quarta-feira, 24 de setembro de 2014

ACLAMANDO OS CORRUPTOS

Não adianta: o corrupto tem um prestígio inesgotável entre os eleitores. Sendo impedido de se candidatar, vai um amigo ou algum parente como candidato no lugar dele. E o povo então elege esse desconhecido, dublê do corrupto. Se o condenado não pode, pode o sócio, pode o irmão. A Lei da Ficha Limpa não dá conta desse impulso incontrolável.

Os vigaristas são, em geral, simpáticos. Não tratam de assuntos incompreensíveis: nada de abstrações como Constituição, República, Justiça, Dignidade e coisas assim. Nada dessas coisas difíceis, como cronogramas, prestação de contas... Apenas, de vez em quando, mesmo fora do período das eleições, aparecem nas comunidades. Distribuem agrados. Basta isso.

A democracia é o governo do povo. E o povo age assim. A voz do povo é a voz de Deus. E lá se vão os corruptos, ungidos, aclamados pela multidão.

Alguns cidadãos, no entanto, não se conformam com esse triunfo democrático dos ladrões. Ficam cismados com essa resposta esquisita que a democracia lhes dá. Buscam explicações. E dizem que a nossa democracia é novinha, incipiente, e precisa ser educada. Vamos tutelar a democracia! O povo é soberano, “pero no mucho”. Não se trata de cortar a soberania popular, vamos só podar um pouquinho. E assim, esse punhado de heróis, já que ninguém mais se importa, inventa leis como a Ficha Limpa. Criam leis em uma tentativa de ensinar, de orientar. Mas leis assim, estranhas aos hábitos da população, provavelmente acabam desrespeitadas. E surtem o efeito contrário: o povo aprende que as leis não são para valer.

Talvez, diante desse quadro, alguns idealistas fiquem deprimidos. Um caminho para se livrar disso é imaginar que as coisas podem se corrigir sozinhas. O Brasil é um país unido, enorme, apesar de todas as probabilidades contrárias.

Ou então, que valha a frase do ecologista francês: “Não sou pessimista, é tarde demais para isso.”; e continua atuando animado, indiferente ao quadro desanimador.