Quem ouve os repórteres de Pernambuco fica com a impressão de que as pessoas não morrem mais. É muito pior: “vão a óbito”. Assim, o sujeito diz no noticiário: "Foi a óbito". Pronto! E lá está o espectador, hipnotizado, aparvalhado. Puro horror. Até o português usado é horroroso.
Muita gente não fala da morte com naturalidade. No entanto, contrariando essa turma, há indícios de que se deve encarar o assunto, isto é, se deve falar da morte normalmente porque, afinal, a morte faz parte do processo natural.
A mim me pareceu que, pelo menos em uma situação, falar com simplicidade da morte foi vantajoso. Faz uns 25 anos. Um amigo, enfrentando hostilidade em uma situação tensa, disse, calmissimamente, que não tinha o menor medo de nada – para ele tanto fazia estar vivo como morto. Se não tinha medo da morte, realmente não tinha razão para temer coisa alguma. Saiu ganhando. Sem medo, não se submeteu a nada nem a ninguém.
Mas essa dúvida – falar ou não da morte - tem bem mais que 25 anos e não precisa se limitar ao caso acima. Há muito tempo, em 1572, Montaigne escreveu um ensaio* defendendo a idéia de que – sem vencer o medo da morte – não se aproveita a vida. E justificava sua posição argüindo que os Parlamentos mandavam os criminosos de volta para serem executados nos lugares onde haviam cometido os crimes. No caminho, lhes davam todas as regalias. Será, no entanto, que aproveitavam? Quantos saboreavam tranqüilos esses últimos privilégios? Ora, a morte é também o nosso destino. O remédio vulgarmente receitado é não pensar nela. Mas como não pensar nela? Que bruta estupidez é essa, que recomenda uma falta de visão tão grosseira?
Como não ver? Como não saber da morte, se aprendemos que Cristo morreu aos 33? Como deixar de saber da morte do vizinho? Assim como todo o mundo, o próprio Montaigne teve exemplos próximos: um irmão dele morreu aos 23 anos. Estava jogando “jeu de paume”, um esporte ancestral do tênis, e levou uma bolada na cabeça, perto da orelha direita. Não ligou. Seis horas depois, morreu. Como não encarar isso?
Vai-se fugir também das cerimônias fúnebres? Como não pensar na morte, passando por cemitérios e templos onde se ampliam formidavelmente o mistério e o medo? Quem teme a morte fica mais apavorado ainda quando o foco passa do natural para o sobrenatural.
Estar consciente parece ser melhor do que estar despreparado. Desconhecer a morte ou mesmo desconhecer a velhice não parece razoável. A história conta que um guarda de César – já bem combalido pelo tempo – veio pedir permissão para que pudesse se afastar e então pôr fim à própria vida. Sentia-se agora incapaz para a função. César respondeu: “Tu pensas então que ainda estás vivo?”.
Enfim, parece que ter consciência dos limites naturais, encarar, enfrentar a morte, não significa sofrer por antecedência, não significa se entregar, ao contrário: sofre-se menos, vive-se mais, quando se está livre do medo. Talvez o objetivo da filosofia seja mesmo essa terapia...
* Philosopher, c'est apprendre à mourir.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
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