Os melhores imóveis do Reino Unido têm sido comprados por estrangeiros. Por lá, quem compra imóveis novos, bons, não compra para morar: compra para investir. O fato é que estrangeiros - de Cingapura, da China, Malásia, Rússia - acabaram comprando 85% dos melhores imóveis de Londres em 2012.*
“Aqui como lá, más fadas há”. Isso acontece naturalmente em muitos países, porque o mercado orienta as pessoas. Ou será que as pessoas orientam o mercado? O fato é que dinheiro é só papel pintado e andam imprimindo às toneladas desde 2008. Com dinheiro até a metade das canelas, sem saber direito quanto vale isso, algumas pessoas veem o mercado imobiliário como porto mais seguro para armazenar valor. Assim como o ouro. O ouro seria um porto seguro também. Mas, seria mesmo? Afinal, ouro não serve para muita coisa, além de ostentar. Então, meio cismados com o ouro, muitos correram para os imóveis. Como consequência, sobem os preços no mercado imobiliário e o cidadão comum passa a ter dificuldades para morar razoavelmente. Os preços para compra e aluguel sobem, mesmo com muitos imóveis vazios, desocupados.
Como resposta a uma loucura dessas, a Austrália, por exemplo, resolveu que, para estrangeiros comprarem imóveis, é preciso haver a aprovação de um conselho (Foreign Investment Review Board). Basicamente, estrangeiros só podem comprar imóveis por lá se garantirem a construção de outros. Como se vê, na Austrália então, só quem pode distorcer o mercado são os australianos, os estrangeiros, não!
Recentemente li dois textos: um, do Chesterton, escrito em 1910 (What’s Wrong with the World) e outro, escrito pelo Papa Francisco agora em 2013 (Evangelii Gaudium). Ambos propõem uma forma de relacionamento econômico vinculada a um relacionamento social mais ameno, mais racional, mais classe média. Chesterton, e, mais de cem anos depois, o Papa, tanto um como outro, criticaram o capitalismo assim como o socialismo e pediram que se visse a realidade, que se tivesse bom senso, independentemente da crença em um ou outro sistema.
As circunstâncias da Londres do Chesterton em 1910 eram outras, é claro. Discutia-se se as mulheres deveriam ou não votar. Mas, independente de tudo, Chesterton entendia que a casa, o lar, é onde o cidadão se sente livre. Lá, ele pode ser ele mesmo. Lá se afirma o indivíduo, a família. Não achava aceitável as pessoas viverem em favelas, nem tampouco em conjuntos habitacionais, lugares em que a individualidade não é preservada. Por sua vez, o Papa diz que o dinheiro deve servir ao homem e não o homem ao dinheiro.
Concluindo, parece razoável entender que o valor dos imóveis, de alguma forma, transcende o valor do dinheiro. A propriedade imobiliária abriga o espírito de uma sociedade. A forma como os prédios ocupam o solo diz muito de uma população. Então, será razoável dizer que cresce a classe média no Brasil? Quem mora empilhado, em um ambiente em que não há respeito à individualidade, pode ser considerado “classe média”? Essa maneira de viver, que vamos achando “normal”, é a que queremos ou apenas achamos que não há outro jeito?
* “Stop rich overseas investors from buying up UK homes, report urges” The Observer, Saturday 1 February 2014 21.27 GMT.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
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