quarta-feira, 19 de agosto de 2020

QUEM SE FINGE DE OVELHA, O LOBO DEVORA

Os políticos bonzinhos enfrentam uma nova realidade. Viviam declarando amor ao povo e iam ficando ricos com isso. 

Mas um velho ditado latino já dizia: “Quisquis ovem simulat, hunc lupus ore vorat (Quem se finge de ovelha o lobo devora)”. As eleições do Trump e do Bolsonaro mostram que atualmente a realidade se sobrepõe às juras de amor. 

Trump assumiu em janeiro de 2017 e no mesmo mês estava no Forum Econômico Mundial, em Davos. A linha dele agora seria que também entre os países não haveria mais confiança mútua garantida: cada qual que zele constantemente por seus interesses, interpelando, propondo acordos. 

O presidente da Turquia, Erdogan, então se comportava como amigo de Putin. Pouco antes tinham sido inimigos. Em Davos a novidade foi então que, com Trump, os EUA não iriam mais influir nesse relacionamento – não queriam mais ser a polícia do mundo. Não se trata de desinteresse, de isolacionismo, apenas agora não se metem em questões entre os outros países. Apenas se movem por interesse imediato próprio, não para impor crenças e valores. Aliás, recentemente a Turquia vem tentando controlar as mídias sociais. Problema deles, até agora.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

DEVERES MORAIS, FILHOS, GOVERNANTES E NÓS


No ano 44 AC a República Romana agonizava. Pouco depois, Cícero foi assassinado por defendê-la. Por enquanto, escrevia livros para seu filho - sob o título De Officiis - tratando das obrigações morais em geral.

O Livro III trata do aparente conflito que existe entre o que é moralmente correto e o que é vantajoso para a pessoa. Em outras palavras, muitas vezes há um aparente conflito entre a ação que “resolve”, que traz benefícios, e a ação correta. Cícero argumenta que, se a solução é imoral, então não é solução. O resultado, o lucro, que se obtém sendo imoral, acaba sendo prejuízo.

Aqui são mostrados dois casos, extraídos do Livro III. O primeiro trata de um político que se tornou mais poderoso passando por cima dos colegas. O segundo caso é sobre um pai que resolve roubar tesouros dos templos e o filho descobre.

Vamos ao primeiro caso: no ano 85 AC, Marius Gratidianus participou de um conselho de pretores que procurava editar uma resolução sobre a flutuação do valor da moeda, o Denarius. Chegaram à conclusão de que o valor das dívidas deveria ser reduzido. E resolveram que anunciariam mais tarde – todos juntos, na tribuna - um decreto dando aos endividados o direito de pagar só ¼ do valor devido. Aliás, como curiosidade, vale adicionar que decidiram não abordar a incômoda questão da falsificação da moeda...

Acontece que Marius saiu direto para a tribuna e divulgou sozinho a resolução ao público. Não esperou pelos parceiros.

O povo adorou. O partido do Marius, o Populares, ganhou mais força. Os endividados vibraram com a redução drástica das dívidas. Ele foi aplaudido entusiaticamente com esse expediente. Tornou-se imensamente popular. Em várias ruas acabaram erguendo estatuas dele. Queimavam incenso e cantavam em homenagem a ele. Obteve uma popularidade imprecendente com as massas. Mas entre seus pares perdeu a reputação.

E Cícero conclui que a aparente vantagem que Marius obteve dando um golpe nos parceiros, não foi uma vantagem real... Perdeu entre os que conviviam com ele.

No outro caso - em que o pai está roubando os templos - Cícero concorda que nessa situação o filho não deve denunciar, porque é do interesse do Estado que os cidadãos sejam leais a seus pais. Mas – em outras circunstâncias - por exemplo, se o pai pretende trair o país, se a segurança do país está em jogo, aí então o filho deve de todo jeito tentar impedir que a Pátria seja lesada, nem que tenha que “sacrificar” o pai!

Concluindo, Cícero era um estóico, como eu. Acreditamos que não há bem maior do que estar em paz consigo mesmo, porque o que acontece no mundo pode ser alterado por nossas ações – sejam elas boas ou más – mas o único resultado durável, que só depende de nós e pode durar para sempre é o de estarmos em paz com nossas consciências.