sábado, 26 de março de 2016

SOBRE A AMIZADE

Vale a pena rever o significado da palavra "amigo" nestes tempos que correm apressados, quando amigos se conhecem através da Internet. Assim é que vai aqui um resumo de conceitos clássicos sobre a amizade, consolidados pela nossa civilização através dos séculos. Estão em De Amicitia, escrito por Cícero no ano 44 a.C. e em Essais, Livre 1 chap 27 - De l'Amitié - escrito por Montaigne em 1580 d.C.

Inicialmente, vale notar que ambos - Cícero e Montaigne - deixaram bem claro que comumente se chamam de amigos aqueles que são apenas conhecidos ou familiares (M3643). Conhecer uma pessoa, ter contato frequente, não significa ser amigo. Aliás, Aristóteles costumava dizer: “Ah meus amigos, não há amigos” (M3680).

Sobre essa relação que se confunde com amizade, Montaigne afirma que as amizades são tão menos verdadeiras quanto mais têm origem e sustentação no prazer, no lucro, nos interesses (M3558). Essa amizade superficial se fundamenta nas vantagens de suprir necessidades recíprocas. E Montaigne prossegue citando a antiga recomendação sobre como tratar esses amigos de ocasião: “Ame-o como se um dia fosse odiá-lo e odeie-o como se um dia fosse amá-lo.”

Ainda sobre essa relação superficial, inferior à amizade verdadeira, Cicero (Amicitia, 24) lembra que, nesses casos, “A complacência ganha “amigos”, mas a verdade faz nascer o ódio”. Conhecidos e familiares normalmente estão interessados apenas em serem elogiados. E os elogios saem facilmente.

Já a amizade verdadeira só ocorre entre boas pessoas; isto é, pessoas que desejem conhecer a verdade, íntegras, que tenham boa fé e sejam livres da avareza, de rompantes... (Amicitia 5). A amizade verdadeira, no entanto, não se explica por causa disso; acontece por acaso - sou amigo dele porque ele é ele e eu sou eu (M3644). Um se confunde com o outro, não há a idéia de divisão, de benefícios, de obrigação, de reconhecimento: tudo se passa como se ambos fossem uma pessoa só (M3688). Na amizade verdadeira não há nada fingido, ensaiado; tudo é genuíno e espontâneo. A verdadeira amizade não se fundamenta nas necessidades, mas na consciência do amor e não no cálculo de benefícios (Amicitia 8). A vontade do amigo está sob suspeita tanto quanto estaria a minha própria vontade. E Montaigne explica: assim como sei que a minha vontade não me mandaria matar minha filha, sei que a vontade de meu amigo nunca seria essa.

Vale notar que, segundo Montaigne, essa amizade perfeita dificilmente acontece nas relações familiares, porque há vínculos que impedem uma fusão de identidades. O papel do pai torna muito difícil a liberdade de comunicação; o compartilhamento compulsório de quase tudo com os irmãos também força situações em que se torna dificil acontecer a amizade perfeita.

E que valor tem então essa amizade verdadeira? Cicero (Amicitia 23) – para mostrar quanto vale a amizade desinteressada - imagina um deus tirando uma pessoa da multidão e lhe dando fartura de tudo; fartura de prazer, de riqueza, de poder, mas isolando essa pessoa de qualquer convívio humano. Que prazer teria essa pessoa em viver? Desejaria ter um amigo, sem precisar mais do que isso.

Nota em 01/04/2016: o comentário do Zé Mauro (ver abaixo) vai na linha do Voltaire (Le mieux est l’ennemi du bien); faz ver que "O melhor é o inimigo do bom". Realmente, essa amizade perfeita soa desumana.