quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Encenação de democracia

Ainda tenho arquivada uma entrevista que o Wen Jiabao, primeiro ministro chinês, concedeu ao The Times. Foi em 6 de setembro de 2006. Ele disse que não era razoável introduzir, de repente, a democracia na China. Tendo em conta o tamanho do país, a enorme diferença entre ricos e pobres - e também entre educados e não educados - o processo deveria começar por eleições diretas em algumas vilas. Demonstrada a capacidade das vilas administrarem a si mesmas, agora sim, a democracia se estenderia às cidades; depois às províncias para, finalmente, o país ter um governo central representativo.
Hoje, normalmente, “governo representativo” e “democracia” são tidos como sinônimos. Havendo eleição, é democracia. No nosso caso, com o voto obrigatório, a participação maciça dará sempre uma impressão de legitimidade à representação. Há uma encenação de democracia, talvez com a esperança de que acabe virando verdade. Será que, sendo encenada, a democracia é ensinada?
Em uma democracia assim imposta, forçada de cima para baixo sem maiores cuidados, o povo vota em quem aparece mais, em quem dá mais festa, em quem é mais engraçado, em quem paga alguma coisa. E então o Tiririca é o deputado mais votado do Brasil. Não que ele seja um mau deputado: o diabo é que, comparativamente, é um dos melhores!
Mas tudo tem limite. Ficou evidente que o povo estava elegendo bandidos conhecidos. Talvez porque preferisse bandidos conhecidos aos desconhecidos, quem sabe. Enfim, isso foi proibido. Ou seja, como o povo livre e soberano faz muita besteira, resolveu-se limitar um pouco essa soberania. Inventamos a democracia podada: Ficha Limpa. Isso ensina alguma coisa?
A verdade é que no nosso país - assim como na maioria dos outros - o grosso da população não tem noção do que seja administrar alguma coisa. Como o povo não tem o menor preparo para cuidar das coisas públicas, é levado a participar de uma encenação. Um povo que não tem a menor idéia do que seja governar, como pode ser soberano? Parece que os chineses estão certos: melhor ensinar democracia do que encenar democracia.