sábado, 28 de julho de 2012

A VIDA, OS AUTOMÓVEIS E O MILTON FRIEDMAN

Quem faz diferença, quem altera a paisagem, é notado. E quem é notado está a um passo de ser admirado. Assim, de tanto admirar quem chama a atenção, fica parecendo que sempre é bom mudar, produzir. Quanto mais alteração, quanto mais obra, melhor. Quanto mais movimento, quanto mais velocidade, melhor.
Mas vamos à realidade concreta. São vendidos cerca de 3,5 milhões de automóveis por ano no Brasil. Para imaginar melhor o que isso significa, um avião a jato de passageiros, comum, demoraria aproximadamente quinze horas voando sobre uma fila formada por eles. Enfileirados, esses automóveis, vendidos aqui em um ano, se estenderiam por aproximadamente 13.500 km, o que é mais do que o diâmetro da Terra. Uma coisa parece óbvia: não pode ser sempre “quanto mais, melhor”.
Então, se não serão mais produtos industrializados, o que vai ser? O que vai dar empregos? Como as pessoas poderão viver? Para onde podem ir as multidões que vivem da produção industrial?
Além de queda, coice: se a produção tem um limite, ainda por cima, torna-se cada vez mais concentrada, em busca de ganhos de escala. Robôs, tecnologia, tudo enfim conspira para reduzir ainda mais os empregos na indústria.
E assim, este brevíssimo ensaio examina uma perspectiva provável: especula sobre o futuro.
Além da indústria de automóveis, outras vão crescendo e transformando eficientemente a Natureza em lixo. A cada ano, no Brasil, cerca de um milhão de automóveis deixam de circular.
Os desempregados não podem ir para o campo : a colocação em massa em áreas rurais é inviável. Recortar o mundo em 7 bilhões de pedacinhos - um lotezinho de terra para cada um - significaria o fim da produção de alimentos.
Restaram os empregos no setor de serviços, nas cidades. Haja lojinhas – virtuais talvez - igrejas, produtores de filmes, cantores, jogadores de futebol, cabeleireiros... Escolas, quem sabe, locais para que se faça exercício físico. Mas isso já existe. Ou existiu: muita gente, já no setor de serviços mesmo, também foi substituída por computadores, como aconteceu nos bancos.
Talvez então, uma mentalidade próxima à hindu venha a prevalecer. Nem tudo é pressa, nem tudo é produção na Índia. Ou, quem sabe, para honrar as tradições ocidentais, venhamos a resgatar a velha idéia dos filósofos gregos, de que a vida mais elevada é a contemplativa.
Enfim, a vida espiritual talvez seja parte do caminho; não só para o indivíduo, mas para uma economia sustentável. Para explicar isso melhor recorre-se ao Milton Friedman. Morreu em 2006. Talvez os mais velhos se lembrem dele, um economista da Universidade de Chicago, Prêmio Nobel em 1976, famoso por seus estudos sobre consumo e moeda, na linha do Hayek. É dele a idéia de jogar dinheiro de helicóptero para que a economia permita que a vida continue.

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