segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O SENTIDO DA VIDA, DEMOCRACIA E PATRIOTISMO

No Brasil as últimas gerações não têm muito contato com o conceito de nação: os principais símbolos nacionais – a bandeira e o hino – pouco aparecem.

Fica a impressão de que a nossa democracia dá a todos cada vez mais liberdade. Propõe sempre menos respeito ou obediência ao que quer que seja. Ensina a exigir do país, sem oferecer amor em troca. Em outras palavras, o patriotismo deixou de existir.

Este ensaio especula sobre o que teria a ver o governo de uma nação democrática com o sentido da vida de cada cidadão; em outras palavras, este ensaio trata da ligação entre o que cada um espera da vida e o que espera do país.

Primeiro, vale lembrar que ninguém escapa de atribuir um sentido para a própria vida. Mas tudo indica que não se faz isso conscientemente, cada um avança baseado em uma noção subjetiva. Vai decidindo sem questionar sua crença básica sobre sua razão de viver. É importante reforçar isso aqui: a escolha de um sentido para a própria vida normalmente não é consciente.

Posto isto sobre o sentido da vida, vale então recapitular algumas noções sobre democracia. Primeiro, liberdade e democracia se confundem. A democracia vem junto com uma busca incessante por mais liberdade*. No entanto, democracia não é sinônimo de liberdade.

Ocorre que, sendo regida por esse desejo insaciável de liberdade, a democracia tende naturalmente ao caos. E não há liberdade verdadeira no caos.

Além disso, é importante perceber que a democracia direta é inviável para grandes populações. Não é sensato esperar que 200 milhões de brasileiros opinem sobre cada decisão de governo. Resta a “Democracia Representativa”, que entrega o Estado a um número menor de pessoas. Em outras palavras, a Democracia Representativa seria a maneira de se ter uma “elite governante” conciliada com a população. Um estudo profundo sobre isso está no livro “Considerações sobre o Governo Representativo”, de John Stuart Mill, escrito em 1862. Com muita objetividade, ele investiga, por exemplo, as condições que o povo deve preencher para que qualquer democracia faça sentido. Aliás, conclui que um requisito essencial é o povo esteja interessado em governar, ou seja, o povo deve querer governar a si mesmo. Isso parece óbvio: não se deve entregar o governo para alguém que não queira governar. Mas o óbvio frequentemente é desconsiderado e assim populações despreparadas entregam o governo a demagogos corruptos.

Retomando então o rumo deste ensaio, resta estabelecer a conexão entre o sentido da vida e a democracia. Concluindo, este ensaio propõe então, embora admitindo riscos, considerar o patriotismo como forma de conciliar a realização pessoal com uma ordem maior. Sempre lembrando que, sem essa ordem maior, haveria o caos. E a história mostra que – havendo o caos – a tirania sucede.

Mas como o patriotismo estabiliza a democracia? Ocorre que o patriotismo dá personalidade à nação: “entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada”. E o amor à pátria liga o sentido da vida de cada um a uma ordem geral; o patriotismo mostra um caminho possível, traz uma proposta de entendimento; torna mais concreta a ideia de bem comum. E assim percebe-se que a liberdade não pode ser desenfreada, compreende-se que há limites a respeitar.

Valem duas notas finais importantes:
primeiro, o patriotismo não é insensato. Não se trata portanto de hostilizar os outros países, achando que o nosso país é melhor só porque nascemos nele. Trata-se de um amor semelhante ao que se pode sentir pela família: um amor que pode ser natural e benéfico.
segundo, como tudo na vida, o patriotismo traz o risco de ser falso, demagógico. Mas esse risco – a democracia corre de qualquer forma.


*Platão, “A República” 562.

4 comentários:

Roberto Gadelha Pinheiro disse...

Ponto crucial está na requerimento de que "o povo deve querer governar a si mesmo". Esta vontade não existe em grande parte do povo brasileiro. O Estado adquiriu tal tamanho que muitos estão em estado de dependência, os mais privilegiados curtindo empregos públicos e os menos a benvinda Bolsa Familia. Fica assim o grande desafio para uma democracia mais saudável em nosso querido país: como despertar em todos este desejo de maioridade. Haverá campo fértil para os Renans, Sarneys e Eduardos Cunhas enquanto não houver uma maioria de brasileiros com a vontade atrevida de se governarem a si mesmos.

Unknown disse...

Marcos,
Muito boas tuas colocações em "O sentido da vida, democracia e patriotismo".
Não conheço o pensamento de Mill, citado em tuas ruminações, mas me parece que em uma sociedade composta de pessoas em que prevalece diferentes níveis sócio-culturais, vontades diversas e egoísmo acentuado, tal como se encontra, especificamente, a nossa, seja bastante difícil pensar em indivíduos que governem a si mesmos. Me parece que era esse o pensamento de Karl Marx exposto no manuscrito comunista.
Comungo mais com as ideias platônicas à respeito da democracia, que você bem aborda. Platão destaca muito a questão de educar o homem para promover um Estado ideal que seja, esse, fundamentado pelo conceito de justiça, de virtude, de bondade, governado por um sábio.
Mas que sábio há neste mundo de racionalidade cada vez mais acentuada para atuar como governante de um Estado ideal ideal?

Grande abraço,
Lucena

Unknown disse...

Perfeita a sua colocação da interdependência desses três paradigmas.
A meu ver, salvo algum fator ainda desconhecido,somos incapazes de nos representar por uma autêntica democracias, por muitas gerações futuras.


Zé Mauro

Hilton Losant disse...

Me contaram que Platão escreveu o seguinte: "a democracia surgiu no momento em que os pobres (menos afortunados) tendo conseguido a vitória sobre os abastados (os ricos) massacram uns, e exilam os outros e dividem igualmente com aqueles que restaram, o governo e os cargos públicos".
Bem, para ser breve: que se esperar de um povo em que o futebol está acima de qualquer suspeita? Ou seja: para esse povinho a palavra pátria = seu time de futebol; isso com direito a bandeira, escudos, poder central (dirigentes), soldados (jogadores) e por aí vai.
E para defender sua "pátria" fazem qualquer negócio...
Diante dessa dura realidade dita por Platão, e a realidade brasileira, exposta através de meus pensamentos em ebulição, fica a pergunta que não quer calar: - Se Platão fala em educar o homem, subentende-se que esse deve estar pronto para ser educado, ou seja, em formação, pois é difícil se educar quem já foi mal educado. Qual a solução?
Afinal, quando externamos alguns conceitos sobre qualquer coisa, esta deve estar ligada a uma necessidade urgente que devemos satisfazer.... Ou não?
Como sempre, meu amigo Marcos tocando nas nossas mais profundas feridas....