quinta-feira, 30 de maio de 2013

ATRASO E PROGRESSO

“Tu pareces um bugre, um índio louco!”. A minha avó, uma gaúcha nascida no começo do século XX, às vezes me classificava assim. Tinha boas razões. De vez em quando ela me equiparava aos índios, que eram tidos como ignorantes, grosseiros. Atrasados.

Hoje, não se deve mais dizer “povo atrasado”. São apenas diferentes. Afinal, “adiantamento” e “atraso” são – em última análise - questão de opinião. Ou não?

Vamos estabelecer então que nesta ruminação não haverá pretensão de provar coisa alguma; vamos só especular um pouco, testando a nossa concepção do que seja “progresso”. É que esse assunto, tão exaustivamente discutido nos últimos séculos passados, saiu da moda, e deixou um vazio na alma...

Mas, voltando aos nossos índios, sendo ou não “atrasados”, o fato é que havia canibalismo por aqui. Agora ninguém defende mais um costume como esse, mas houve um tempo em que era defendido. Há vários relatos na nossa história. Quando Mem de Sá sucedeu a D. Duarte, o primeiro cuidado que teve foi o de proibir que os índios aliados comessem carne humana. Decretou com toda a autoridade de pessoa nomeada.

Ocorreu que um cacique se opôs ao decreto – Cururupebe. Não pretendia abrir mão de um ritual tão significativo. A carne do inimigo morto vinha cheia de tradição, de simbolismo. E, assim sendo, anunciou que não iria se curvar às ordens do governador. Em seguida, duzentas tribos que viviam às margens do rio Paraguaçu juntaram-se a ele. Tribos e mais tribos unidas pela cultura comum.

Acabaram todos mortos: morreram defendendo o canibalismo... Matamos os canibais. Pronto. Matar pode. Comer a carne dos mortos é que é inadmissível.

Como se pode ver, estamos no terreno dos costumes, das opiniões. O que parece totalmente absurdo para uns, pode ser considerado normal por outros. Será então que a noção de progresso é absolutamente relativa? Não haveria argumentos objetivos para mostrar que um hábito é bom e o outro mau? Não haveria uma ligação entre o progresso científico e a ética, uma ligação entre progresso do conhecimento e progresso moral?

Sêneca (55aC-39dC) acreditava no valor do progresso científico; mas não que isso acarretasse garantia de melhora para o mundo. A vantagem estaria assegurada apenas ao cientista, ao filósofo, que se veria entre as estrelas, voltando para suas origens, em comunhão com o universo, levado por uma atividade intelectual ímpar, imensamente gratificante, mas dificilmente compartilhável. Então, se ele tinha razão, a população em geral não se beneficiaria necessariamente desses conhecimentos, restritos a tão poucos.

Já Rousseau (1712-1778) trouxe uma teoria desconcertante: o progresso só traz infelicidade! Achava que o homem havia sido feliz até desenvolver a agricultura e a metalurgia. Depois, havia trocado a felicidade pela civilização. A partir do momento em que o primeiro homem declarou que um lote de terra era sua propriedade privada; a partir daí, as desigualdades foram sendo ampliadas; e cada homem negociou a sua felicidade em um pacto social que trouxe desigualdades absurdas. O que foi bom para cada um individualmente, acabou sendo a desgraça de todos.

Depois do Rousseau, praticamente todos os que tratam desse assunto - até o Francis Fukuyama - concordam em que uma desigualdade grande é um mal a ser combatido. Em que pese esse consenso, no restante o assunto sempre se perdeu em um labirinto de idéias e opiniões. Houve um monte de franceses: Condorcet, Saint-Simon, Comte, revoluções, Marx... Mas vamos voltar aos gregos. Mal não há de fazer.

Há uns 2400 anos o filósofo Platão, concebendo o funcionamento de uma cidade ideal, chegou à conclusão que deveria haver igualdade entre homens e mulheres, em todas as tarefas possíveis. E ainda, para que houvesse harmonia, não deveria haver propriedade privada. Nem mulher exclusiva de um só homem; nem tampouco homem exclusivo de uma só mulher. Assim, os bens seriam bens de todos; e os filhos, filhos de todos, de modo que, tendo sido educados nesse ambiente, todos amariam e defenderiam o lugar onde morassem, não havendo distinção entre público e privado. Atingida essa situação ideal, aparentemente, não haveria mais progresso. O esforço seria todo para manter tudo assim, sem corromper esses costumes. E Platão atribuía à música uma influência enorme sobre os hábitos. Mudando-se a música, mudavam-se os costumes. E assim também com a ginástica, com os esportes. Então, e o futebol, por exemplo, caberia na cidade ideal? Vale arriscar que Platão aprovaria o futebol como fator de união. Mas o futebol como promotor de vendas e da discórdia, seria seguramente condenado. Nada de trocar de time por dinheiro. E vale notar que na cidade ideal o regime previsto NÃO seria o democrático.

Para encerrar, vai aqui uma conclusão pessoal, muito distante de qualquer comprovação: as teorias, as idealizações, a legislação, tudo isso se distancia muito dos costumes, da prática, das instituições; a tal ponto que se compreende a frase do Marx: “Je ne suis pas marxiste!” (Não sou marxista!). Assim é que pensar um pouco sobre o progresso alimenta a alma, rabisca um esboço, mas não produz resultado categórico. Graças a Deus.