quarta-feira, 5 de julho de 2017

A ARTE, A CIÊNCIA E A CONFIANÇA EM DEUS

Em 1930 Miguel de Unamuno escreveu uma novela de umas 45 páginas - “San Manuel Bueno, mártir”. A Igreja Católica baniu o livrinho; listou no “Index librorum prohibitorum”. A história é sobre um padre que vivia em uma aldeia, na Espanha. Era um sujeito boníssimo. Ajudava, dava atenção aos necessitados. Não podia ver alguém sujo, esfarrapado: providenciava logo ajuda. Não acusava ninguém. Pregava que ninguém falasse mal dos outros. Perdoava tudo. Não queria ninguém desocupado, pensando. Providenciava sempre atividade, constante. E era amado por todo o mundo. Quando falava, todos pareciam hipnotizados.

Acontece que um rapaz - que havia saído da Aldeia para morar nos Estados Unidos - volta. E começa a contestar a posição da Igreja, a achar que a fé não fazia sentido, que a população vivia pobre e iludida. E conversava sempre com o padre sobre isso. Enfim, o padre lhe confessa que não acreditava também, mas que só com a fé a população viveria feliz. Iludia os outros para que vivessem tranquilos. O rapaz então se comove e passa a agir como o padre. Passa a crer também que deve dedicar a vida a fazer com que os outros acreditassem em Deus e assim vivessem felizes.

Há no entanto alguma falsidade nessa novela. Faz o leitor deduzir que a falta de fé é natural. Faz o leitor acreditar que, evidentemente, Deus não existe. Induz o leitor pensar que – de alguma maneira - o padre sabia que Deus não existe.

Como se fosse óbvio que Deus não existe. Como se fosse fácil entender que – em vez de Deus - a matéria sempre existiu, não foi criada. Mas como assim, “a matéria sempre existiu”?

Para explicar melhor essa questão, vai aqui primeiro uma rápida notícia sobre nossa precária noção do que seja o tempo. Ou seja, vai aqui uma evidência de que não compreendemos bem o que seja o tempo. A noção de “sempre” é portanto absolutamente fora de nossa compreensão.

Os relógios nos satélites do GPS devem andar 38 microssegundos mais rápido por dia que os nossos aqui na Terra. Se não for assim, darão um erro que cresceria 10 km por dia no geoposicionamento. Acontece que o tempo lá em cima passa mais depressa porque está mais longe do centro da massa terrestre (embora isso seja atenuado pela velocidade do satélite em relação a nós). Ou seja, a Teoria da Relatividade tem essa aplicação prática: nos permite calcular o que os nossos sentidos não têm como perceber. A percepção do passar do tempo que os nossos sentidos têm é desastrosamente precária.

Vivemos então uma época em que só tomamos como verdade o que for cientificamente comprovado. O que não for cientificamente comprovado tem sido jogado em uma vala comum, como se todas as opiniões tivessem o mesmo peso, merecessem a mesma credibilidade. E essa credibilidade beira o zero. Para agravar o descrédito, as “verdades” científicas podem ser compradas. Só os bobos acreditam. Os espertos, os inteligentes, não confiam para não serem enganados.

Será isso mesmo? Diante da dúvida, não acreditar é mais inteligente? Quanto desperdiçamos por não confiar no que afinal era verdade? Quanto perdemos por desconfiar?

Não se trata aqui de uma apologia à fé cega, mas da importância de uma aposta inicial
, um crédito, seguido de atenção, em uma procura por entender bem em que se está acreditando.

Enfim, é mesmo possível viver sem confiar em ninguém, sem acreditar em nada, muito menos em Deus? A sensatez nos levou a isso?

5 comentários:

Taciana Brown disse...

Eu acredito em você meu pai. Acredito nos que amo e no que sinto. Tenho tentado acreditar mais na minha intuição e não mais me sabotar. Acredito que a vida é Deus ou o Diabo. Depende do que queremos. Não acredito na igreja mas gosto de entrar nelas. Algo do cristianismo ficou em mim. Gosto de acreditar no sagrado mas o meu sagrado não passa pela igreja e suas doutrinas. Passa por uma conexão minha com o todo. To curtindo mais acreditar na prática da yoga. Eu me sinto bem quando pratico. Amo vc meu pai. ❤️ Beijos da sua filha, Tati

Adriana Svacina disse...

Não necessariamente é não acreditar em nada ou ninguém. No caso de pessoas, é mais fácil acreditar, no caso de mistérios,pode ser só um caminho do meio - não acreditar no que não se sabe. Se não sabemos, é isso: não sabemos. Há possibilidades, mas não certezas, já que não há como ter certeza daquilo que não se sabe... É questão de aceitar a própria ignorância. Ou ao menos, a minha ignorância. 😊

Unknown disse...

Caro Marcos, que bom receber e ler mais uma de suas instigantes ruminações. não conheço o mencionado autor e livro, mas me despertou interesse em lê-lo. Seus questionamentos são muito pertinentes, contemporâneos e nos induz à reflexões. Se"Deus está morto", como afirma Nietzsche, se devemos duvidar de tudo como afirma Descartes, que significado devemos dá à vida quando a relatividade é envolvente.
e a fé, que não está morta, mas me parece ser um atributo do indivíduo e aplicada as circunstâncias, como podemos defini-la?
Vale um diálogo, em momento oportuno, assim espero.
Abraços,
Lucena

Frances Sampaio disse...

Tio, acho que a vida nas cidades grandes insiste em nos fazer desconfiados e autocentrados. A falta de contato com a natureza nos faz esquecer da nossa real (ir)relevância e, pra mim, acaba deturpando muito o que de fato é necessário para uma vida feliz.
Nada disso na verdade pra mim tem a ver com fé, mas de fato, para pessoas com condições terríveis de vida, acreditar que tudo é parte de um plano divino conforta. Aí está o peso e responsabilidade da Igreja.
Crer em Deus não tem a ver com conformismo, tem a ver com fé, apenas. Usar da fé para controlar as pessoas e mantê-las em condições terríveis é uma pratica bastante comum nas instituições religiosas, por isso eu não creio nelas, e acho que muitas pessoas hoje em dia não creem em Deus justamente por causa das instituições.
Mas isso é tudo criação humana, nada tem a ver com Deus de fato...
Como essa questão de fé sempre foi um dilema enorme pra mim, tento viver minha vida de uma maneira que acho boa pra mim e pros que me cercam, e, se em algum momento me vir diante de um julgamento divino, acho que passo (:

Adriana disse...

https://www.ted.com/talks/michael_shermer_on_believing_strange_things

É, no mínimo, divertido. Beijo.