sábado, 24 de agosto de 2013

A Corrupção e a Consciência da Culpa

Corrupção significa apodrecimento. E como é, então, que nos habituamos com a corrupção, como nos conformamos com a podridão? Como acontece essa decomposição moral? Vai aqui um esboço inicial; um pequeno ensaio sobre as circunstâncias em que a corrupção ocorre. Assim, esta ruminação é sobre esse processo traiçoeiro de dissolução, de degradação; tão sutil que acaba sendo aceito como normal.

Acontece que, geralmente, corrupção e má fé vêm juntas no mesmo pacote. Sartre explica bem o que significa isso: má fé. Quem usa de má fé tem a posse completa da verdade, mas, antes de tudo, turva sua própria visão, ilude a si mesmo. Afasta da consciência uma parte dos fatos, distorce, atribui um novo significado ao que acontece. Passa a não se achar culpado, mesmo sabendo que tem culpa. Oscila entre a boa fé e o cinismo.

O salário absurdo que o político ou o juiz atribui a si mesmo, o uso indevido que faz dos recursos públicos, corporativismo, clientelismo, tudo isso é apresentado sem a menor vergonha, aliás, pomposamente, por via de regra. O corrupto não perde a pose, ao contrário, age como se fosse corretíssimo, cerca-se de toda a cerimônia. O ritual, o simbolismo que serve para a corrupção, é o mesmo que serve para os atos mais nobres. A população então confunde rótulo com conteúdo. Acredita. O próprio corrupto não se acha corrupto. A má fé impede que a pessoa se dê conta da corrupção. Esse é um fato importante.

Além da má fé, há outra circunstância que normalmente disfarça a corrupção: é a má administração, a má gestão. Há muitos anos saiu um estudo sobre roubo nas empresas. A conclusão foi que, geralmente, o roubo está associado à falta de controle, de gerência. O ladrão então não se acha ladrão: diz para si mesmo que aquilo não tem dono, que ninguém se interessa pelo objeto que ele quer roubar, que tanto faz levar como deixar lá; se ele não levar, outro leva. Rouba sem culpa.

A pequena população da Islândia – 320 mil habitantes – deu-se conta de quanto a má gestão se confunde com o roubo. Geir Haarde era primeiro ministro no tempo em que faliram os bancos islandeses, privatizados havia pouco. Muita gente ficou endividada, empobreceu por isso. Haarde acabou sendo levado a julgamento. Aí se fez a distinção: não foi condenado por corrupção: foi condenado por incompetência. Alguns banqueiros, esses sim, acabaram presos.

Temos visto, então, tanto a ma fé quanto a má gestão promovendo um roubo sem culpa, ou seja, a má fé e a má gestão camuflam a dissolução dos costumes, escondem a degradação moral, a corrupção. Isso ficou patente no caso da Islândia. No resto do mundo, nem os políticos foram julgados nem os banqueiros presos pela crise de 2008. A mídia abafou o caso. Agiu de má fé. O pouco que foi noticiado sobre a Islândia omitiu a corrupção. O caso apareceu como confronto partidário, como disputa entre direita e esquerda. Muitos políticos e muitos milionários – de esquerda e direita – na Europa e nos EUA, não gostariam de ver a corrupção levada aos tribunais...

Um comentário:

Hilton Losant disse...

Querido Marcos,
Seus textos são de uma diretividade e de uma clareza impar. Também dizem respeito ao que está faltando nas diversas sociedades, ao longo dessa fabulosa nave espacial chamada Planeta Terra, entre as quais nós, humildes mortais aqui no Brasil, fazemos parte - a sociedade atual.
Por que, valores importantes que acabariam ou reduziriam sobremaneira esse caos que gera toda e qualquer corrupção, não colocados, com essa lucidez, nas escolas?
Você dá uma sugestão: alguns políticos e milionários não deixam.
E até quando permitiremos que eles não deixem?
Forte abraço.
Hilton Losant