terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O BEM E O MAL: SANTO AGOSTINHO E O CAMBALACHE

“Cambalache” é um tango muito conhecido; antigo. Tão antigo, que ainda acusa, ainda reclama por não se admirar o bem, nem tampouco se condenar o mal:
......
Todo es igual! Nada es mejor!
Lo mismo um burro
Que um gran profesor!

......

Hoje se entende que, se o sujeito é ladrão, é porque nasceu com determinadas características, em dado contexto social; é ladrão porque é viciado; enfim, está imerso em tais circunstâncias que não tem escolha. E, se não há escolha, não há responsabilidade; aconteceu o inevitável, ninguém tem culpa. Por outro lado, também ninguém merece admiração: se alguém arriscou a própria vida para salvar uma criança, foi só isso: mais uma banalidade. O melhor aluno da sala e o pior são apenas alunos, só isso. Dizer que um é bom e o outro ruim é discriminação; não se deve falar em diferenças, tudo é a mesma coisa. Só nos esportes é que vale reconhecer mérito: taça, medalha de ouro e tudo o mais, só em competições esportivas.

Por trás desses novos tempos que vivemos há uma crença: uma crença que leva a tolerar tudo, a achar que nada merece oposição. E a não reconhecer mérito. Acredita-se, hoje, que tudo o que acontece é determinado pelo que aconteceu antes, tudo faz parte de uma cadeia imensa de eventos inevitáveis, decorrentes de uma onda que vem do passado. Essa idéia, essa crença, veio do estágio atual da ciência, que acredita que tudo está encadeado desde o Big Bang; ou seja, quem toma decisões é a evolução da espécie, o DNA.

Assim é que, aparentemente, o pensamento de Santo Agostinho – a crença no livre arbítrio da vontade - foi “superado”. Agostinho rejeitava essa idéia do determinismo. Para ele, mesmo que uma pessoa fosse escrava de outra, ainda assim haveria escolhas livres a serem feitas. Ainda que fosse menor de idade ou incapaz mentalmente, ainda assim, tinha uma certa liberdade de escolha e, portanto, tinha um certo grau de responsabilidade.

Lá por volta do ano 395 Agostinho escreveu “De libero arbitrio voluntatis”. Muito do pensamento ocidental tradicional, cristão principalmente, está explicado ali. Nossa antiga visão do bem e do mal, do certo e do errado, vem dali. Acho que vale a pena dar uma olhada nesse pensamento agora desprezado. Santo Agostinho acreditava que o bem e o mal não são questão de opinião de outras pessoas; achava que é importante que cada um conheça e compreenda as questões morais. Que comece testando, partindo de alguma crença, e vá verificando se cada uma delas faz sentido.

Agostinho entende que tudo o que existe é bom. O mal é só uma desordem, uma má escolha, uma substituição de uma coisa melhor por outra pior. “Fazer o mal consiste em virar as costas para o que se pode compreender”, deixar-se levar por desejos desordenados, em vez de seguir a razão.

Mas, como saber que uma coisa é superior, como compreender que uma coisa é melhor que outra? Certamente não haverá uma constatação científica, não será uma questão de fatos, mas uma questão de opinião, de juízo.

Agostinho, então, estabelece que o conhecimento, a coragem, a justiça, a moderação, são escolhas superiores. Por exemplo, são superiores à riqueza, à saúde, ao poder. Não é que saúde, riqueza ou poder sejam maus – são bons – tornam-se maus se forem escolhidos no lugar da justiça, da coragem, do conhecimento, da moderação, enfim, das virtudes clássicas.

Mas como é que se constata isso, como confirmar, por exemplo, que a justiça deve prevalecer sobre a riqueza? Que diferença há entre acreditar e compreender? Em dado momento, no diálogo com seu amigo Evodius, Agostinho diz: “Como eu gostaria de que você soubesse, da mesma forma que acredita, que os animais não têm razão!*”

Como então se passa do “acreditar” para o “compreender”? Como compreender que tal escolha é melhor e a outra pior? Talvez um filósofo do século 20, muito respeitado por ingleses e americanos, apesar de ser austríaco – Wittgenstein – possa ajudar nisso. Era matemático, além de filósofo. Começou tentando ser lógico e preciso ao explicar o significado das palavras. Acabou por admitir, tendo exaurindo todas as formulações da lógica, que o significado de muitas palavras é melhor compreendido pelo uso. Daí a sua frase famosa “Não pense, apenas veja!**” E, afinal, é assim que se compreende Santo Agostinho.



• *De libero arbitrio voluntatis [7].
• **Philosophical Investigations [66].

Um comentário:

Taciana Brown disse...

Eu vejo meu pai, que seguindo a minha razão eu compreendo muito vc e Santo Agostinho. Vejo que pensamos parecido sobre o bem e o mal. Que bom poder me sentir compreendida lendo vc. Beijo grande da tua filha, Tati.