quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A MORALIDADE DOS FRACOS – EXAMINANDO NOSSOS VALORES

Vai aqui um assunto que parece distante. E passa por Nietzsche, que pode parecer mais distante ainda. No entanto, hoje, muitos agem como se tivessem lido e acatado Nietzsche.
Parecem acreditar que temos a moralidade dos fracos; uma moralidade que diz que são amados por Deus os pobres, os impotentes, os sofredores, os necessitados, os doentes e os horríveis; e invertemos a noção de que “bom” está relacionado a nobre, forte, belo, feliz. Nossa moralidade seria então própria de escravos, baseada na valorização de ações altruístas; úteis, portanto, aos outros e não a nós mesmos.
E os nietzsches de hoje vêem essa nossa moralidade doentia tolhendo a naturalidade dos fortes. Acham que o homem forte está além do bem e do mal, indiferente ao perigo e ao conforto, alegre com a destruição e a volúpia, como um animal selvagem, diferente dos domesticados...
Vêem a “sabedoria” como recurso dos fracos: recurso artificial para sujeitar as pessoas a pesarem cada um de seus atos, contabilizando como “bom” ou “mau” tudo o que fazem, como se houvesse um balanço financeiro ao final, forjando desse modo um sistema que premia a mediocridade em vez de premiar a uns poucos realmente superiores.
Nietzsche via o ressentimento como inerente aos fracos. Achava que o homem forte, sadio, age; ao contrário do fraco, que apenas reage. Em conseqüência, Nietzsche não via distinção entre ressentimento e a indignação que se sente ao ver uma injustiça – para ele, ressentimento e clamor por justiça eram a mesma coisa.
Tudo indica que – se quisermos explicar nossos valores – precisamos distinguir bem o que seja realmente injusto, para que não se confunda com ressentimento, frustração, inveja...
A nossa moralidade entende que todos, inclusive os fortes, querem justiça. A menos que os fortes pretendam viver totalmente isolados, inclusive uns dos outros. É a justiça que permite a coerência, é a justiça que agrega. Sem justiça nenhum grupo persiste, porque não consegue agir de acordo consigo mesmo. Não é o ressentimento que agrega, é outra coisa, diferente: a justiça.
Enfim, me lembro de um filme – acho que foi do Groucho Marx – em que aparecia sobre um fundo negro em letras brancas: “Deus está morto! – Nietzsche.” Na cena seguinte aparecia: “Nietzsche está morto! – Deus”.
Concluindo: parece que Nietzsche nos obriga a ver bem o limite de nossos valores. Esse limite seria a linha que separa justiça de ressentimento.
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P.S. Muita gente no Brasil deve mesmo ter lido Nietzsche. A Alemanha teve interesse nisso. Entre 1886 e 1893 a irmã de Nietzsche (Elisabeth Förster-Nietzsche) e seu marido estiveram no Paraguai, onde fundaram uma colônia ariana anti-semítica (Nueva Germânia). Depois, durante a Primeira Guerra Mundial, o governo alemão imprimiu 150 mil cópias do “Assim falou Zaratustra” e distribuiu entre os soldados.

3 comentários:

Taciana Brown disse...

Acho que a justiça passa pelo amor , pelo respeito e pela consideração. Tanto aos outros quando a vc mesmo. Se vc não consegue se respeitar, ser justo com vc, se amar e considerar seus valores, penso que vc jamais conseguirá ser justo , amar, respeitar nem considerar ninguém.

Bjo Pai!

Marcos T Sampaio disse...

Você diz que quem não ama a si mesmo não pode amar os outros. Fica implícito que você acha que amar – no sentido judaico-cristão da palavra – amar é uma coisa boa, desejável.

No entanto, parece que Nietzsche propõe o contrário: não amar! Em vez disso, levar uma vida destemida, descuidada, que encare a morte, o desejo, a glória e o desastre do mesmo jeito como fazem os animais selvagens, sem maiores considerações. Proposição interessante, eu acho, mas não muito diferente de propor a loucura. Aliás, o Nietzsche enlouqueceu...

O que é a loucura, senão recusar a nossa civilização, com seus conceitos de normalidade? Achamos normal querer justiça, querer o amor. As pessoas que não querem isso se enquadram no que chamamos de louco. Não é?

Taciana Brown disse...

O Nietzsche morreu foi de amor pela Lou Salomé... Ele não me engana! Ficou louco pq foi tão feliz quando esteve apaixonado que quando a perdeu se recusou a amar novamente por medo de sofrer outra vez. Trauma é fogo! rsrsrrs
Quanto a loucura, as vezes eu sou meio louca também. Se apaixonar é uma loucura. Só sei que eu quero tudo de bom que a vida possa me dar. Não abro mão de amar mesmo que eu saiba que vou sofrer. "Quem ja passou por essa vida e não viveu, pode ter mais mais sabe menos do que eu. Pq a vida só se da pra quem se deu. Pra quem amou pra quem chorou pra quem sofreu. ai... quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não" Acho que estou mais pros poetas do que pros filósofos... Mas bora simbora pq ta valendo! Bjo pai!