terça-feira, 2 de novembro de 2010
Pretendia votar no Serra
Parecia natural votar no Serra. Seria um voto pela alternância do poder, sem alterar substancialmente o curso do país. E o Serra era conhecido: “It´s better a devil you know than a devil you don’t know”. Além disso, sendo mineira e vivendo como gaúcha, nada garantia que a Dilma fosse olhar especialmente para o Nordeste.
Então o Serra começou a desqualificar a adversária e, mais do que isso, procurou obviamente assustar o eleitor, enchê-lo de medo, bem nos moldes das campanhas que a extrema-direita conduz nos Estados Unidos. Copiou exatamente, sem tirar nem pôr. Afinal, uma pessoa muito assustada é capaz de votar contra seus próprios interesses. Importou a figura do “terrorista”. Dentro desse quadro, resolveu logo hostilizar os países vizinhos. Nada mais americano.
Pesquisei a biografia do Serra. Em 1973 ele vivia como refugiado no Chile, quando houve o golpe do Pinochet contra o Allende, coordenado pelos Estados Unidos através da CIA. Serra, por ser esquerdista, “Foi preso no aeroporto quando tentava deixar o país com a família, sendo levado ao Estádio Nacional, onde muitos foram torturados e mortos. Um major que o libertou foi posteriormente fuzilado. Serra refugiou-se na embaixada da Itália, ficando como exilado político por oito meses aguardando um salvo-conduto. Partiu depois para os Estados Unidos onde concluiu um segundo mestrado em 1976 na Universidade de Cornell, e ainda o doutorado em Economia na mesma instituição em 1977. (Ver Wikipedia)”
Ocorre que, em 1973, nos EUA, então sob o governo Nixon, os esquerdistas não eram bem-vindos. Afinal, o esquerdista tinha ido logo para os Estados Unidos, exatamente o país que simbolizava a direita. Vale lembrar que, naquela época, o John Lennon, ativista político, cantava “Power to the People” e estava sendo investigado pelo FBI. Procedimentos para sua deportação haviam sido iniciados em 1972. Em 80 foi assassinado.
Enfim, Serra foi recebido e conseguiu ganhar dinheiro justo no território de onde vinha o suposto inimigo dele. Não recebi explicação sobre isso.
E assim a biografia do Serra foi ganhando para mim contornos extravagantes. Apresentava-se como a solução contra a corrupção, embora os partidos com mais deputados cassados fossem, pela ordem, DEM, PMDB e PSDB! DEM e PSDB eram coligados. E veio outra estranheza ainda por cima: a tentativa dele de novamente vincular o estado à Igreja.
Em contrapartida, havia criado o “genérico”, o que seguramente deve ter causado efeitos colaterais na indústria farmacêutica. Coisa de esquerdista mesmo. Enfim, diante desses fatos tão contraditórios, resolvi que anularia o meu voto.
Mantive essa decisão enquanto o Serra foi-se mostrando como uma construção artificial; aparecia sempre com um discurso visivelmente postiço, fazendo pouco da inteligência do espectador. Uma bolinha de papel que recebeu na cabeça, sem sequer lesar a pele, evoluiu para uma tomografia. Mantive a intenção de anular o voto, mas comecei a considerar o PT.
Até que recebi vários e-mails insultando os eleitores da Dilma. Esses e-mails furiosos, surpreendentemente, vinham de pessoas que, até então, durante toda a vida, se haviam mostrado equilibradas e cordiais. Gente doce passou a aparecer com olhar rútilo e uma baba elástica e bovina escorrendo pelo canto da boca. Achei então que o Serra não podia ser do “Bem”: transformava gente normal em possesso, como descrito pelo Nelson Rodrigues. E então, votei na Dilma.
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