quarta-feira, 19 de outubro de 2016
AS RAÍZES DA BURRICE
Nos tempos que correm, em que a corrupção tem um destaque ímpar, ouve-se várias vezes a pergunta: "Espera aí, esse sujeito é burro, ou agiu de má-fé?" Este ensaio investiga essa diferença, entre burrice e má-fé.
Parece crença geral que a burrice resulta de falta de inteligência; que o burro tem limitações intelectuais. O que se vai tentar mostrar aqui é que a burrice é normalmente uma escolha. Não há limitação intelectual. Não é que a pessoa não consiga saber: a pessoa não quer saber.
Mas, antes de tudo, é preciso definir o que seja “burrice”. Para fins deste ensaio vamos definir “burrice” como sendo um ato que, em princípio, só prejudica, não beneficia: causa mal não só a quem faz a burrice como também a outros. Então, a burrice é um ato que, primordialmente, não traz vantagem para ninguém. A burrice, se é que traz algum benefício, será distante, oblíquo, improvável.
Assim, o drogado, por exemplo, não seria classificado como burro; porque faz mal a si, mas tem uma satisfação em troca, e ainda beneficia o traficante.
Retomando o fio da meada, tudo indica que a burrice acontece quando a pessoa vira as costas ao saber. O que se quer dizer aqui é que o conhecimento apresenta-se à disposição de todos, inclusive do burro. Mas, irritado, apressado, enfim, em um rompante, opta pela burrice, decide agir desconsiderando os fatos.
A burrice resulta de um impulso nervoso, de um desejo de se livrar imediatamente, sem mais dedicação, sem mais cuidado. A burrice envolve um tipo de alienação: o sujeito resolve se fixar em outra coisa, motivado, por exemplo, por medo ou por ambição. Não é que seja cego, apenas fica olhando para um outro lado.
Um caso talvez ilustre melhor: em abril de 2016 desabou a ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro. Havia sido inaugurada em janeiro. Esqueceram de levar em conta as ressacas que sempre existiram por ali. Desabou em condições bastante previsíveis.
A ciclovia, pendurada ao longo da Av. Niemeyer, durou três meses. Já a própria Av. Niemeyer, construída em 1916, resiste às ressacas há mais de um século, graças à evidente estrutura reforçada.
Quem lucraria com o desabamento? Por um lado, houve vítimas; por outro lado, os responsáveis também perdem, carregando as consequências da culpa. A Polícia indiciou 14 pessoas. Sete fizeram o Projeto Básico: são da Prefeitura. Houve ainda envolvidos por omissão na fiscalização e falha de previsão da Defesa Civil…
O que teria levado tanta gente a não considerar as ressacas? Quais as vantagens de contratar um projeto mais frágil, mais barato? Falta de capacidade intelectual geral seguramente não foi. Simplesmente ninguém se interessou em perguntar: “Essa ciclovia aguenta ressaca?” Ou, se perguntou, acatou a resposta:"Temos mais o que fazer"...
Vai ficando claro que, em suas raízes, a burrice parece indistinguível da má-fé. A má-fé é uma condição volátil em que o sujeito mente para si mesmo. O sujeito sabe, mas não quer sentir as consequências do seu saber. Sartre explica isso*.
Para concluir, pelo que se observa, as raízes da burrice surgem em uma condição instável, em que o sujeito ao mesmo tempo sabe e não quer saber. Sabe, mas quer gozar dos benefícios da ignorância. Isso é má-fé. A burrice e a má-fé nascem juntas.
* no livro "O ser e o nada"
NOTAS EXPLICATIVAS POSTERIORES:
1. Obviamente deve-se reconhecer que existem pessoas com restrições intelectuais, reconhecidas pela medicina. O que se quer dizer aqui é que a maior parte das "burrices" não decorre dessas limitações físicas.
2. A má-fé que aqui se aponta como causa da burrice mais comum é a má-fé conceituada por Sartre (mauvaise foi), explicada no texto.
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4 comentários:
Caro Marcos,
Segundo Dr. google, "má-fé" implica em
1. disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia.
2. jur. termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso.
Assim, deve existir "plena consciencia da ação maldosa", sendo talvez o contrário do que consideramos como uma ação "burra". Pode mesmo ser um ato muito inteligente.
Um abraço
Paulo
Oportuna esta ruminação mas o tema ficou longe de se esgotar. Sugiro que se explore o fato de quem erra não é necessariamente nem burro nem tenha má-fé. "Só não erra quem nunca faz" era o mantra que se ouve muito em tempos de estudante. A burrice estaria em se repetir o erro, não aprender com ele. Além disso há o "burro" de formação e que não tem culpa, aquele que lhe falta conexões neurais, aquele que não foi estimulado durante a infãncia. Infelizmente vê-se muitos desses pelas ruas e pelos campos deste nosso Brasil.
Tinha escrito um tratado, que se perdeu em um clique no celular...
Basicamente, se a burrice for considerada escolha, há ganho secundário, e a escolha é sempre inteligente, porque esse ganho se apresenta como benefício maior do que ignorar as consequências.
A falta de previsão das consequências seria uma impossibilidade causada pela burrice, sem ganho secundário. Assim a burrice não poderia ser escolha, e nesse caso não poderia se equiparar a má fé. Se há ganho secundário, mesmo que seja um apaziguamento provisório, é escolha consciente, então, má fé.
A burrice não deixa opções, é a total ausência delas.
A burrice eu até perdoou a má fé não. O danado é saber distingir. Concordo com tia Lili, se há ganho é má fé.
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