terça-feira, 30 de julho de 2013

E-mails sobre o islã

Aparecem agora uns e-mails sobre o islã. Falam como se o islamismo fosse uma novidade horrível: apareceu uma religião malvada. As religiões sempre foram todas boazinhas, e agora surge essa, perversa. No entanto, que tal abrir o livro de história e ver que cristãos e muçulmanos andam às turras há 1500 anos? Faz tempo que conhecemos os islamitas, ou maometanos, ou muçulmanos, ou sarracenos. De acordo com a conveniência, damos um nome diferente a eles.

Vai aqui então uma complementação, mostrando só um pouquinho mais sobre o islã; e sobre nós mesmos. Possivelmente, quem não sabe dos islamitas, também não sabe dos cristãos. Vamos então a alguns fatos ilustrativos; primeiro, um mais próximo de nós, na Espanha.

Por volta do ano 711, árabes e berberes islamitas invadiram a península ibérica. Derrotaram logo os visigodos, que haviam aderido ao cristianismo. A população acolheu os invasores, que os tratava bem melhor que os antigos governantes.

Durante os quinhentos anos que ficaram por lá, os árabes foram, em geral, excelentes administradores. Os impostos, mesmo para os não maometanos, acabaram sendo inferiores aos que os visigodos, aliados aos bispos, vinham cobrando. Preocupavam-se com o povo: um quarto dos impostos recolhidos ia para os pobres; construíram 70 bibliotecas... Vale lembrar que Córdoba acabou sendo a terceira cidade mais importante do mundo, atrás apenas de Bagdá e Constantinopla. Mostraram-se tolerantes; não tentaram converter ninguém. O clima era de liberdade. Por exemplo, o califa Hakam II tinha um judeu como primeiro ministro. Casamentos entre muçulmanos e cristãos eram permitidos. Um filósofo deles, Averróis (Ibn Rushd), apresentou uma nova visão da filosofia de Aristóteles, que impressionou até mais aos cristãos que aos próprios maometanos. Assim é que, na Espanha, em geral, os islamitas árabes deixaram uma boa impressão.

Longe da Espanha, em uma Jerusalém naquele tempo dominada por eles, conviviam em paz judeus e cristãos. Havia um templo cristão no Santo Sepulcro – construído sob mando maometano - com capacidade para 8 mil pessoas. E havia a sinagoga. No ano 1099 chegou por lá a Primeira Cruzada. Após 40 dias de cerco, 12 mil cristãos lutando contra 1000 islamitas acabaram por tomar a cidade. Durante 24 horas torturaram e mataram 70 mil pessoas. Os judeus, que se refugiaram na sinagoga, foram queimados vivos.

Mais recentemente, os cristãos Bush e Blair resolveram atacar o Iraque. Usaram munição com urânio empobrecido. Hoje, nas regiões onde houve combate, os hospitais estão lotados por pacientes com câncer. Estima-se que cerca da metade da população da região morrerá nos próximos anos, principalmente de neuroblastoma. E teve a bomba atômica em Hiroshima, lembra? E depois Nagasaki, porque que uma cidade só não bastou. Os cristãos, aparentemente, rezam radiação atômica para tratar os não cristãos. Entre nós mesmos - cristãos misericordiosos que somos - usamos armamento convencional, como o “carpet bombing” que arrasou Dresden na Segunda Guerra... Como se vê, o cristianismo não tem muita relação com Cristo.

Chegando aos dias de hoje, talvez a novidade seja que vivem atualmente cerca de 25.000 judeus no Iran. Aliás, os judeus andam lá pela Pérsia há uns 2500 anos... Não foram trucidados, como os e-mails frequentemente fazem supor.

Então, pelo que foi dito acima, pode parecer que o demônio somos nós, cristãos. Não se trata disso; apenas não se deu espaço aqui para listar atrocidades deles também. O propósito foi só o de ampliar o quadro que vem aparecendo na Internet, incluindo a visão do outro lado. Só para equilibrar um pouco.

3 comentários:

Unknown disse...

dr. Marcos
Nós somos bons, pois o Sartre disse que O INFERNO SÃO OS OUTROS
Bartô

RP disse...

Qdo informo "repassando" em um e-mail, significa nem concordo e nem discordo. Você tem razão em um ponto: informações tem a força da afetação e é necessário avalia-las e interpreta-las. Por outro, acredito que atos de violência, seja ela atribuída a grupos religiosos, políticos, empresariais, indígenas, raciais ou outros ao longo da história, está associado mais ao estado psíquico de desamparo e necessidades de afirmações humanas que embasem e deem significado a sua existência (como por Ex.: poder e dinheiro) do que os objetivos explicitados de um grupo social. Lidar com as nuances da sociedade, requer informações que, via de regra só revelam pontas de icebergs. Mesmo as obtidas de "fontes fidedignas".

zé mauro disse...

Os homens podem venerar humanos , entidades ,animais ,astros ou ainda elementos geográficos.
O Deus de Abraão e Jacó era guerreiro , justiceiro e até vingativo quando necessário. O mesmo que inspirou as grandes religiões de hoje , mas umas não são melhores que outras por serem mais ou menos violentas.
Há dentro de nós uma inquietude relacionada a verdades divinas , parcialmente satisfeita pela nossa educação ,cultura e conveniência e
totalmente satisfeita pelos que tem
fé.
abraço