terça-feira, 26 de dezembro de 2017

INSISTINDO EM SALVAR A REPÚBLICA: VIVA CÍCERO DE NOVO!


Cícero viveu seus últimos dias enquanto a República Romana – que ele tanto defendia – agonizava. Isso talvez tenha algum paralelo com a situação atual do Brasil, que procura um rumo moral enquanto a nossa República atravessa um período de corrupção desenfreada.

Cícero percebia que uma república só se sustenta quando predomina entre a população uma moralidade compatível com um governo descentralizado; uma república só se sustenta enquanto a população tiver convicção de que deve agir propondo ações e fiscalizando o que afeta o interesse público.

Na verdade, Cícero defendia a Republica atacando. E atacou, entre outros, Marco Antônio, membro do triunvirato que governava. Por isso foi executado no ano 43 aC. Dezesseis anos depois, Roma deixou formalmente de ser uma República, passando a ter um governo imperial.

Mas o que interessa aqui é que nos seus últimos 3 anos de vida, Cícero escreveu Paradoxa Stoicorum (46 aC), Tusculanae Quaestiones (45 aC), De Amicitia (44 aC) e De Officiis (44 aC), textos que procuravam trazer os valores morais do estoicismo grego para o povo romano.

Vale lembrar que durante a Idade Média os textos de Cícero eram parte do currículo escolar na Europa. O latim era ensinado através do que ele escreveu e, como consequência, disseminavam-se as idéias estóicas. Atribui-se a isso o movimento Renascentista, que transformou o mundo.

Para resumir, como um exemplo vale por mil palavras, vai aqui uma frase de Cícero em latim. É que o português ainda tem muito do latim. Vale a pena ver que - assim como a república deles tem muito a ver com a nossa - também a nossa língua não difere tanto assim da deles. Segue portanto esse trecho de De Amicitia, que mostra bem a moralidade proposta; e logo depois vão um vocabulário e a tradução integral:


“Haec igitur prima lex amicitiae sanciator, ut ab amicis honesta petamus, amicorum causa honesta faciamus, ne exspectemus quidem, dum rogemur; studium semper adsit, cunctatio absit: consilium vero dare audeamus libere.”

igitur – portanto / sanciator - sancionada / petamus – peçamos / quidem – certamente / dum - até que / rogemur – tenha rogado / studium – entusiasmo /adsit – apareça / cunctatio – hesitação / absit – falte / consilium – conselho / vero – na verdade / audeamus – ousemos / libere – livremente.

Que seja esta pois, a primeira lei da amizade, de não pedir nem fazer pelos nossos amigos senão coisas honestas, mas não esperemos que nos roguem; demonstremos sempre zelo, jamais desleixo; ousemos também dar-lhes livremente nossos conselhos. (Cap. XIII Diálogo sobre a Amizade, Marcus Tullius Cícero – Livro de Direito Público traduzido por um grupo de voluntários).



E assim termina o exercício intelectual de hoje, que tentou nos aproximar das nossas origens e, ao mesmo tempo, compreender melhor o que se passa com a República.

Um comentário:

Zé Mauro disse...

As maravilhosas idéias e sugestões de como uma civilização deveria se comportar ,aqui colocadas magistralmente, funcionam num povo disciplinado, cumpridor de leis, preocupado com o bem estar coletivo,e que respeita os limites que sua consciência impõe.Infelizmente não é o nosso caso. Parece que as gerações pós guerras ou catástrofes são mais abertas aos ensinamentos de como viver harmoniosamente. Não é o nosso caso também...
Bizarro...