excluir da bandeira a palavra amor; por não saberem como estabelecer de imediato o funcionamento de um Estado amoroso. Mas, sem dúvida, valorizavam o conhecimento – inclusive de uma ciência social mais exata - que nos conduziria ao bem estar material, juntamente com a concórdia. Esse seria o progresso buscado.

1 L'amour pour principe, l'ordre pour base, et le progrès pour but..
2 Platão, A República [562}
3 The economic anarchy of capitalist society as it exists today is, in my opinion, the real source of the evil.
4 be on our guard not to overestimate science and scientific methods when it is a question of human problems... The achievement of socialism requires the solution of some extremely difficult socio-political problems: how is it possible, in view of the far-reaching centralization of political and economic power, to prevent bureaucracy from becoming all-powerful and overweening? How can the rights of the individual be protected and therewith a democratic counterweight to the power of bureaucracy be assured?… Clarity about the aims and problems of socialism is of greatest significance in our age of transition.