Enquanto filmavam um homem morrendo afogado em um lago da Florida, adolescentes riam e zombavam. Foi agora, em 9 de julho de 2017. Postaram no YouTube (1) .
Sempre houve jovens malvados - tocavam fogo em mendigos - mas não anunciavam. Roubavam carros – como o Chico Buarque fazia – mas não divulgavam isso. Hoje não há mais absurdo: tudo é normal. O Chico Buarque diz, rindo, que roubava carros na juventude.
Mas, por muito tempo, a sociedade admirou certos atos enquanto condenava outros. Schopenhauer, por exemplo, entre muitos outros, acreditava no seguinte: “As três inclinações éticas fundamentais - egoísmo, malícia e compaixão - estão presentes em cada um em proporções diferentes e inacreditavelmente desiguais.” (2). Na época, era geral a crença de que existia o bom caráter e o mau caráter. Vale esclarecer isso melhor aqui: acreditava-se que o egoísmo prevalecia. A maioria era basicamente egoísta. Mas acreditava-se que existia gente que, mesmo tendo sua parte egoísta, mostrava muita compaixão; enquanto outros praticamente tinham sempre a intenção de prejudicar, de ver o outro sofrer. Quem mostrava compaixão tinha bom caráter; quem mostrava malvadeza tinha mau caráter.
Passamos da hipocrisia ao cinismo. Mas, o que quer dizer isso: “passamos da hipocrisia ao cinismo?”. Vai aqui a explicação: o hipócrita prega uma coisa, mas pratica outra. O hipócrita faz elogios ao bem, mas secretamente pratica o mal. Já o cínico é diferente do hipócrita: o cínico não acredita no bem, zomba dos bonzinhos, diz que o mal é normal. Então, passamos da hipocrisia ao cinismo. Não tentamos mais disfarçar os atos maus: agora dizemos que nada é mau, não existe ato reprovável.
Vale ressaltar que o cínico é diferente do sujeito que pratica um ato mau por falta de conhecimento, diferente do sujeito que erra porque porque se enganou. Errar é humano, ninguém pode garantir coisa alguma com 100% de certeza: mas há uma grande diferença entre tentar acertar e não se incomodar em errar. O cínico não se incomoda em errar, não tem escrúpulos.
Somos hoje, todos nós, cínicos? Afinal, ainda existe alguma coisa que a sociedade considere condenável? O conceito de bom caráter e mau caráter existe ainda, ou todo o mundo é igual? Antes não era assim: acreditava-se no bom e no mau caráter.
Parece que passamos a nos tornar cínicos há algumas décadas. Já se procurava mostrar que não existe caráter: as pessoas se comportam segundo as situações – um assassino pode ser um ótimo pai de família. A prática da psicologia provaria isso.(3) Argumenta-se que a psicologia não confirma, por exemplo, que as pessoas tenham sempre compaixão, ou sejam sempre honestas. É comum ser, por exemplo, honesto em determinadas situações e desonesto em outras. E nem todo honesto é também solidário; há muita gente honesta mas impiedosa. Enfim, há algumas décadas começamos a questionar a existência de “bom caráter” ou de “mau caráter”. E daí, parece que partimos para concluir que todos são iguais! Serão mesmo?
Um caso ilustra bem as consequências de não admirarmos nem condenarmos as pessoas. Hoje parece que há uma crença absoluta na recuperação dos criminosos. Aliás, não existem criminosos, existem suspeitos. Não há bons e maus: todos são iguais. Isso faz lembrar de um filme de 1971 (4). Um sujeito perverso tinha prazer em espancar e estuprar. Pegou 14 anos de prisão. Mas aceitou fazer um tratamento para ser solto logo. Injetaram drogas nele e fizeram com que visse cenas de espancamento e sexo sem parar por vários dias. O sujeito virou um zumbi. Foi depois entrevistado por um capelão que confirmou que ele não ameaçava mais ninguém; por outro lado, havia perdido a personalidade, a capacidade de decidir. Esse era o jeito para evitar a superlotação das prisões. Vamos chegar lá? Todos são iguais e a solução está na farmácia?
NOTAS
1. https://www.youtube.com/watch?v=ctN99VRsttM Florida Teens Mock And Laugh While Filming Disabled Man Drowning.
2. Schopenhauer Sobre a base da moralidade, 1841.
3. Lack of Character: Personality and Moral Behavior, Doris, John M., Cambridge University Press, 2002.
4. Clockwork Orange - Stanley Kubrick.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
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2 comentários:
Olá, Marcos.
Obrigado, por mais uma ruminação. Desta feita você nos coloca diante de temas controversos e que sempre intrigaram teólogos e filósofos da antiguidade e da modernidade, a exemplo de Schopenhauer (por você abordado), considerado, por Lefranc, um "radical pessimista", que exerceu influências em Sartre e Nietzsche. Esse último chegou a afirmar, em sua Genealogia da Moral, que "o pessimismo de Schopenhauer advogava uma vida de autonegação e via a perspectiva de aniquilação como a única forma autêntica de salvação".
Diante da questões e das "qualidades" do "caráter" humanos, inatas ou não, que você aborda em sua ruminação, está Schopenhauer com a razão? Ou seremos capazes, por meio de quedas sucessivas, de levantar e "dá a volta por cima" para resgatar, como dizia Aristóteles, o bem maior: a felicidade?
Grande abraço.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo. Martin Claret, 2013.
HATAB, Lawrence J. Genealogia da moral de Nietzsche. São Paulo. Madras, 2010.
LEFRANC, Jean. Compreender Schopenhauer. Petrópolis. Vozes, 2008.
Olá Lucena,
Agradeço por considerar o que escrevo. Procuro ser breve e {as vezes sou obscuro... Na verdade não endosso o pessimismo de Schopenhauer, apenas citei como um entre muitos, que compartilhavam a opinião de que a ética faz sentido, ou seja, de que existe o bem e o mal. Hoje nos tornamos cínicos: achamos que tudo é relativo... Espero ver você em breve. Abraço, Marcos
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